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sábado, 2 de junho de 2012

PORTUGUESES NA ÁSIA Venceslau de Morais no Japão 2


Uma figura, apaixonante, depois de Fernão Mendes Pinto, nas suas andanças pelo Japão apraz-me escrever um resumo do que há sido a presença de Venceslau de Morais no Império do Sol Nascente.                       
Venceslau de Morais foi oficial da Marinha Portuguesa e embarca para Macau, em 1888. Esporadicamente, na canhoneira Tejo, efectua viagens à China, ao Japão e à Tailândia (sobre esta visita nos iremos ocupar  noutro artigo) e, em 1891, com uma permanência de três anos na Ásia e na qualidade de Imediato do Porto de Macau, solicita a Lisboa que lhe seja concedido de três em três anos passar férias em Portugal. Não lhe fora concedido o privilégio. Em 1898 a seu pedido foi transferido para Kobe na qualidade de Consul Geral de Portugal no Japão. Morais nunca mais retornaria a Macau.
No Dia de Portugal, em 10 de Junho de 1913 num telegrama que envia ao Presidente da República Portuguesa solicita-lhe a dispensa de todos os cargos oficiais e, o seu direito à reforma. Foi assim o texto da referida comunicação:
<<IImº e Exmº Senhor Presidente da República Portuguesa:
Wenceslau José de Sousa Morais, capitão de fragata da Armada excercendo as funções de cônsul de Portugal em Hiogo e Osaka, Japão, e actualmente procedendo à entrega do Consulado por lhe ter sido concedida licença pelos Ministério de Negócios Estrangeiros para regressar à Metrópole por motivo de doença, deseja, por causas muito poderosas de conveniência particular, desistir de tal licença e permanecer no Japão, onde conta empregar-se numa situação imcompatível com qualquer posição oficial de funcionário português, incluindo a de reformado, e mesmo talvez incompatível com a sua nacionalidade de português; por todos estes motivos, vem muito respeitosamente pedir a V.Exa se digne conceder-lhe a sua demissão de funcionário consular e de oficial da Armada Portuguesa.>>
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É exonerado a 8 de Julho. Entretanto, quatro dias antes Venceslau partira para Tokushima, com 60 mil habitantes e intencionalmente de ali passar o resto da sua vida.
A decisão de Morais de ter pedido a exoneração e exilar-se em Tokushima sempre se conservou num enigma. Viu-se confrontado com humilhações, dentro do “choque de culturas”. Vive em condições modestissimas numa casa com um quarto de uns oito metros quadrados e no rés-do-chão uma sala com quatorze metros quadrados.
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A sua obra “ O Bon-Odori em Tokushima” dá bem conta dessa situação: <>. Acrescenta a este <>, e junta-lhe a visita a um zoo móvel, cuja a estrela principal era um orangotango do Bornéu <>.
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Era num dia frio de Fevereiro. O domador coloca uma lata com carvões acesos com uma vara de ferro dentro, em frente da jaula. O animal apresenta-se com ar de envelhecido e cansado:
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A exíguidade do espaço não dá mais que a possibilidade do animal passar o dia sentado ou deitado, com a liberdade de movimentos. Há ali um martelo que o domador lhe deixou para brincar. O orangotango umas vezes entretem-se a martelar com o objecto; outra atira-o para o lado como cansado do brinquedo. 
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De um saco que lhe serve de colchão, onde está sentado, retira para mastigar uma palhas. O guarda que não tira a vista do animal, irrita-se e ameaça-o gritando; ao mesmo tempo  indicando-lhe a vara de ferro em brasa. 
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O martelo do orangotango é visto aqui como a caneta de Venceslau de Morais que escreve frenéticamente e outras, certamente, quando as memória do passado lhe inflama e aguilhoam a sua mente atira-a, desesperançado para a mesa. O pobre do bicho que já tinha sentido no corpo o ferro em brasa:
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Morais compara o bicho da floresta com a sua pessoa. O habitantes de Tokushima consideravam-no como “ Homem dos Bosques” dada a sua constituiçao de ombros largos, cabelos loiros e longos apoiados nos ombros. A barba, comprida escondia-lhe metade do rosto. Aceita, com abnegação, o “homem-gorila o sentido de humilhação como a sua cunhada, irmã da sua segunda mulher o considerava:   
<> (O-Yoné e Ko-Haru, pág.164 segs.).
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A permanência de Morais, em Tokushima era também considerada um enigma para as autoridades japonesas. Na altura que o Japão declarou guerra à Alemanha, em 23 de Agosto de 1914, chegou a ser tomado como espião. Foi sujeito a interrogatórios pelos militares e depois seguidos os seus passos por algum tempo.
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Morais e se chega a uma conclusão que a demissão dos seus cargos (embora nunca a tenha revelado na correspondência intima com a irmã Francisca Palu) esta seria pelo amor que tinha por O-Yoné, a sua primeira mulher japonesa.
