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quinta-feira, 21 de junho de 2012

MEMÓRIAS DE BANGUECOQUE: AZEDAS E DOCES – HÁ 20 ANOS



Como já me referi, antes, tenho imensas memórias de Banguecoque, para contar, algumas azedas e outras doces.
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Memórias onde conto a minha actividade ao serviço da diplomacia portuguesa, na Embaixada de Portugal, em Banguecoque, por mais de duas dezenas de anos.
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Servi a diplomacia, portuguesa primeiro, por amor à camisola (de borla) eventual, assalariado e finalmente, por poucos anos e antes da reforma, triunfantemente, fui inserido no funcionalismo público, pela graça e consideração aos espezinhados mangas de alpaca, do ministro dos Estrangeiros, de então, o Prof. Jaime Gama.
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Por acidente e por razões já contadas e mais adiante me referirei, como entrei ao serviço da diplomacia portuguesa.
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O meu começo foi o de tarimbar a pintar, por 27 dias, as paredes em redor do Jardim da Residência dos Embaixador e da Chancelaria, cujo o meu trabalho custou, simbolicamente, aos cofres da missão diplomática 2.500 bates, ou seriam, hoje, o trabalho de 27 dias de pincel na mão e a subir os degraus da escada de aluminino cerca de 50 euros.
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É verdade! Há documento nos arquivos da chancelaria da embaixada, em Banguecoque, Palácio das Necessidades (cópia em meu poder) que provam isso.
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Mas eu não vou aqui apontar o dedo ao Embaixador Mello Gouveia da ridicularia da dávida de 50 euros por 27 dias de trabalho, porque o fiz com todo gosto e maior prazer. Deixamos o conto para mais tarde.
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Desejo nesta peça, já histórica, referir-me de quando eu já assalariado do Ministério dos Negócios Estrangeiros, com um salário de 500 dólares mensais, sem direito a férias, o respectivo subsídio e do Natal, quando como patrão tinha o embaixador, o nobre, Dom Sebastião de Castello-Branco (1988-1995) e apenas, os dois, de um de Janeiro a 30 de Junho de 1992 fizemos o primeiro semestre da Presidência Portuguesa da União Europeia.
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Não havia número 2 da embaixada e o último o Dr. Paulo Rufino deixou-a, em meados de Junho de 1990, depois de cumprir a sua missão (6 anos) e o Palácio das Necessidades nunca mais enviou (apesar de solicitações) nenhum.
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Era eu assim (!!!!) um assalariado auferindo 500 dólares o número 2 da missão, encarregado de receber e enviar o expediente entre a missão, o MNE, em Lisboa e as destinadas aos 12 aos países,parceiros de Portugal na União Europeia, em Banguecoque
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A aparelhagem de recebimento e envio das comunicações nada se pareciam ao luxo de hoje...!!! Máquinas de escrever, manual e duas Remington eléctricas, um aparelho de fax, o telex e a máquina cifradora/decifradora Siemens. A Internet, uma miragem e a informatização das embaixadas ainda demorariam 8 anos em serviço experimental.
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Todos os assuntos discutidos em Bruxelas, muitos secretos e confidenciais chegavam a Banguecoque através da máquina do fax em fitas picotadas que depois seriam decifradas na máquina Siemens.  Teria que haver cuidado a União Soviética, apesar de aberta ao mundo em 1990, ainda estava muito comunizada.
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Havia telegramas confidenciais que eram decifrados sem a necessidade de chave, mas havia os Secretos que só seriam decifrados quando lhe fosse inserida na máquina um chave que era um número, inserida numa lista e guardada no cofre da missão, chave que nunca tive.  
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A fita picotada retirada do telex não nos informava se a comunicação era confidencial, ostensiva ou secreta. Se secreta a cifradora/decifradora tinha um companhia que dava o alarme, alto e a bom som, que um intruso estava a proceder a um serviço sem autorização e teria eu, então, de comunicar a chefe de missão que havia um telegrama secreto para decifrar para me dar o número do telegrama em causa para o receber e ele presente, para depois de o ler ser arquivado no cofre.
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Foram seis meses de um trabalho, penoso, para mim em que muitos dias (sábados e domingos) não tinha horas de saída dado que as comunicações “emperravam”, a fita partia e lá estava eu a comunicar com a Cifra, nas Necessidades, para as repetir.
