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quinta-feira, 25 de abril de 2013

MEMÓRIAS - VISITA DO PM CAVACO SILVA A BANGUECOQUE

 "Desde os 30 e mais anos que vivo na Tailândia estive, sempre, no lugar certo a reportar tudo relativo a Portugal na Tailândia"
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O PRIMEIRO MINISTRO CAVACO E SILVA EM BANGUECOQUE EM 20-21 DE ABRIL DE 1987Faz hoje 21 anos que o o Primeiro Ministro Prof. Aníbal e Maria Cavaco Silva se encontravam em Banguecoque. A comitiva era composta:

Primeiro-Ministro Prof. Aníbal e Maria Cavaco Silva;
Ministro dos Estrangeiros Pedro e Maria Pires de Miranda;
Dr. José Almeida Fernandes (Chefe de Gabinete do PM);
Dr. António Martins da Cruz - (Conselheiro Diplomático do PM);
Dr. Rui Quartin Santos (Ministro-Conselheiro do MNE);
Dr. José Arantes Rodrigues (Assessor de Imprensa do PM);
Dr. Francisco Sarsfield Cabral (Assessor económico do MNE);
Coronel Luis Marinho Falcão (Director da segurança do PM):
Dr. Luis Xavier de Brito (Médico do PM);
Dr. Fernando Araújo ( Oficial do Protocolo);
Srª. Maria Soares Pires (Enfermeira)
Sr. José Jerónimo Cardoso (agente de segurança ao PM);
Sr. José Santos Duarte (agente de segurança ao PM).
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Achamos, e porque poderá servir de matéria histórica para os interes-sados, vamos transcrever na íntegra o que se haja passado durante a visita oficial do então Primeiro Ministro Cavaco Silva, durante dois dias (20-21 Abril de 1987) à Tailândia. 
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A Missão Diplomática de Portugal em Banguecoque estava sob a gerência do embaixador Mello Gouveia. 
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Diplomata pragmático que tudo que projectava nunca falhava. Uma semana antes (nunca necessitava de muita gente, mas pouco e boa), na sala do expediente da chancelaria reune-se com: Dr. Paulo Rufino, Fernando Oliveira (instalado na chancelaria e a representar o Grupo Amorim, o Chanceler, tailandês, Chalerm e eu José Martins. 
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Foi dado ao grupo dos quatro as seguintes atribuições: Dr.Paulo Rufino seria a pessoa assistir os diplomatas inseridos na comitiva do Primeiro-Ministro; Fernando Oliveira o homem que deveria estar
permanentemente na chancelaria, na sala de comunicações (nessa altura não havia fax e a Internet uma ilusão!), a receber e a enviar as comunicações para o MNE, acrescentando-lhe a assistência aos jornalistas a que lhes estava franqueado o telex e o telefone para as comunicações para os seus jornais. Eu o homem para assistir a "rapaziada" jornalistica.
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Na sala de comunicações foi colocada uma geleira (grande) carregada de cerveja e refrigerantes para a "rapaziada" da comunicação social matar a sede. O embaixador Mello Gouveia recomendou ao sempre eficaz Fernando Oliveira: "trata-me bem os jornalistas"! O chanceler Chalerm para tratar dos passaportes da comitiva e a bagagem. 
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Eu sou o "homem" para exteriores e transportar a "rapaziada" da comunicação social, durante a noite pela cidade de Banguecoque. Durante o dia para transportar o "pivot" da televisão de Macau (TDM), o jornalista Fernando Maia Cerqueira, que reportava para Macau e em parceria com a RTP. 
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A acompanhar o PM Cavaco Silva estava o João Pacheco Miranda da RTP, que ao fim do dia juntava o material e seria expedido para Lisboa através do Satélite do Canal 5 de Banguecoque. Todos estes serviços estavam por minha conta e não se poderia perder tempo no caminho. 
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O Canal 5 (televisão sob a tutela do exército, real tailandês foi impecável na assistência) facilitou a sala e todo o material de emissão aos jornalistas João Pacheco Miranda e ao Fernando Maia Cerqueira. 
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Trabalhavam o material antes do expedir, para Lisboa, como pretendiam. Como nota curiosa e já passaram mais de 20 anos a saídas à noite estavam programadas entre mim e o Dr. Paulo Rufino. Se o Dr. Paulo Rufino ia para uma determinada zona eu seguia para outra diferente. 
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Bem é que cautelas e caldos de galinha, nunca fizeram mal a ninguém! E nunca confiar na rapaziada da comunicação social, não fossem eles encontrar o grupo da comitiva oficial a beber uns copos num dos bares da "Paptong" acompanhados de umas jovens beldades. Todos os homens são pecadores (embora se apresentem uns "puros"); a ocasião faz o ladrão e não estão livres à tentação de trincar a maçã que uma doce e traiçoeira Eva lhe ofereceu. 