O-Yoné Fukamoto nasceu em Tokushima. Os pais e para fazerem face à pobreza foi vendida a uma casa de gueixas em Kobe. Cantava,dançava e tocava “shamisen”. Segundo o biógrafo japonês Matsumoto, Morais, depois de a conhecer em Setembro de 1998, num bairro de diversões de Kobe, lugar de nível inferior onde não existiam diferenças entre a prostituição e arte das gueixas. 
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O-Yoné é libertada pelo Morais pagando uma compensação ao propriétário da casa. Casou com ela em Novembro de 1900, segundo a tradição “xintoista” quando ela tinha 25 anos. O-Yoné foi acometida de um ataque do coração e morre em Agosto de 1912.
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As cinzas são levadas para Tokushima e Morais toma a seu cargo todas as despesas. Estamos perante de uma lenda que pode muito bem ser considerada romântica de um amante que renuncia a todas as honrarias e comodidades para ir viver junto das cinzas da sua amada.
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Sobre este caso e no capítulo sobre Wenceslau de Morais”, na obra “Visões da China” de autoria de Jaime do Inso (1933), e desenvolvido por Ângelo Pereira e Oldemiro César e publicado um ensaio em 1937:
“ Os amores de Wenceslau de Morais”: “ O golpe profundo (da morte de O-Yoné) que acabava de despedaçar-lhe o coração, leva-o a abandonar Kobe para se instalar em Tokushima, onde repousam as cinzas da mulher amada. Abandona também o cargo consular; demite-se de oficial de marinha; vende à pressa e ao desbarato numerosíssimos livros da sua escolhida biblioteca, todos os seus haveres, à excepção de alguns mais queridos”.
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Armando Martins Janeira analisa a retirada de Morais para Tokushima como já a sua longa assimilação à cultura japonesa:
“Wenceslau  vai para Tokushima para viver com a morta [...]. É frequente no Japão o viúvo ou viúva vender tudo para ir viver junto das cinzas do esposo. Wenceslau não fez mais do que seguir o velho hábito japonês. 
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O retrato dela é posto no altar familiar, o butsudan. É para a alma dela a primeira chávena de chá da manhá e a primeira colher de arroz que se tira da panela. Nunca se abre um presente […] sem que se vá por no butsudan, primeiro, a parte que pertence à alma querida, murmurando-lhe: “Yoroshiku o-agarikudasai”, digna-te comer com gosto. 
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Morais, com os seus muitos anos no Japão e a sua sensibilidade tão receptiva a tudo o que é japonês, havia já assimilado essa poética crença. Só isto explica a sua partida para Tokushima, e a sua vida pobre, piedosa e serena, na pequena cidade provinciana, onde não passa um só  dia que não vá visitar Yoné ao seu pequeno túmulo de Chionji” ( O jardim do Encanto Perdido, pág.146)”.
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Morais em “O Bon-Odori em Tokushima” transmite ter consultado um duplo imaginário em cima da escolha da sua residência no Japão:
<>.
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Voltando a Macau o Governo deste território em Outubro de 1913, pediu ao Ministério dos Negócios Estrangeiros, em Tóquio, se Morais estaria são de espirito. Tóquio ordenou a um comissário de polícia de passar um atestado de sáude mental a Morais. Um agente de autoridade japonês, depois de o entrevistar considera-o uma pessoa normal.
Morais (segundo a investigação biográfica japonesa) quando O-Yoné, na sua doença necessitava de cuidados pedia ajuda da irmã Yuki Saito que residia em Tokushima. Normalmente vinha acompanhada da filha Ko-Haru de 19 anos de idade. 
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Supõe-se que Morais, ainda O-Yoné em vida, sentiria atracção pela jovem. A família Saito era numerosa e pobre. O pai de Ko-Haru era cozinheiro num embarcação que fazia a ligação entre as ilhas de Honshu e Shikoku. Os biógrafos japoneses, escreveram que a paixão de Morais por Ko-Haru não teria passado despercebida a Yoki, durante as cerimónias do funeral de O-Yoné e teria mesmo em sua mente casar a filha Ko-Haru com Morais, ainda cônsul em Kobe.
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Porém há ainda outra mulher, Den-Ngahara uma bonita mulher de 25 anos, na vida de Morais que depois da morte de O-Yoné que passam, durante uns meses a viver juntos em Kobe. Em Abril de 1913 Morais teria incumbido De-Nagahara de procurar uma casa a Matsué e ali viverem em comum.
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Durante uns meses que viveram juntos apareece Yuki Saito a convencer Morais a ir visitar o túmulo de O-Yoné a Tokushima.  Surge, então uma nova viragem de Morais que era o viver com Den-Nagahara, em Matsué e com Ko-Haru em Tokushima. Segundo os biógrafos de Morais, a escolha torna-se difícil mas as negociações efectuadas com a família Saito, permiram-lhe tomar a decisão de viver em Tokushima e com Ko-Haru.
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Quando regressa a Kobe está decidido terminar com a companhia de Den-Nagahara e encontra uma carta desta a informá-lo que tudo estava decidido para viverem em Matsué e, ela, tencionava abrir uma tabacaria com a finalidade de melhorar a situação do casal. Morais, respondeu-lhe, pedindo-lhe desculpa pelo facto de ter mudado de ideias. Parece que nunca mais se voltaram a ver.
 
