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sábado, 29 de junho de 2013

A Minha Sexta-Feira Santa em Banguecoque


Sexta-feira Santa o dia da paixão, morte e crucificação de Jesus Cristo. Dia da meditação, principalmente,  para todos os que professam a religião católica. Vivo num país, há duas dezenas de anos, de raizes budistas e onde a percentagem de católicos, na Tailândia está em meio por cento dentro de uma população de 64 milhões de pessoas. O catolicismo, no antigo Reino do Sião é introduzido pelos missionários portugueses e de quando se  fixaram na antiga capital Ayuthaya e  na proximidade dos cinco séculos. Não tarda, porém, a  importante celebração de 500 anos de um excelente relacionamento. 
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De momento, há ideias e projectos  para que a importante data tenha o realce que merece e sabemos que já foi nomeado um representante português, pelo Ministério Português da Cultura, para a organização dos eventos com a  cooperação da Missão Diplomática Portuguesa, em Banguecoque e com o departamento das Belas Artes da Tailândia. A chegada dos portugueses, oficialmente, data de 1511 e bem-vindos pelo Rei do Sião Rama Tibodi II e, constitui, sem dúvida, um marco histórico, importante, para o Reino do Sião que consiste na ligação entre este reino e a Europa. No Sião o arcaico sistema de defesa, onde, ainda, não são conhecidas as armas de fogo, foi  transformado pelos portugueses com a introdução de armas e canhões.
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Soldados lusos ministram aos siameses a arte de as manejar as armas, a construção de baluartes e outros sistemas de defesa para se protegerem dos constantes ataques do vizinho Reino do Pegú (Birmânia). A capital do Reino do Sião, na altura da chegada dos portugueses é Ayuthaya e situada a uns cem quilómetros do Golfo da Tailândia; o único caminho que existe é a navegalidade ao longo do rio Chão Praiá.
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Foi por este rio acima que em 1512, António Miranda de Azevedo, enviado especial de Afonso de Alquerque, ido de Malaca, chegou a Ayuthaya e inicia as primeiras conversações com Rama Tibodi II e a chave para a concretização do primeiro tratado de aliança e comércio entre Portugal e o Sião que viria a ser assinado pelo português (com credenciais de Embaixador) Duarte Coelho em 1516.