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Mensagens com 50 e mais metros de fita que durante a noite era aparadas por grandes cestos de plástico e principiava a organizar as comunicações a partir das 6:30 da manhã, para quando o embaixador chegasse às 9 da manhã principiar a despachar e responder ao ministério.
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O embaixador Dom Sebastião de Castello-Branco era uma pessoa muito difícil de trabalhar, exigente, bom profissional, inteligente, mas o título de nobreza que ostentava dava-lhe para tratar, quem o servia, um pouco a cima de cão.
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Não tolerava faltas a nenhum funcionário, tailandês e não foram poucas vezes em que haviam altos berros na chancelaria. Escravizava as pessoas e eu foi uma delas em que depois de o servir, com dignidade, como deveria, dentro de minhas funções, me tratou muito mal e me apunhalou pelas costas.
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Ora em 1992, há 20 anos, a União Europeia era um clube respeitável, onde apenas havia 12 sócios: Bélgica,França, Itália, Holanda, Alemanha Ocidental,Dinamarca, Irlanda, Reino Unido, Grécia, Espanha e Portugal e não como hoje, a sarrabulhada, de 27.
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Orgulhei-me, na altura de ser europeu, esqueci o iberismo enquanto que hoje, sinto uma pena imensa de me cortar alma de possuir passaporte da UE, castanho, enquanto o outro antes era de cor verde da esperança.
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O embaixador Castello-Branco, seria o presidente de todos os outros seus colegas da UE, acreditados no Reino da Tailândia e uma vez por mês uma reunião na embaixada, em que antes foi preparada uma grande mesa com 12 cadeiras em que em preparava com blocos e canetas e lhe dava o nome da mesa dos apóstolos e o Deus o embaixador da União Europeia acreditado em Banguecoque.
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Também, seria, difícil de eu adivinhar qualquer seria o embaixador Judas entre os 12... Creio que todos não seriam, Judas, mas pelo menos uns 6 seriam mesmo isso.
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É que alguns, quando entraram na diplomacia, venderam a alma ao diabo, porque esta gente tem um estilo, próprio, de estar na vida que se consideram uma classe elitista, só pena  que alguns sigam o caminho de vida prazenteira e (aparte dos machos) para  o lado da “maricagem”.
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A sala de reuniões, sonhada e mandada decorar, na Chanceleria, pelo embaixador Castello-Branco, foi um autêntico “buraco” dado que havia, alguns, embaixadores que fumavam iguais a turcos e o espaço ficava um autêntico nevoeiro de fumo de cigarros e charutos e foi mudado o espaço para a varanda residência dos chefes de missão, com as janelas abertas e para onde a fumaça dos cigarros se dispersava.
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Ao fim da reunião, onde se discutia os sistema governativo, comunista, dos países do Sudeste Asiático, havia o almoço, opíparo, confeccionado, pela grande mestre de cozinha a falecida embaixatriz Luisa de Castello-Branco, que tão boa senhora que era me mandava um prato de comida à chancelaria para eu saborear.
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No da 30 de Junho de 1992, terminou a primeira presidência portuguesa da União Europeia. Tudo correu em cima de rodas. João de Deus Pinheiro, o super-ministro correu meio mundo a voar no Falcon da Força Área. Já pensava que seria o novo inquilino da Palácio de Belém. Hoje não sei onde pára o Deus Pinheiro... Está silenciado...
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Em Portugal havia dinheiro, chegado de Bruxelas para gastar à “tripa forra”. Foi uma orgia de gastos e cada um esbanjou e roubou conforme pode.
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Vinte anos depois, Portugal da União Europeia depois tanta grandeza, como a que teve há 20 anos está na miséria e tutorizado, por uma Troika, espécie de uma “mafia” composta de uns tantos “agiotas” que nos colocaram a pão e laranjas.

A simbologia da primeira Presidência Portuguesa da União Europeia é um Canto de Luis de Camões:

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.
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Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.
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O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria, 
E em mim converte em choro o doce canto.