  A tragicidade dos amores de Morais continua e as suas recordações:
“ninharias futilidades, reduzindo-se tudo a recordações (...) A minha mortificada mentalidade pode comparar-se a um grande polvo, provido de enormes tentáculos, que se estendem em todas as direcções, na ânsia de aprender, de abarcar tudo que lhe fale do passado distante” “Ora, nesta terra de deuses e budas, em Tokushima, onde eu vim estabelecer o meu albergue, onde vim em procura de paz, da tranquilidade, para o corpo e para o espirito. Ousadia! Incrível ousadia, para um loiro, para um homem dos países da raça branca e, ainda por cima, português!...
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Venceslau de Morais está convertido à religião budista. Martins Janeira opina que Morais se converte ao budismo para penetrar mais, ainda, na alma japonesa e assimilação à tradições da família nipónica.
Sobre Ko-Haru relata:
 “ Eu conheci muito uma Ko-Haru, com quem ainda há poucos dias palestrava (...) Ko-Haru era uma moça espigada, trigueira, alegre, viva, parecendo vender saúde. Não se lhe poderia chamar beleza, estava muito longe disso. 
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Havia encantos, todavia, no seu perfil, esguio, na desenvoltura dos seus gestos de criança da rua – pois fora principalmente na rua que medrara, - na franca doçura do olhar, no sorriso em que a boca a cada momento se arqueava, a deixar ver duas fileiras de alvíssimos dentinhos, e nas formas modelares das suas mãos e dos seus pés.
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Ainda por cima: - inteligente, mais do que a grande maioria das mulheres do seu humilde nível social; dotada de um fino temperamento artístico, curioso, investigador, fácilmente impressionável, perante as belas coisas naturais, e com um tique de poesia sonhadora, a fermentar lá dentro, no âmago do cérebrozinho esgazeado....”
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Ko-Haru morre de tuberculose aos 23 anos de idade. Morais acompanha a sua amada ao hospital desde a altura que entra num hospital até ao dia da sua morte:
“ Pela tarde de 1º dia do bon-odori (dança da festa dos mortos) em Tokushima, isto é, em 12 de Agosto de 1916, Ko-Haru era levada numa maca, por seu especial desejo, de casa para um hospital de Tokushima; (...) Ko-Haru encontrava-se geralmente sozinha, tendo por companhia o sofrimento apenas. 
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Vinha eu, diariamente, por algumas horas. Parentes, conhecidos,raros. O próprio pai, a própria mãe, as irmãs, com pouca assiduidade se mostrava (...) [facto] que me revoltou intensamente a minha sensibilidade passional de homem da Europa, pareceu-me contudo, depois de nele haver pensado, natural e em harmonia com as leis universais da criação. 
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Julgava eu, a princípio, que os pais sacrificariam tudo e todos – interesses próprios e atenções aos filhos sãos, - para acudirem em socorro da filha enferma, caída em sofrimento. Puro enganol, (...) Ko-Haru tornara-se o pinto gosmento, que era forçosamente abandonada, em benefício da prole sadia e esperançosa. – Ficava eu só, para cuidar dela....”
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Ko-Haru em 2 de Outubro de 1916 morre e Venceslau de Morais fica só e a viver das saudades e recordações das duas mulheres que amou:
“ é sempre a saudade, sempre a saudade, embebida em cacimba, irritantemente morna e opressiva
          (...)
“Eu saira de casa, visitara dois túmulos amigos num mesmo cemitério, fizera algumas mercas nas lojinhas; e agora recolhia a casa, fatigado, enervado, mal disposto, para o que concorria seguramente o inclemência do tempo (...)
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“Depois de percorrer as ruas animadas de Tokushima, eis-me entrado no bairro quieto, quase aldeia, que avizinhava o meu casebre. Pouco após, é a minha própria rua, esta absolutamente solitária, mergulhada en trevas e silêncio (...) Agora chego à minha porta. 
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Busco nas algibeiras a chave do cadeado protector, que me garante das possiveis visitas dos ladrões. Encontro a chave; mas, cego pelas trevas, mal disposto pelo desconsolo em que me sinto, pelos embrulhos que me pesam, pela fadiga que me enerva, pela chivinha que me molha, multiplico-me em tentativas, prodigalizo-me em manejos, sem conseguir dar com o buraco do cadeado e abrir a porta (...) 
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Então, de dentro da rama espessas da árvores única, um carvalho, que se ergue robusto e vicejante mesmo à entrada do casebre, a luzinha azulada de um pirilampo surdiu e começou a volutear cerca de mim; tão próximo das minhas mãos e do cadeado, que me permitiu sem custo servir-me da chave eficazmente, podendo penetrar em minha casa. Abençoado insecto, que veio assim, na ampla curva do voo casual, tão gentilmente beneficiar-me!... Casual? E porque não premeditado?... 
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Ponho-me agora a divagar em estranhas conjecturas.Nesta grande cidade de Tokushima, que conta cerca de setenta mil habitantes, duas únicas criaturas, ninguém mais, duas mulheres indígenas, filhas do povo, da mesma família, tia e sobrinha, O-Yoné e Ko-Haru, seriam capazes, se ainda existissem, de se dar à incómoda tarefa de virem de longe, arrastando as sandálias pela lama, lanterna de papel transparente suspoensa dos deditos, para alumiarem o meu caminho e facilitarem-me a operação de abrir a minha porta. 
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Mas estas duas criaturas já não podem vi aqui, jamais virão; já não existem; morreram (...) Não, já não podem vir aqui, jamais virão aqui (...) no entretanto aquele insecto....Não são os japoneses que creem que os seus mortos podem volver à terra, incarnados noutros corpos, uma ave por exemplo, um insecto por exemplo, embora conservando reminiscências afectivas das suas existências anteriores?...
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Após esta última interrogação, que o meu espírito a si próprio se fizera, senti não sei que angústia apesar tão duramente, que me estacou de súbito as pulsações do coração. Foi um momento apenas. Em seguida, mais sereno, não pude conter esta palavras: - Será O-Yoné?...Será Ko-Haru?...”
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E segue com outras passagens  da lide diária de sua casa, um jantar de festa sózinho, aliás na companhia do seu gato e das recordações das suas pessoas mais queridas: a Francisca Palu, e viver em Nelas (Beira Alta), O-Yoné e Ko-Haru.
“ Era o dia 1º de janeiro do ano corrente de 1919 (...) Dia de festa. Eu encontro-me só em casa, o que me acontece várias vezes; só, com o meu gato, com as minhas galinhas e com outros animalejos de somenos importância (...) 
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Bem, dia de festa. Já varri a casa, já dei de comer aos bichos e já me entregueiu a outros humílimos misteres. Agora toca a partir o carvão, a acender o lume e a preparar o meu jantar – jantar de festa, por sinal. – Ora pois, mãos à obra (...)
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“ Quando saboreei o meu jantar, de joelhos sobre a esteira, sozinho com o meu gato, observei que o gato dava mostras de grande predilecção pelas sardinhas, mas desprezou o caldo verde; questão de educação.......   
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A certa altura surpreendi-me mesmo a sorrir, correspondendo por este modo a certos sorrisos que imaginei virem de longe e serem-me dirigidos:- sorrisos, ligeiramente motejadores, de minha irmã, quando eu comia as sardinhitas; sorrisos ligeiramente motejadores, das minhas mortas, O-Yoné e Ko-Haru, quando eu sorvia o caldo verde...”
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Morais vai continuando a viver a solidão:
“Ha, solidão! Vasto campo ressequido, povoado de espectros...” – em terra que não o entendem e lhe chamam “ Ketô-jin (selvagem barbudo): (...) aqui em Tokushima, nos meus passeios solitários, muitas vezes a gaiatada e o povo rude soltam à minha passagem o impropério – tojin! – ou –ketô jin -. Já me aconteceu o mesmo em outros pontos do Japão, mas com menos frequência. Mas aquela criancita com seis anos de idade, que me sorria, é que não queria nem saberia seguramente injuriar-me (...)”.
Venceslau de Morais morre a 1 de Julho de 1929, na sua casa de Tokushima. Em 12 de Agosto de 1919, no seu testamento pede que seja cremado e enterrado segundo a tradição budista. 
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Não deixa porém de manifestar receio que o seu desejo seja aceite e sepultado num cemitério japonês, dado que ele é um “ketô-jin”. Lugar reservado aos filhos do Nippon; não lhe seria recusada esta última vontade; é cremado e as suas cinzas depositadas no cemitério de Chyion-ji junto das cinzas de Ko-Haru.
O povo de Tokushima celebra Venceslau de Morais e chama-lhe, respeitosamente, Morais-San.
José Martins
P.S. Fonte:  Venceslau de Morais no Japão da Obra à Vivência de Maria João Janeiro
                   Revista de Cultura Nº 17. Instituto Cultural de Macau-Outubro/Dezembro 1993