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Junto às duas margens deste rio, dividindo a cidade de  Banguecoque em duas partes, existem, ainda, nos dias actuais, três igrejas,  cujos nomes são bem portugueses: Imaculada Conceição, Santa Cruz e Senhora do Rosário. Nestes bairros já não são pronunciados nomes portugueses (além de José e Maria nos actos litúrgicos nas naves das igrejas) entre os residentes. O sangue luso já se encontra diluído pelas uniões inter-raciais.
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Entretanto os nomes dos lugares perduram e a memória de que foram locais de fixação da comunidade lusa/tailandesa de quando da queda de Ayuthaya sob a força das tropas, birmanesas, invasoras, em 1767. Todos os anos  nos eventos do Natal, Quaresma e Páscoa visitamos uma ou outra igreja. Por hábito  há vários anos,  durante Sexta-feira Santa, assistimos ao Auto do Calvário no Bairro de Santa Cruz. Comunidade já nossa conhecida há mais de uma vintena de anos.  
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Por ali muita coisa se transformou: a profanação do cemitério e exumadas as ossadas dos que ali foram sepultados desde a fixação da comunidade lusa/tailandesa a partir de 1767. Seguiram para outro campo de repouso, a cerca de 30 quilómetros de distância do Bairro de Santa Cruz. 
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O terreno da memória e da história do bairro era um espaço largo e nele depois de profanado foi construído um grande edifício que pensamos servir para alojamento do clero e freiras que exercem actividades no complexo religioso com igreja;  escolas de ensino primário e secundário. Um parque para carros; um outro espaço para a prática de modalidades desportivas dos alunos. Os residentes, pouco ou mesmo nada têm a ver com a descendência lusitana. Nem todos professam a religião católica, porém, vivem em perfeita harmonia dentro do aglomerado de vielas, estreitas e casas de madeira. Por ali, sem receio, a qualquer hora do dia ou noite  se pode caminhar por essas ruelas sem quem quer seja ser molestado. 
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Crianças bem nutridas, despreocupadamente, correm brincam, umas com as outras,  de  viela em viela e à nossa entrada, numa labiríntia dessas passagens, somos saudados, com inocente  cortesia, por uma  dessas crianças que não deveria teria mais de uns dois anos. Calculamos que devem viver no bairro umas mil pessoas. Os residentes são gente modesta, exercem actividades em Banguecoque que fica no outro lado do rio ou empregam-se em pequenas indústrias caseiras instaladas em suas casas . 
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Uma dessas mini-indústrias temos a confecção de queques, genuinamente portugueses, cuja produção tem passado de geração em geração desde que a comunidade lusa/tailandesa  se instalou em Santa Cruz.  A especialidade doceira ganhou fama na capital tailandesa!  
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Tem sido objecto de capas de revista; programas de televisão e quando alguma personalidade, pública ou mesmo da familia real tailandesa, visita o bairro de Santa Cruz a “fabriqueta” dos queques, é ponto obrigatório de paragem; provam a especialidade e apreciam-na. Os herdeiros para preservar a tradição dos seus antepassados não abdicam do forno redondo em tijolos, calcinados pelo correr dos anos, das cavacas de lenha e da amassadeira/alguidar cujo o eixo que vai dar o movimento de vai-e-vém a duas pás é accionado pela força braçal.
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Dentro do bairro há também umas poucas pessoas gradas e respeitadas pela comunidade há boa maneira e tradição portuguesa e entre elas destacamos o neto (já entrado na idade) do capitão Filipe que foi oficial da Marinha Real Siamesa e com alto cargo no Porto de Banguecoque no princípio do século XX.
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Não fugiram à objectiva da minha máquina fotográfica os rostos repletos de piedade e  concentração, na Via-Sacra. Fé de pureza incontestável e, esta a forma do bem estar e do viver entre a comunidade onde estão inseridos.
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No adro da igreja, ao fim da tarde operários dão os últimos retoques ao cenário de fundo que expressa o Monte das Oliveiras;  estendem um tapete vermelho desde a nave da igreja ao Cristo pregado na cruz; enquando mãos carinhosas preparam o andor onde a imagem de Jesus será deitado depois de solenemente, descrucificada  pelo José de Arimateia.
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Dentro do aglomerado de casas do bairro de Santa Cruz, afanosamente, vestem-se, maquilham-se os actores que vão participar no auto do calvário. Um grupo de jovens, dos dois sexos, durante o evento, vão estar na pele de guardas pretorianos, do bom e do mau ladrão; os samaritanos José de Arimateia e Nicodemo que irão fazer descer  Cristo da Cruz e amortalhá-lo. José a Virgem Maria, a judia piedosa Verónica, a pecadora Maria Madalena, convertida por Jesus Cristo, são figuras,marcantes, na cerimónia
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Junto às 7 da noite um rapaz de matraca na mão percorre o emaranhado das vias do bairro anunciando aos fieis que a cerimónia vai ter início. Outros, chegados da vizinhança, ocupam lugares no adro da igreja de Santa Cruz. O silêncio por ali é abismal, apenas, chega a eles o som da reza dos padres nossos e avé marias, da ladaínha, do interior da igreja.
José Martins/2005

sexta-feira, 28 de junho de 2013

A MINHA CONSOADA EM BANGUECOQUE -. 2003


      
Estava a ver que na minha mesa de consoada não ia ter bacalhau!
Estranho que pareça mas a realidade é que na cidade, moderna, de Banguecoque não há, mesmo, bacalhau!


E, ceia da consoada sem o fiel amigo é igual a um caldo verde sem um golpe de azeite e uma        rodela de chouriço.

O bacalhau, no espaço lusófono, está institucionalizado e, os “portugas”, estejam aonde estiveram, podem abster-se dele durante o ano mas na noite de consoada é que não.

Tive bacalhau e graças ao meu amigo, de longa data, Pedroso Lima, Director de Exportação da SONAE Indústrias que, prontamente, atendeu à minha súplica, de pobre de bacalhau que sou e, depois de lhe ter enviado um SOS através da Internet passado 36 horas,  bacalhau às postas, heroicamente, tinha vencido a distância de 15 mil quilómetros, do Porto, até capital tailandesa.
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Ao meio dia na Pátria Lusa e sete da noite na Tailândia estava sentado na minha mesa de consoada que demorou pouco mais de uma meia hora. A tradição da “bacalhoada” foi cumprida  e,outra, ainda, havia  para levar a cabo que era o de visitar os três bairros portugueses, de nomes, (portugueses ou descendentes já ali não existem) em Banguecoque.