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Claro está os jornalistas também caiem em tentação, só que para eles há o ditado do frei Tomaz: "lê aquilo que eu escrevo e não repares para aquilo que eu faço"! Surtidas nocturnas muito bem planeadas e tudo correu excelentemente! 
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Só não teria corrido bem ao jornalistas João Pacheco Miranda da RTP se não tivesse sido eu a desenrascá-lo na casa de massagens "Chao Prya I" para os lados de "Pratunam" área. Ficou tudo arrumadinho (por 700 baths) entre ele e a massagista, dado que ela (jurou-me a pés juntos) que nunca tinha feito uma coisa (que ele lhe pediu) em sua vida... Os jornalistas até dão para umas "cachas" interessantes e a do Pacheco Miranda até seria na altura...

Programa da visita oficial:
20 de Abril de 1987, pelas 10.25 as entidades tailandesas esperam o PM Cavaco Silva e sua comitiva na Sala VIP, do aeroporto da "Força Aérea Real Tailandesa". Os dignatários: H.E. Sr. Pong Sarasin, vice.Primeiro Ministro, sua esposa Senhora Malinee Sarasin.
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10.40 PM Cavaco Silva e sua comitiva chegam a Banguecoque a bordo do voo TG 603 vindo de Hong Kong. A aeronave estaciona junto à gare do aeroporto militar. Traje: "Lounge Suit" (casaco e gravata).
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11.00 - PM Cavaco Silva e sua comitiva parte do aeroporto para o Palácio do Governo.
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11.50 - PM Cavaco Silva é recebido pelo PM tailandês, General Prem. São tiradas as fotos habituais e entre os dois PM houveram troca de palavras durante 15 minutos.
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12.20 - Chegada ao Palácio do Governo as senhoras de Maria Cavaco Silva e Malinee Sarasin vindas do Hotel Oriental.
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12.30 - Almoço no Palácio do Governo em honra do Primeiro Ministro de Portugal Cavaco Silva e oferecido pelo PM tailandês General Prem. Toda a comitiva está presente (inclusivamente os jornalistas).
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14.30 - Fim do almoço e o PM Cavaco Silva e esposa transportados para o Hotel Oriental.
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14.30 - Ministro dos Negócios Estrangeiros, eng. Pedro Pires de Miranda em "motorcad" segue para o Palácio do Ministério dos Negócios Estrangeiros, onde se encontrará com o seu homólogo tailandês Marechal da Força Aérea Real Tailandesa Siddhi Savetsila. Conversações que se prolongaram por 30 minutos. Transportado o ministro Pires de Miranda para o Hotel Oriental.
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17.30 - O PM Cavaco Silva dá uma Conferência Imprensa para os jornalistas/correspondentes estrangeiros, locais e portugueses. Cavaco Silva (o autor esteve presente) defendeu os direitos dos timorenses e acusou a Indonésia pela violação dos Direitos Humanos. 
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Dá-se então um episódio muito curioso no final da conferência, quando foi confrontado com a última pergunta que lhe foi feita, na língua portuguesa, absolutamente correcta, pelo um jornalista tailandês M.L. Tuang Snidvongs que o PM Cavaco, admirado lhe perguntou: "o senhor fala português"? 
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Tuang Snidvongs expremia-se de facto em português (ao longo de vários anos encontrei-me com Tuang, em eventos comerciais ou conferências de imprensa e sempre falamos na pergunta que fez a Cavaco Silva) e ainda hoje o fala, embora já com muitas frases esquecidas. Tuang Snidvongs explicou ao PM português a razão porque falava português. 
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É que seu pai tinha sido embaixador da Tailândia em Lisboa e de quando o Tuang era criança viria aprender a língua lusa com os amigos, vizinhos, miúdos como êle.
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20.00 - Jantar oferecido pelo embaixador Mello Gouveia em honra do PM Cavaco Silva e esposa no restaurante Rim Naam, do Hotel Oriental e na oposta margem. Onde naquele tempo era o mais fino e tradicional restaurante junto à margem do Rio Chao Prya. O PM Cavaco Siva e todos os convidados tiveram que descalçar os sapatos, entrar descalços e assim se conservarem enquanto dentro do Nim Raam. Porém e de realçar o embaixador Mello Gouveia, convidou toda a comunidade portuguesa, residente, em Banguecoque. Era assim o diplomata que lhe dava gosto ter junto a ele, em todos os eventos (desde que não fossem protocolares) os portugueses residentes. 
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E, bem recordo com saudades, de quando realizava eventos nocturnos no jardim da residência, todos os convidados partiam e, junto à base do pau de bandeira, quedava-se por ali um tempo sem limites a contar histórias e nós os portugueses ficavamos ali a ouvir o contador de histórias que em verdade o era. 
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Nunca o embaixador Mello Gouveia fez uma festa num hotel ou encomendou comidas de fora (aparte de uma onde esteve o pianista Adriano Jordão), mas todas eram confeccionados na cozinha da residência, onde não faltavam os petiscos portugueses e mesas com fundos em azulejos cheios de garrafas de bons vinhos portugueses. 