PORTUGUESES NA ÁSIA - VENCESLAU DE MORAIS

 

PORTUGUESES NA ÁSIA
VENCESLAU DE MORAIS
Oficial de  marinha,viagem à Tailândia, cônsul, escritor e correspondência para a    irmã Francisca palu
Foram muitos os portugueses que dedicaram suas vidas ao Oriente. Viveram, serviram Portugal das mais diferentes formas na ex-Índia portuguesa, no Ceilão, Malaca, Macau e Tailândia e no longuínquo Japão. Viveram na generalidade, numa constante solidão, com um pé na terra de opção e outro em Portugal.
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Entre essas figuras destaco duas, duas que ficaram retidas na minha memória e que foram ainda reconhecidas em vida pelos bons serviços prestados a Portugal. 
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Destaco, primeiramente dessas duas figuras, o Monsenhor Manuel Teixeira, historiador de mérito e no meu entender o classifico entre os melhores narradores desde a altura em que Portugal iniciou a aventura, expansionista no Oriente que aconteceu quando Bartolomeu Dias, em 1486, dobrou o Cabo da Boa Esperança e, depois em 1498 as Caravelas de Cristo, capitaneadas por Vasco da Gama, chegam à Índia e assim se descobriu a rota marítima da Europa à Ási
Monsenhor Manuel Teixeira escreveu dezenas de obras durante o mais de meio século de vivência em Macau e entre  essas obras à que destacar: “Portugal na Tailândia” de 563 páginas, editada em 1983, durante a gerência do Embaixador José Eduardo de Mello-Gouveia. 
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Outro seu contemporâneo foi o Padre Manuel Pintado, também, com mais de meio século de permanência em Malaca, investigando e escrevendo sobre a história do território, conquistado pelo Grande Afonso de Albuquerque em 1511; publicou livros e assistiu espiritualmente a comunidade católica lusa/descendente. 
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Os dois clérigos já não pertencem ao número dos vivos. Há pouco mais de meia dúzia de anos foram morrer a Freixo-de-Espada-á-Cinta, de onde eram naturais.
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Mas uma figura verdadeiramente apaixonante, depois de Fernão Mendes Pinto, nas suas andanças pelo Japão, foi, sem qualquer dúvida, Venceslau Morais, do qual me apraz escrever um resumo do que foi a sua presença no país do sol nascente.  
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Morais, apesar de ter sido dos poucos historiadores portugueses interessados na epopeia lusa, nas águas dos cinco oceanos do globo, certamente não tardará a cair no “ról” dos grandes esquecidos, dos que foram embaixadores honorários,  sem estatuto diplomático, de Portugal no Oriente.
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Homens de alto valor, com os seus nomes inscritos nas pedras túmulares e certamente as poucas que ainda existem, com a erosão do tempo, lentamente, se vão apagando e, deste modo, os seus feitos e valores serão esquecidos para sempre.
 