Mas pouco depois de sair de minha casa, portuguesa desde os alicerces, à varanda (que a baptisei do Oriente) até ao telhado, telefonei alguém que me é extremamente querida e, uma parte constante, de minha vida que alimenta  a minha inspiração de “escribamaníaco”,  irreverente, que me ajuda e me dá me alento quando me assento, na minha mesa de trabalho, para uma nova, aventura, nem sempre fácil, de escrever uma história. 
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A minha musa, atendeu a minha chamada telefónica, ouviu a minha voz e eu a dela. Diálogo curto, cerca de um minuto, que me bastou e inspirou-me para escrever esta história que só a ela lha dedico.
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A visita  a esses bairros a vou fazendo há mais de uma vintena de anos e, muito especialmente na noite de consoada. Este ano iniciei a minha peregrinação pelo bairro da Imaculada Conceição, enquanto que no Natal do ano passado efectuei o trajecto pelo sentido inverso e principiei-o pelo Bairro de Santa Cruz. 
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Pelo meio do caminho fica-me o da Senhora do Rosário (já desaparecidas as casas do bairro e até as gentes luso-descendentes). Valha-me ao menos que o nome da igreja continue a ser conhecido e pronunciado na língua do meu e, também, de todos os lusófonos, Luis de Camões.
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O princípio da noite de consoada na capital do antigo Reino do Sião era igual à das noites anteriores. As mesmas filas de carros a esvaziarem o centro e em direcção aos arrabaldes para onde a cidade se estendeu. Sem grandes problemas às oito horas estava a entrar no bairro da Imaculada Conceição, fundado depois de meados do século XVII, pelos padres do “Padroado Português do Oriente”.
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Um bairro que conheci de “riquexós” de pedal e onde, pelas ruelas, se poderia circular e estacionar o automóvel. Na noite de minha consoada (todos os dias assim acontece) não havia um metro, que fosse, disponível, para estacionar o veículo. Lá consegui entrar numa das ruas, apertada, e estacionar, o Honda, no adro da igreja da Imaculada.

