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quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

HISTÓRICO E PARA QUEM GOSTE DE SABER COISAS DE GENTE QUE FOI GRANDE NA TAILÂNDIA E QUE O TEMPO FAZ ESQUECER... A INGRATIDÃO DOS HOMENS É ESTA!

Monday, June 25, 2007 - Nesta altura eu copiei o


O Relatório do Cônsul Frederico António Pereira

Capa do boletim da Sociedade de Geographia onde foi publicado o relatório do Cônsul Pereira

O Cônsul Frederico António Pereira, em 1887, produziu um excelente trabalho, a pedido da "Sociedade de Geographia de Lisboa". Um relatório, com valor histórico e um dos melhores, escrito na época, que conheço.
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O representante de Portugal no reino do Sião, esteve à frente da Legação Portuguesa, de quando, apenas, eram passados 120 anos da queda de Ayuthaya.
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Apesar, nessa altura, a esperança de vida ser curta ainda haveria em Banguecoque, pessoas que deveriam contar a história, recebida dos seus avós, em cima da queda da antiga capital.
São passados, agora, precisamente outros 120 anos desde que o cônsul Frederico António Pereira escreveu o texto abaixo transcrito.
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E porque encontramos no relatório, publicado no "Boletim da Sociedade de Geographia 8ª série - Nº 8", um instrumento útil para os entusiastas e estudiosos na investigação, histórica, dos portugueses no Reino do Sião, vou assim, transcrevê-lo na íntegra. 
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Encontramos muita informação em que o cônsul Pereira se guiou pelos relatos de Fernão Mendes Pinto de sua obra a "Peregrinação". 
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Porém, como todos os historiadores, quer portugueses ou estrangeiros foram beber à fonte, histórica, dos relatos de Pinto.
José Martins

RELAÇÕES DE PORTUGAL COM SIAM
E DAS MODERNAS ALIANÇAS D´ESTE PAÍS COM AS POTÊNCIAS ESTRANGEIRAS

Antigamente os povos da grande península Indo-China eram governados por dezenas de pequenos déspotas que disputavam entre si a posse do seu território. 
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Na província do norte do actual Siam governava em Sangkalock um certo Phya Uttong que, tomando uma grande preponderância sobre os reis seus vizinhos, augmentou os seus domínios; mandando reconhecer os paízes do sul, os enviados levaram ao seu conhecimento a existencia de uma ilha ampla e fertilíssima no meio do rio Chan Phya, conhecido hoje pelo Mé-nam, palavra siameza que significa, "rio". 
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Phya Uttong resolve mudar a sua capital para esta ilha e vem com efeito, em 1350 da era christã, lançar ali os fundamentos de uma grande cidade a que chamou Ayuthaya, que no futuro foi theatro de grandes desastres e grandes glorias para o imperio siamez.
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Foi tambem ali que este país começos a ter relações com todos os outros povos do oriente.  
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Os seus domínios foram-se alargando prodigiosamente, a ponto de 1500 ter por tributários, alem reis do norte e leste, todos os potentados da península malaia, excepto Malaca, que se conservava rebelde á suzerania de Xá Thirát, a este tempo coberta já de templos de oiro. 
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Em 1508 já os portuguezes dominavam a grande parte da India e conhecedores das riquezas e grandeza de Malaca informam d´isto el-rei D.Manuel, que faz equipar uma esquadra com o fim determinado de descobrir aquella região.
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A esquadra parte de Lisboa em abril d´este mesmo anno, e o seu seu chefe Diogo Lopes Sequeira, depois de aportar em Sumatra, deixa um padrão na cidade de Pedir e outro em Pecem e chega a Malaca em 11 de Setembro de 1509. 
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Foi bem recebido, mas traçoeiramente, e seria morto se uma moura, que tinha uma hospedaria, o não tivesse avisado.Voltou para Lisboa, deixando ficar alguns prisioneiros, entre os quaes Duarte Fernandes, que aprendeu a língua malaia. 
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Affonso de Albuquerque, que se tinha assenhoreado de Goa, resolve partir para Malaca e dá-lhe o primeiro assalto em 1511.