O mesmo acontece às igrejas, em ruínas, onde a vegetação desde o solo as envolve num denso matagal; às peças de artilharia, bocas  fogo das fundições de Manuel Bocarra, de Macau e Goa, que dispararam das ameias contra os piratas, contra as forças navais de países da Europa que a toda força e custo desejavam desalojar os portugueses dos territórios, que não eram nossas colónias, mas entrepostos comerciais para a troca de mercancia entre os países da Ásia. 
Material que foi objecto de glória de Portugal, hoje inerte, no meio da vegetação cujo o turfo, gerado pelo apodrecimento das plantas e ervas,  lentamente, o vai enterrando.
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Venceslau de Morais, oficial da Marinha Portuguesa, diplomata, escritor, personalidade romântica e de trato fino - é o que podemos avaliar da sua pessoa, através das cartas e postais ilustrados que do Japão  envia à sua amiga e adolescente Maria Joaquina Campos, em Lisboa, e a sua irmã Francisca Paul, que reside em Nelas, na Beira Alta. 
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Venceslau escolhe as “toalhinhas” (o nome que dava aos postais ilustradas) com cenários campestres, com imagens de animais ou imagens que ilustravam a vida do quotidiana dos japoneses. Nessas comunicações,  encontram-se lamentos, humor mórbido, dedicação aos animais e às flores.
Das suas ligações amorosas,  pouco ou nada delas se conhece, embora alguém tenha afirmado que Morais estava acorrentado aos amores, femininos, nipónicos e tinha optado pelo exílio no Japão por via disso. 
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O Homem amou o Japão e terá escolhido o país do sol nascente possivelmente pelo facto de na época  Portugal politicamente não possuir estabilidade. 
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O seu sentimento e pensamento em relação à política nacional é nos dada a conhecer numa carta, datada em 27 de Fevereiro de 1908, 26 dias antes do regicídio que vitimou o Rei Dom Carlos e o Príncipe Real D. Luis Filipe, que dirige ao seu ex-comandante Pereira Nunes, da canhoneira Rio Lima e Capitão dos Portos da Índia Portuguesa que termina com o seguinte P.S.: “Não fallêmos da política da nossa terra. Que tristeza, que miséria.....”
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Daqui, podemos concluir que Venceslau ainda não tinha conhecimento do regicídio, já que a este não se refere. Sabe-se que Venceslau era um adversário da ditadura, imposta por João Franco e, este facto vai encontrar-se na sua correspondência particular.
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Morais, depois de ter servido a Marinha Portuguesa, é nomeado cônsul de Portugal em Hiogo e Osaka. Num relatório elaborado por si com o conteúdo de nove páginas, datado de 13 de Janeiro de 1912, e solicitado pela Sociedade de Geografia de Lisboa, encontramos um diplomata a dar conta, em pormenor, do modo como vivia a comunidade portuguesa, que não era oriunda da metrópole ,mas sim de Macau e denominada macaense. 
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Não deixa de ser curiosa a forma transparente e elogiosa como Venceslau de Morais se refere a essa gente, vinda de uma mistura de sangue luso/chinês, ao qual já tinha sido adiccionado o japonês:
“...Nos filhos d’homens macaenses casados com mulheres japonêsas, é que muitas vêzes se nota o phenonemo do idíoma portuguez, circunstancia que vem corroborar a enorme importancia, sobejamente conhecida, da influencia materna na educação da família......afastados por longos annos da Patria, sem nunca haverem visitado, (com excepção de uns dois) o nosso Portugal europeu, vivem em geral pouco interessados com o que vae pela metropole; mas guardando, latente, um louvável orgulho nacional, pronpto a manifestar-se quando a circustancias o reclamem. 
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Na recente passagem pelo porto de Kobe, do nosso cruzadôr S.Gabriel, o enthusiasmo dos macaenses, foi sincero e caloroso......se um dia os portugueses da Metropole pensarem em estreitar intimamente os seus laços de commercio com a China e com o Japão, encontrarão na colónia macaense um auxilio poderoso......(texto fiel).
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Morais quando se refere aos macaenses do Japão dá a imagem real do que também tinha sido essa mesma comunidade em Banguecoque. Vamos encontrar a prova de tal facto em documentos antigos, que “vasculhamos” na Embaixada de Portugal, que nos dão conta das actividade dos macaenses nascidos na Tailândia ou vindos de Macau, pouco depois da fundação da capital do Sião, em 1782, muitos deles foram funcionários  e interpretes da língua inglesa e portuguesa para a siamesa, na Corte da monarquia e em companhias estrangeiras que ali  se haviam estabelecidas.
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Venceslau de Morais antes de ser nomeado Cônsul foi oficial da Marinha Real Portuguesa e em Março de 1890 assumiu o comando da canhoneira Tejo, com a categoria de primeiro-tenente, em Macau. Em 20 de Abril o barco navega com destino a Banguecoque cuja missão era “colher informações em que situação se achava a comunidade portuguesa no Reino do Sião”. O vaso de guerra lança a âncora passado oito dias no porto vietnamita de Saigão e parte a 3 de Maio com destino a Banguecoque.
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A visita Morais à Tailândia como comandante de um navio de guerra português é pouco conhecida e certamente nunca será explorada.                                                                                                                                                                                                                                                       
A Tejo, com um tamanho significativo para a época, fica ancorada no Chao Praiá River, em frente à Feitoria de Portugal. Morais elabora um relatório e nele dá conta da comunidade existente em Banguecoque que contava então com  cerca de 50 pessoas, todas macaenses, excepto um europeu. Informa serem pessoas honestas, activas e que parte delas são funcionários do Estado siamês. 
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Refere-se, também, aos protegidos sob a Feitoria de Portugal, que eram uns 120 chineses oriundos de Macau. Aqui Morais não foi informado correctamente pelo Cônsule dado que os protegidos não era naturais do Território chinês  administrado por Portugal, mas sim de vários pontos da China. 
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Sião, devido à sua fama de “terra de leite e mel”, era muito procurado pelas gentes chinesas que aí desejavam fazer fortuna e Macau, deste modo, era utilizado como  “trampolim”, por esses emigrantes que pelo método corruptivo obtiam documentos de viagem que lhes permitia, em Banguecoque, o estatuto de “protegido” pela Feitoria de Portugal e não com a nacionalidade. 
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A nacionalidade portuguesa seria obtida, depois, de uma forma ou de outra, mas por formas sempre pouco claras, onde não está posta de fora a corrupção. A nacionalidade seria  conseguida em Banguecoque como fora o passaporte obtido em Macau.
               