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A noite de consoada no bairros de nomes portugueses, em nada se assemelham às realizadas em Portugal e nos grandes comunidades lusófonas. 
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Não há bacalhau com batatas , perú (mesmo de plástico (tipo Bush no Iraque a fazer de conta), bolo rei, com fava ou sem ela, rabanadas, aletria e frutas secas. 
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Mesas cheinhas de comida, a céu aberto, onde não falta um porquito, assado, coradinho, frangos,  peixe assado e frito, grelhado, acompanhado com o famoso arroz tailandês (5 quilos menos de um Euro e meio) e, como bebida, a cerveja ou o  “whiskie” escocês  ou “Mekong” ( run fabricado localmente).
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Nestes bairros, que foram fundados e habitados pelos portugueses e pelas gerações luso-tailandeses que se seguiram, embora, como foi natural e dada à distância não tivessem ficado o bacalhau e outras especialides culinárias, além do portuguesíssimo fio de ovos, ficou o espirito cristão da fraternidade e a hospitalidade, bem característica, dos portugueses.
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A noite é de festa e de alegria. As plantas das janelas da beira da rua são ornamentadas com milhares de luzinhas multicoloridas. 
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Não fica ignorada e indiferenciada a decoração do portão de entrada para o cemitério do bairro. O residentes vivem, o seu dia a dia, com os seus mortos. Ainda, ali estão designados nomes e, residem, campas de gente portuguesa e luso-descendente. 
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Dentro da igreja, com primor decorada, crianças vestidas de anjos,junto ao presépio e os três rapazotes trajados de Reis Magos a rigor, o Melchior,Gaspar e Baltazar vêm com as oferendas, para o Deus Menino, que as entregam a José.
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Um padre, sentado, junto ao confessionário, enquando as almas, vivas, não chegam para se limparem dos pecados lá vai lendo, no livro aberto, o breviário. 
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As criancinhas vestidas de anjos caminham para  ala da da igreja e começam a dançar ao som da música sacra. A mamãs e os papás, os irmãos e amigos, levantandos ou sentados procuram o melhor ângulo para captar, para a máquina digital,  a imagem do seu anjinho
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A nave da igreja tem a lotação esgotada de fieis. Nem todos vivem no bairro da Imaculada Conceição, outros amigos e familiares chegam, ali, de outros pontos da cidade ou provincias  para se associarem à ceia e à Missa do Galo.
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Enquando não chega a celebração da missa do Galo, aproveito o tempo para dar uma volta ao bairro. Um local que me é, bastante, familiar e me dá gosto caminhar pelas ruas, acanhadas, até à margem do rio Chao Praiá. Em todas as casas há alegria, muita música, muita luz e comida até chegaria para a festa dos Reis.
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Numa casa, com um largo pátio, um conjunto de música “rock”  num tablado improvisado, com um vocalista, guedelhudo, executa sons de estoirar os ouvidos que atravessa  o bairro e chega à outra margem do rio. 
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Mas afinal será que a noite do Natal de consoada é só de silêncio e de recolhimento?
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Não era ali,por certo, no espaço, musical roquista, onde todos os jovens e jovens de saias, apertadas; com um bom palmo acima do joelho, bambaleiam, em estilo erótico, o traseiro.
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Aproximei-me da margem do meu rio (o Chao Praiá), no acabar da viela, principal do bairro da Imaculada Conceição e, à aquela hora se quedava calmo. Raios de luzes, verdes e vermelhos das margens de Banguecoque Noi, flutuavam na ondulação, natural, da água. 
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Dentro da fantasia de minha imaginação, julguei-me, junto, a Rosa Hunter, lusa-descendente, nascida no bairro, por volta dos anos 1800, a consolar-lhe a alma, pelo casamento falhado com o escocês, protestante, Roberto Hunter, que após a separação embarcou os seus dois filhos para  a Escócia para  ali serem educados na “Igreja Livre da Escócia”.  
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Uma Rosa, murcha, com uma vida dolorosa que absorvia os seus dias rezando, de joelhos e mãos postas,  junto ao altar de S. Tomás de Aquino para que as suas crianças voltassem ao seu regaço, no bairro (conhecido e ainda hoje) Sâmsèngue, da Imaculada Conceição.
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Dei a última olhadela ao rio do pequeno embarcadouro de canoas e pequenos barcos a motor e  dirigi o meu olhar para o fim da viela de acaba no adro. A igreja da Imaculada Conceição estava iluminada até à cruta da torre e as luzes da cruz se avistavam, até longe, num Banguecoque, onde a maioria da população professa a fé budista.
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Pelos escassos cem metros do comprimento da viela, mesas abastadas e gente sentada nas soleiras, em bancos e cadeiras sorriam-se para mim, o “portuguet” (português), já  assíduo na noite de consoada e todos me ofereciam lugar, alguns se levantavam, para me juntar ao repasto de suas  mesas de Natal.
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Alguns, já eram velhos e ainda novos quando os conheci, já lá vão uns vinte anos. Outras, faces, com traços fisionómicos de transmontanos que habitualmente os observava, em tempos idos, sentados nas cadeiras da igreja nas celebrações do Natal e Páscoa, estavam os lugares ocupados  por outros fieis.  A lei do tempo e da natureza já os transportou até às portas do S.Pedro e os colocou no Céu.
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O adro tinha sido ocupado por carros. O meu Honda, encravado e sem a minima possibilidade de o retirar dali. Futurei: terei que ficar até até ao fim da Missa do Galo e, sem poder dar a volta de noite ao bairros de Santa Cruz e do Rosário.


A celebração da Missa do Galo começada e as, pessoas, juncadas até à porta da entrada. Quedei-me no largo junto a outros fieis. Observo a mocidade e os seus telemóveis a faiscar luzes anunciando a chegada de uma chamada. Sorrisos, digitalizados, chegam do outro lado que são correspondidos.
    A Missa do Galo, a transmissão, da cerimónia, através de autofalantes chegava ao adro e a todo o bairro. 