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A fartura de tudo e a hospitalidade foram dons que sempre acompanharam o grande Homem (falecido há uns meses 2013) da diplomacia portuguesa.
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Dia 21 de Abril de 1987 - Às 9 da manhã o casal Cavaco Silva e toda a comitiva parte para o Gran Palacio e visitam o Templo do Buda Esmeralda. Regressam ao hotel Oriental e às 10.30 embarcam no barco "Oriental Queen" e o Governo Tailandês oferece-lhes um passeio ao longo do rio Chao Pray (Praiá) onde está incluído o almoço. 
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Às 19.30 partem para o aeroporto de D.Muang. Às 20.30 tomam o voo AF 180 (Air France) Banguecoque Paris e dali para Lisboa. 
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A visita do PM Cavaco Silva à capital da Tailândia correu pelo melhor sem uma falha que se registasse. Tudo isto se deve ao dinamismo e saber do embaixador Mello Gouveia e aos colaboradores da embaixada, onde eu estou incluído. 
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Porém vale a pena aqui inserir algumas passagens que o Prof. Cavaco Silva insere no seu livro que o intitula: "Aníbal Cavaco Silva - Autobiografia Política - Temas e Debates - Actividades Editoriais, Lda, relativas a sua visita a Banguecoque:
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" No regresso a Lisboa parei em Banguecoque, para uma visita oficial de um dia (emendo foram dois), a convite do primeiro-ministro da Tailândia, general Prem Tinsulanonda. 
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Quando em 3 de Abril de 1987 a Assembleia da República aprovou a moção de censura apresentada pelo PRD e o Governo caiu, pensei imediatamente cancelar a minha visita à Tailândia, no que fui desaconselhado, porque já anteriormente Mário Soares, enquanto primeiro-ministro, tinha, à última hora, cancelado uma visita àquele país. A Tailândia era vista juntamente com a China, a Coreia do Sul e o Japão, como um dos países da Ásia como potencialidades para a expansão das relações comerciais de Portugal. 
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Era um país com uma herança histórica portuguesa - os Portugueses tinham sido os primeiros ocidentais a chegar ao reino do Sião, nos princípios do século XVI - em cujo estudo e recuperação se empenhava o nosso embaixador, José Mello Gouveia, com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian. Portugal era o país da Comunidade Europeia com a mais antiga representação diplomática na Tailândia. 
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O objectivo principal da minha visita e do ministro Pires de Miranda, que me acompanhava, era dar a conhecer Portugal como membro de pleno direito da Comunidade Europeia, e criar um clima político favorável ao incremento das relações económicas. As trocas comerciais registavam um forte desiquilíbrio - a mandiona era a principal importação de Portugal - e estava em discussão vários projectos de acordos bilaterais no domínio económico. 
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Considerava-se também de interesse a negociação de um acordo aéreo para que a TAP pudesse escalar em Banguecoque. Timor fez parte da agenda das minhas conversações porque a Tailândia, contráriamente à China, apoiava a Indonésia. A posição portuguesa foi explicada às autoridades tailandesas e fez-se-lhe sentir que, sem a solução da questão de Timor, Portugal não apoiaria o aprofundamento da cooperação entre a Comunidade Europeia e a ASEAN (Associação das Nações do Sudeste Asiático, que englobava a Indonésia, Singapura, Malásia, Tailândia, Filipinas e Brubei), a que a Tailândia dava muita importância. 
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Em declarações aos jornalistas tailandeses denunciei a violação dos direitos humanos em Timor Leste, o que incomodou autoridades indonésias, tendo o ministro dos Negócios Estrangeiros, dias depois, vindo acusar-me de desconhecimento da situação no território. Estavam então presos na Tailândia dois cidadãos portugueses condenados a 25 anos de cadeia por tráfico de droga. 
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Na perspectiva da minha visita e ba sequência de diligêncais feitas pelo embaixador português (N.minha Mello Gouveia) foi concedido o perdão real a um deles. Divulguei a notícia na conferência de imprensa que dei em Pequim, no Palácio do Povo, no dia 14 de Abril de 1987".
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Nota minha: Aqui o Prof. Cavaco Silva entra em erro e se compreende na informação em que diz que foi concedido o perdão real a um deles. Um preso saiu (do sexo masculino) precisamente, em liberdade após um dia da partida do Prof. Cavaco Silva. 
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A do sexo feminino saiu em liberdade passado um mês. No entanto o perdão já tinha sido concedido e a demora de um mês se deve aos assuntos burocráticos. 
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Por razão deontológicas (que felizmente ainda se mantêm dentro de mim) não designamos os nomes dos dois detidos, que por várias vezes os visitámos, na cadeia e lhe levamos lembranças. No decorrer do tempo voltaremos a mencionar a visita, oficial do PM Cavaco Silva à Tailândia (hoje o Presidente da República) e quais os frutos que teriam sido colhidos desde há 21 anos.
José Martins