Morais, durante a permanência  na capital siamesa, vai anotando as maravilhas que os seus olhos vislumbravam, e relata-as com uma veracidade tão impressionante que ainda hoje as podemos admirar tal como se encontravam  aquando da sua passagem. 
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O Rei Chulalongkorn (Rama VI) encontrava-se ausente e, tem durante a visita, como anfitrião um príncipe que o conduz ao palácio real, aí visita os estábulos dos elefantes brancos e outras maravilhas do Grande Palace e sobre o observado procede ao seguinte registo:
 
“Fixa-se a nossa atenção nas paredes revestidas de trabalhoso mosaico, nas incrustações de madrepérola dos portais, na allegorias do culto, no portentoso Buddha, feito de uma só esmeralda de três palmos de altura, de valor inestimável. Ergue-se mais além o palacio real, n’uma elegantissima fachada, cujo único senão está no mau gosto da sua architectura europea, sobe um telhado, rendilhado em mil cornijas, de pura feição indígena. Profusão de flôres  e de arbustos viçosos. Grandes elephantes doirados, em pedestais de marmore”

Ferreira de Castro no seu livro “A Volta ao Mundo” (editado em 1942), assim como Morais, escreve:
“É uma alucinante floração de templos das mais imprevistas linhas, de cúpulas doiradas e de torretas polícromas, de portas de oiro e de paredes revestidas de pedras cintilantes, que enchem tudo duma perene fulguração, cromáticos reverberos que extraem de quando vemos todo o sentido da realidade.”
               
 Porém, Morais, antes de partir para o Sião e para seus conhecimentos da monarquia siamesa desde a fundação, leu a “Peregrinação” de Fernão Mendes Pinto:
           “ Na Peregrinação Fernão Mendes Pinto mencionou “a guerra do Chiamnay,” o envenenamento do rei do Sião pela sua amantíssima esposa, a inceneração do assassinado e o ataque do “rei do Bramá” ao Sião”.
                Muito provavelmente Morais não visitou mais do que a zona ribeirinha de Banguecoque,  assim, não teve a oportunidade de admirar as outras maravilhas da arte budista e khmer, espalhadas por todo o país, e ainda as ruínas da velha capital, Ayuthaya, caída em 1767. 
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Se assim tivesse acontecido, teríamos hoje um excelente relato da visão de Morais. Mas tal era impossível devido à falta de vias terrestes e ao facto do rio Chao Praiá não ter, na época, fundo para facilitar a navegalidade da Tejo, que permitisse, pelo menos, chegar até a Ayuthaya.
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Venceslau, no seu voluntário exílio japonês, mantém-se ao corrente do que se passa em Portugal e  activo literariamente. Escrevia, lia os periódicos de Portugal, com atraso de mais de um mês, e a revista “Ilustração Portuguesa”. 
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Colaborador do “Comércio do Porto”, através do jornalista Bento Carqueja com quem manteve  uma correspondência vasta e assídua. Carqueja incentivava Morais para que escrevesse mais, mas depois entraram em conflito pelas falhas encontradas na “Cartas do Japão” a que atribuía as culpas ao editor. 
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No Comércio do Porto são publicadas: Cartas do Japão, Bon-Odori,Ko.haru e Fernão Mendes Pinto no Japão. Morais era rigorossímo na fidelidade da publicação dos seus artigos onde não admitia erros de impressão e, sobre isso disse:
                   