Enquanto decorria a  celebração, eu estava sob a protecção do Menino Jesus, para me absolver da minha falta de ter saído do adro e dirigi-me para antiga igreja e onde há mais de 150 anos a Rosa Hunter rezava, pelo regresso dos seus dois filhos da Escócia e  adornava, de flores, o altar de S. Tomás de Aquino.
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A porta fechada apenas com o trinco e que a pressão do polegar o fez desactivar e a velha porta de madeira de teca cedeu a um leve empurrão. Dentro da antiga  igreja muita história havia, ao pó e arrumados por todos os cantos: paramentos; objectos litúrgicos e fotografias de missionários portugueses e estrangeiros que na Imaculada Conceição ensinaram nas escolas e nos altares os bons residentes do bairro os caminhos da fé cristã.
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Saí e voltei ao adro. Decorria a cerimónia do beija o Menino Jesus, nas mãos piedosas de um  dos  padres, celebrantes da Missa do Galo. Ao lado um rapaz  vestido com o hábito franciscano, com uma mecha de algodão em rama segura pelos dedos, que embebia, de quando em quando, no líquido de numa tijelinha e lá ia desinfectando os pésinhos do Deus Menino, depois de serem beijados. 
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A madrugada do dia 25 já tinha começado à uma hora. Os fieis a debandarem da igreja e do adro. Retirei o Honda do “encravanço” a que esteve sujeito por umas horas e guiei-o, com alguma dificuldade dentro do congestionamento até à rua principal.
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A noite, a caminhar para o dia, estava serena e fresca. A um quilómetro de distância a caminho de minha casa, passo pela área da “Kaosarn”, local, popular e frequentado por gente jovem, estrangeira, que por pouco dinheiro se hospedam e divertem naquela zona.
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Na “Kaosarn”  a madrugada ainda era uma criança, com luzes faiscando à porta dos inúmeros bares e discotecas que atiravam para a rua os sons metálicos das bandas, ali actuando, ou dos CD rom.
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Gente alegre e despreocupada, da Europa da América ou dos países da Ásia, enchiam a rua “Kaosarn” caminhando com latas de cerveja e coca-cola nas mãos.
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Passo junto ao palácio do Parlamento, todo iluminado e mais abaixo a imponente estátua do Rei Chulalongkorn que vive, apesar de sua vida terrena ter terminado em 1910, como o símbolo  de progresso e de união do povo siamês.
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E seguindo a rota do meu regresso ao leito de dormir, um pouco mais ao sul da Praça Real, sigo pela avenida Rajadamoen onde está erigido o monumento da Democracia, também iluminado. Mais abaixo o “Grande Palácio”, a sétima maravilha da naturteza construída pelo homem, a relembrar que nem sempre depois da derrota se gera o caos.
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O “Grande Palácio” é a Glória de Aiutaá.
A antiga capital caiu, de facto, em Abril de 1767 às forças invasoras do Reino do Pegú, mas, não tardou que o Reino do Sião, das cinzas, voltasse ao lugar de um grande Reino, debaixo da bênção, orientação e protecção dos seus Reis.
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O “Grande Palácio” imortaliza, num dos muros laterais, em frente ao palácio do Ministério da Defesa, foram instaladas as caracteristícas ameias, dos fortes portugueses, a recordar que estas foram, por séculos, uma parte importante e estratégica e defesa da velha capital do Sião, Aiutaá.
José Martins – 2003

quinta-feira, 27 de junho de 2013

As Minhas Memórias de Banguecoque NOITE INESQUECÍVEL



Foi no dia 14 de Maio de 1994 um dia muito especial, para mim e para a Embaixada de Portugal em Banguecoque. No príncipio da noite a Rainha Sirikit a Real consorte de Sua Majestade o Rei da Tailândia, iria ser recebida pelos Embaixadores de Portugal, Sebastião e Luisa de Castello-Branco na histórica residência a “Nobre Casa” para o convite lhe fora feito, para um jantar, pelos Representantes de Portugal e, depois deste assistir a um serão e sarau de arte que se prolongou até junto à meia noite.
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Estiveram presentes cerca de 70 convidados entre os quais membros da Família Real e do Conselho Privado de S.M. o Rei e do Corpo Diplomático acreditado, no Reino da Tailândia. 
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Nunca imaginaria que quando em 1960 vi através do “ecran” as imagens a preto e branco difundidas pela recente fundada RTP a visita a Portugal dos Reis da Tailândia e que passados 34 anos iria fotografar, a escassos metros de distância, a Rainha Sirikit que foi considerada uma das mulheres mais belas, do Mundo, naquela época. Preparei a minha Nikon F3. 
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Apesar de estar bastante familiarizado com o seu funcionamento, programei na minha mente a abertura das lentes e intensidade
 
da luz do “flash”, para que nenhuma foto falhasse e se perdesse imagem daquele e único especial evento real. Uns dias antes e quando a Embaixatriz Castello-Branco me convidou para ser o fotógrafo oficial da Embaixada; recomendou-me para que não usasse demasiadamente o “flash” e que compassadamente premisse o disparador da máquina durante o percurso do serão e sarau de arte.
 