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Embora um pouco fictícia a posse d´este novo porto, Albuquerque resolve mandar um emissário ao rei do Siam offerecer-lhe asylo.Um junco china chamado Pulata partia para Ayuthaya e o emissário escolhido foi Duarte Fernandes, que levou ao rei, de presente, uma espada guarnecida de oiro esmaltado. 
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Foi este o primeiro portuguez que entrou em Siam, cujo rei o recebeu muito bem e com grande satisfação por ver que os portuguezes tinham abatido o orgulho d´aqueles que considerava seus vassalos, mas que eram rebeldes.
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Duarte Fernandes volta de Ayuthaya e com elle uma embaixada de el rei, mostrando o seu contentamento por os portuguezes terem tomado Malaca, e uma carta para D. Manuel, acompanhada de valiosos presentes. Na volta d´este embaixador foram a Siam António Miranda de Azevedo e Duarte Coelho, acompanhados de outros, pelos quaes mandor el-rei presentes de subido preço.
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Foram estas as primeiras relações que Siam teve com europêus.
No que diz respeito á tomada de Malaca, as relações entre Portugal e Siam caminhavam como de commum interesse.  
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Porém alguns revezes succederam aos primeiros impetos de glória, e, entre outros prisioneiros, Simão Rengel é vendido em leilão e comprado por um mouro que o conduziu a Meca. Um fidalgo siamez que estava ao serviço de Malaca ficou captivo dos portuguezes, a quem o pae do dito fidalgo resgatou em 1518, dando uma nau carregada de mantimentos.
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Fernão Peres de Andrade tinha partido para a China em 1517 com nove naus e com elles alguns padres que começaram a prégar o christianismo nos imperios da China e do Japão. Uns trezentos soldados portuguezes tinham ficado ao serviço do rei de Camboge e acabaram por se estabelecer no paiz, introduzindo ali a religião christã.
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Os portuguezes, que em grande numero se tinham espalhado por todos do oriente, reanimaram de vida e de prestigio com a chegada a Goa do apostolo S.Francisco Xavier, que pelo seu zêlo e virtudes era o exemplo de todos os missionários. 
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O Pegú, Siam, Malaca, a Conchinchina, o Tonquim, emfim todos os povos da Indo-China, contavam já milhares de christãos convertidos por uns tres mil ou quatro mil portuguezes dispersos, mais ou menos dirigidos por padres jesuitas e dominicanos.
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Quando os birmanes invadiram o Pegú, a frota era commandada por Cayeiro, um portuguez corajoso que, com perto de dois mil compatriotas, estava ao serviço do rei Mandára. 
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Em 1513 este poderoso monarcha, cioso do rei de Siam, que possuia sete elefantes brancos, mandou-lhe pedir um, que foi recusado, e por isso levantou um exercito de trezentos mil homens e setecentos elephantes de guerra.  .
Este formidavel exercito exercito; commandado pelo portuguez Diogo Soares, entra em território de Siam; mas o rei d´este paiz tambem tinha portuguezes ao seu serviço; o seu exercito de quatrocentos mil homens era commandado por quatro marechaes de campo, dos quaes dois eram portuguezes, que o rei queria ter sempre ao seu lado. dois exercitos encontraram-se e os reis seus chefes travam um combate singular; mas o elephante do rei de Siam fugiu e a rainha Surijô-Thai (Suriyothai) que montava outro elephante, combateu corajosamente, mas morreu e o inimigo pôde penetrar até Ayuthaya, que foi sitiada. Por falta de viveres Diogo Soares levantou o cerco e evacuou o Siam.
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Mas em 1547 o rei do Pegú, desejoso de possuir elephantes brancos, vem pôr de novo cerco a Ayuthaya e o rei consente emfim em dar quatro elephantes. 
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Em 1558 Phra-Naret, bem auxiliado pelos portuguezes, jura uma guerra mortal ao rei do Pegú, e atacando-o nas fronteiras traz dez mil captivos.
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Na Conhinchina e no Tonquim o christianismo tinha tomado um grande desenvolvimento, a ponto dos reis desconfiarem do seu poder, e receosos de perderem a confiança do seu povo, expulsam todos os christãos, que, uns fogem para Macau e outros refugiam-se no Siam.