“O que me acode já ao pensamento é que a maneira como se deu início ao artigo não foi de certo casual; houve  certamente a intenção de furtá-lo à leitura dos leitores do Commercio; não seria mais leal, mais honesto, mais decente, que o Carqueja o não publicasse e me escrevesse informando-me de que o artigo não lhe convinha, por uma razão qualquer?....E não tinha eu o mais leve motivo de offender-me.Veremos como acaba isto...”
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Existe uma longa troca de correspondência entre Morais e Bento Carqueja; um e outro vão dando conta das suas actividades literárias, das novidades de Portugal e Japão. A última comunicação (que encontramos) de Morais para o Carqueja data de 15 de Setembro de 1920:
                        
“.... Dá-me prazer vêr que o meu amigo insiste em ignorar “ a ortografia moderna”, a qual, na minha modesta opinião, é uma monstruidade inaudita, que veo dar um golpe tremendo nas lettras patrias!....”
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Nas “toalhinhas” (postais ilustrados) que Morais enviava a sua amiga Joaquina de Morais e irmã Francisca Paul, ficamos a conhecer um homem ansioso por receber novidades de Portugal e, sempre, muito preocupado com o estado de saúde delas e as habitais recomendações. 
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Para Joaquina Campos (a quem tratava por fidalguinha) vamos encontrar quatro “toalhinhas” e duas cartas. O primeiro postal ilustrado foi datado em 12 de Maio de 1909 e a última, que encontramos em 2 de Junho de 1915. Resumindo passagens das comunicações a Maria Joaquina Campos:
“.....Mas creia que lhe quero muito e hei de dar-lhe frequentemente notícias minhas, se vê n’isto alguma satisfação. Para mim, a sua boa amizade é preciosa; nunca me falte com ella. Adeus. Quando não tiver nada que fazer, escreva-me......”
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 “....Desejo-lhe e a sua maman um tranquilo anno de 1914 (ano do Tigre no Japão). Surpreendeu-me o que me diz do Brazil-Portugal; não mande retrato nem vi o jornal; quem será o auctor? Mas isto não tem importância; Bravo! Vestido novo, chapeo novo! Que os gose com saude, minha Fidalguinha. Sempre seu Nicolau....” (Brazil-Portugal foi uma revista,considerada das mais duradoiras 1899 a 1914 da I República).
Em 2 de Junho de 1915:
     
 ......Por cá nada de novo; vou vivendo; espanta-me o desenvolvimento da guerra (a) que parece não ter fim! Tenham a minha boa Fidalguinha e a sua maman mtª saude, é o que do coração lhes desejo. Não tenha receio que eu me esqueça de si; hei de continuar a dar-lhe notícias em qtº o possa fazer e em qtº ellas sejam agradaveis. Adeus.Comprimentos cordiaes do sempre seu Nicolau – Wenceslau....” (grassava a 1ª Guerra Mundial)
Nas “toalhinhas” enviadas para sua irmã Francisca Paul, residente em Nelas, que foram centenas delas, havia uma preocupação constante de Morais de escolher aquelas que melhor agradassem a Francisca, onde se incluiam tópicos do calendário nipónico a premente devoção a sua família na mãe pátria e a sua admiração, total, pelo povo japonês. 
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Começa, assim o envio dos postais ilustrado em 13 de Outubro de 1910 e terminam em 18 de Junho de 1929.
Algumas passagens:
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17.01.1913.- “Ahi tens um boi, enfeitado em gala. É bem bonito, não é verdade? Quantos bois já tens? Ainda queres mais? Olha que ficas com a casa cheia de bois, menina Chica.”
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10.9.1914.- “Nada de notícias, o que já me vae admirando.Terás tu, com o teu nervosismo, deixado de escrever, à espera que a guerra acabe? Terás muito que esperar.Eu escrevo-te 2 vezes por semana, geralmente às segundas-feiras (com toalhinha) e ás quinta-feiras. Estou bem. Desejo-te muita saude e aos Teus. Um abraço do Apá.”
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22.7.1918.- “Desejo-te saude. Segue toalhinha. Cá vou teimando em mandar-te tudo para Nellas com dois ll, e até talvez comece a escrever Nelllas, com três lll, mas nunca com um só l, pois me repugna a nova moda de escrever. Um abraço do Apá”
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7.9.1918.-  “Que bellos queijos da Serra da Estrella deves tu ter ahi em Nelllas!... Eu, que não como pão ha quase um anno, com que prazer almoçaria um dia, um pedaço de queijo e pão!... Segue toalhinha. Desejo-te muita saude e abraço-te. Apá”
           