 
Com todo o rigor, protocolar,que a ocasião merecia cumpri à risca as ordens recebidas da dinânica embaixatriz que durante várias anos foi a Presidente da 
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Organização das Esposas dos Diplomatas, em Banguecoque, para os eventos de caridade em favor da Cruz Vermelha Internacional da Tailândia com o patronato de S.M. a Rainha Sirikit.
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Ao fim da tarde, sem grandes aparatos de segurança, a Rainha Sirikit acompanhada dos membros da Familia Real e do Conselho Privado de S.M. o Rei da Tailândia chegou à Embaixada de Portugal e esperada na arcada da “Nobre Casa” pelos Embaixador e Embaixatriz Sebastião e Luisa de Castell-Branco. 
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A soberana antes de receber as boas vindas dos anfitriões caminhou por cima de uma carpete, vermelha, estendida ao longo do centro da arcada da “Nobre Casa” e nos lados, formando duas alas, os Embaixadores e suas esposas acreditados na Tailândia.
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Após um curto descanso no Grande Salão do rés-do-chão da “Casa Nobre” e residência dos Embaixadores de Portugal S.M. a Rainha subiu ao primeiro andar para um jantar, cujo a este se associaram todos os convidados. 
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Senti-me fascinado e como dentro de um sonho quando através do visor da Nikon F3 procurava colher o melhor ângulo de imagem e o sorriso  de uma Rainha que durante mais de 20 anos me foi familiar no televisor de minha casa e, por ela tenho uma enorme admiração pela sua Obra em prol da  mulher tailandesa o que com isto se tornou um símbola das mesmas.
 
   
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Rainha de uma elegância incomparável, esmerada na sua forma de vestir, como que a dar o exemplo às mulheres tailandeses que a beleza feminina parte do saber da arte do bem vestir. 
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Uma dedicação, constante, às sedas tailandesas e desenvolvidos os padrões de desenhos sob sua orientação cuja  divulgação as tornou mundialmente famosas quer na alta sociedade ou nos meandros da moda internacional.  
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Gosta de usar chapéus dentro das digressões que efectua às mais remotas paragens da Tailândia em que os mesmos se caracterizam no estilo campesino do país. O serão e sarau de arte teve início junto às oito  e prolongar-se-ia até próximo da meia noite.
 
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Depois do sarau saí da “Nobre Casa” e fui até junto do paredão do Jardim da Embaixada e olhei o meu Chao Praiá e o rio da minhas paixões. Umas poucas embarcações navegavam com luz frouxa rioabaixo/acima e para as margens de Banguecoque e Tomburi. 
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O luar da noite espelhava na ondulação da corrente bonançosa do rio. Olhei os ponteiros do relógio e deram-me conta que outro dia estava a nascer e, lembrei-me, que teria ainda de fazer a peça para noticiar o evento  e enviá-la para a Agência Lusa.
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O texto:
Lusa/Banguecoque 15.05.94
Raínha da Tailândia na Embaixada de Portugal. A histórica Residência dos embaixadores de Portugal na Tailândia abriu ontem, dia 14, as suas portas de par em par, para receber Sua Majestade a Raínha Sirikit, que veio jantar a convite de Sebastião e Luisa de Castello-Branco. Insígne distinção Real esta, sem precedentes algum em outras embaixadas na capital tailandesa.
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Entre os cerca de setenta convidados, contavam-se membros da Família Real e do Conselho Privado do Rei, e embaixadores, cujas mulheres presentearam a Raínha com uma colecção de 29 bonecas em trajos regionais dos respectivos países. 
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Depois do jantar, houve danças e cantares executados pelos anfitriães, pelos embaixadores e embaixatrizes da Argentina, Espanha, Israel, África do Sul e Peru, e pelos Conselheiros Privados do Rei, com destaque do prestigioso Primeiro Ministro na década passada, General Prem Tinsulanonda.
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Foi a segunda vez, este ano, que os Soberanos da Tailândia distinguiram Portugal e is seus representantes. Em Fevereiro, a Exposição do Azulejo Português fora inaugurada pela muito estimada Princesa Real Maha Chacri Sirindhorn, não em nome próprio, como mais habitualmente se vê e constitui já uma grande Honra, mas em representação do rei seu pai e ao som do Hino Real.
José Martins/Correspondente