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8.11.1919.- “..... dizes estar fatigada do calor e dos banhos; não abuses. Partirias para Viseu no dia 1º de outubro, onde ficarias até ao fim do anno. Safa! E para quê? Mas talvez cries amizade à terra, que é importante e certamente bem provida de tudo. Que te dês bem, é o que te desejo e que depois voltes para Nellas, que é a grande terra!... Um abraço do Apá”
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24.11.1919.- Ha dias sem notícias; mas virão. Desejo-te a melhor saude, já de todo restabellecida das bebedeiras que tomaste com as águas da Felgueira. E o que ha do nosso amigo Castel Branco? Por cá já frio; eu vou indo bem, posto que um tanto tristonho. Havia aqui uma pequena (13 anos de idade) que era a única pessoa que vinha às vezes jantar commigo (houve um tempo em que vinha tambem roubar-me as pratinhas das gavetas), pois acaba de morrer, com uma peritonite tuberculosa, fiquei penalizado; mandei fazer-lhe um tumulo pequenino. Não tenho agora recebido noticias do homem de Viana do Castello, mas imagino que o meu artigo que te é offerecido já deve estar publicado; veremos. Segue toalhinha. Lembranças, saudades e um grande abraço. Feliz 1920! Teu Apá”
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1-7-1926.-“ Acabo de receber o teu formoso postal de 26-5º-1926 (tantos 26), com a vista do Senhorim. Parece ser coisa soberba. Se é perto e bom caminho, deves ir vêr aquillo; se não é, contenta-te de informações, e não vás. Felicito-te por ter já chegado a Nelllllas a snrª Primaverta; agora é que é passear, divertir; já deves ter asagao em flôr; eu já tenho. Como vão os teus gatos? A minha gata morreu agora de parto. Haja por aíu muita saúde. Cumprimentos ao Esposo. Abraça-te o Apá”
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2.9.19.28.- Minha boa Chica, Recebi a tua carta de 14.7. Boas notícias, como agora, ha algum tempo, sempre veem, felizmente. Eu, da vista ainda estou soffrendo, mas vou melhor: preciso que passem estes calores, que ha poucos dias teem sido muito violentois. Tu, coitada, dizes que tambem soffres da vista, deve ser dos nervos, não dos rins. O Esposo, cocluo, deve estar perfeitamente, a julgar pelas ultimas impressões –do magnifico retrato!.... E occupando uma bella situação, de bastante socego. Tiveste, para variar, mais outra revoluçãosita, mas fazendo poucas victimas, como convem. Imagino que não soffreste grandes sustos. As tuas plantas teem sofrido muito com as grandes chuvas. O “xano” feio, mas melhorando. Adeus.Desjo a melhor saude aos dois. Abraço-te Apá. (Postal está escrito numa letra trémula,quase ilegível.
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Tokushima 18.6.29.- Recebi hontem carta de 31.5. Queixas-te de irregularidades do tempo, as plantas soffreram. Foste de passeio à Luz? Receio que o retrato se tenha extraviado, o que tratarei de remediar, se for possível. Cá tambem tem feito frio, fora do tempo. Sinto-me melhor de saude, vou resistindo. O calor deve estar a fixar-se, para tua satisfação, do gato e das flores. A minha gata teve 5 filhos, morrendo toodos. Agora ha ninhada nova; a ver se resistem. Abraça-te e ao Esposo o teu Apá. P.S. Recebi a flor de chagas, de que gostei muito. W.  (Foi esta a última toalhinha de Morais enviada a sua irmão Francisca Palu que chega a Lisboa em 15 de Julho de 1929 e Venceslau tinha morrido em 1 de Junho, com 74 anos).
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Em 1921 Venceslau de Morais era evocado em Lisboa:
“ Maior do que Loti, mais belo nas suas fórmulas e na sua observação do que os próprios Goncourts, Wenceslau de Morais, o enfeitiçado, vive hoje dum prazer de alma mais do que duma abastança requintada que bem merecia a sua obra prodigiosa. Um punhado de arroz e um sonho; uma taça de chá e uma fantasia devem ser o alimento do homem superior que numa hora de renúncia à volta do seu país devastado, não hesitaria em o representar ali se da parte dos governantes houves o carinho para com o seu talento priviligiado (...) Lágrimas não chorará o velho escritor de talento; bendita alegria o Japão lhe deu  e esquecido pelos patrícios mas não podendo ser olvidado pela Pátria, ele ficará na história literária como na da nação ficaram os antigos descobridores. Pois que descobertas não fez ele? Uma linguagem oiro um país onde tem felicidade; uma terra onde não há pranto” R..M. “Wenceslau de Morais, o enfeitiçado”, ABC, de 16 de Junho de 1921.
“- Agora tenho só uma irmã que vive perto de Viseu, que às vezes me escreve.
-          Então porque não volta ao seu pais – a Portugal?
-          Ele tristemente, disse:
-          Já estou velho; não tenho coragem para sair para países estrangeiros e, além disso, não tenho dinheiro para o fazer.
-          Estou satisfeito nesta socegada cidade de Tokushima. Quero ser enterrado no solo de Tokushima.”
José Martins
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P.S Os meus sinceros agradecimentos ao Dr. Jorge Dias, residente no Japão, que se tem debruçado sobre a vida e obra de Venceslau de Morais e que em 6 de Março de 1995, numa sua visita a Banguecoque me ofereceu dois livros de sua autoria “Venceslau de Morais Notícias do Exílio Nipónico” e “No Ádito da Ásia Episódios da Aventura Portuguesa no Oriente”, Instituto Cultural de Macau- Comissão Territorial para as Comemoraçõies dos Descobrimentos Portugueses- 1993.-Instituto Português do Oriente 1994. Sem estas duas obras seria impossível escrever sobre Venceslau de Morais)