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Por esta ocasião, em 1570, Christovão Diogo, portuguez expulso do Japão, vem procurar refugio no Camboge, e é o primeiro europeu que penetra no interior e que vê e annuncia ao mundo as soberbas ruinas de Angkor e do majestosos templo de Nagkon Wat, sustentado por mais de seis mil colunnas de magnifico marmore.
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Depois da tomada e posse definitiva de Malaca, muitos navios de guerra portuguezes, persegindo os piratas, iam até Siam, onde o rei empregava os tripulantes nas suas terras.
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Foi assim que algumas centenas de portuguezes se fixaram perto de Ayuthaya, d´onde, juntamente com outros christãos, pediram a Goa alguns padres jesuitas, dominicanos e franciscanos, os quaes estabeleceram tres freguezias de quinhetas almas cada uma, vivendo sós até 1662, epocha em que chegou a Siam a primeira missão franceza com o bispo de Bérythe.
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Um padre domminicano dá um plano para uma fortaleza que foi construida em Ayuthaya e que ainda hoje é a melhor e mais regular fortaleza de todo o Siam. 
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Os portuguezes fundiram canhões e sempre a artilharia foi servida pelos christãos. Em 1578 Phra Narai fez guerra aos cambogianos; vencendo-os fez milhares de prisioneiros, e mandando matar o rei, teve a barbara coragem de lavar os pés no sangue fervente do inimigo. 
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Augmentando assim em 1589 as forças do rei do Siam, que tinha uma confiança quasi absoluta nos portuguezes, resolve atacar e vingar-se do rei de Alva e Pegú.
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Põe em marcha um formidavel exercito, cujos principais commandos foram dados aos portuguezes, e atravessando as colinas que dominam o golfo de Bengala descem como rapinas, assolando tudo até á beira-mar e de tudo ficam pacificos possuidores. 
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Era brilhante o triunpho para ficarem sem premio aquelles que eram a causa d´elle. O rei de Siam concede novos privilegios aos portuguezes, e receando o desforro ou a vingança d´aquelles que acabava de vencer a titulo de recompensa, offerece ao rei de Portugal o porto de Marthaban por meio de embaixadores que enviou ao vice-rei da India.
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Estes embaixadores voltam carregados de presentes e acompanhados de um dominicano, que foi muito bem recebido pelo rei de Siam com o qual concluiu um tratado muito vantajoso para Portugal. Uma nova embaixada em 1621 fez com que o rei de Siam pedisse de Goa religiosos de S. Francisco para prégarem o Evangelho nos seus estados, construindo-lhes igrejas e offerecendo-lhes riquezas que nunca foram acceites.
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Em 1656 governava um tio de Phra Narai, o qual tentando violar-lhe uma irmã, este coadjuvado por mil e quinhentos portuguezes que havia em Siam, forçou o palácio, e o tio rei, querendo escapar-se disfarçado no meio da multidão, foi apunhalado por um portuguez. 
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Phra Narai subiu ao throno com o auxílio dos portuguezes, a quem sempre foi grato. 
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Estátua de um soldado português com uma espingarda, imortalizado num templo budista na cidade de Lampang (Norte da Tailândia. Foto de José Martins
Viveu até 1668, ephoca em que uma revolução derrubou os grandes edificios da liberdade e progresso implantados no paiz pelo celebre grego Constantino Falcão, para começar uma perseguição aos christãos e um periodo e abatimento que não devia acabar senão um seculo depois. 
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O tratado de Munster tinha legitimado as conquistas dos hollandezes no oriente, garantindo-lhes a propriedade dos archipelagos das Molucas e de Java, em prejuizo dos hespanhoes e portuguezes que primeiro os tinham colonisado.
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A companhia hollandeza das Indias fundada em 1605 tinha adquirido grossos capitaes com o rendimento medio de 22 por cento, e com o auxilio de dezasseis mil navios, mais de dois terços da totalidade dos navios do mundo n´aquella epocha. Isto não podia deixar de ser olhado com uma certa inveja por Colbert, o grande ministro de Luiz XIV, que a seu turno fundou a companhia francezas ads Indias orientaes.
Mas a França não tinha tido um tratado de Munster; precisava de conquistar, e as suas conquistas começaram pela fé. Em 1651 tinha-se formado em França a grande sociedade de padres para prégarem o Evangelho e em 1659 são nomeados tres bispos. 
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O bispo Bérythe parte para Siam, onde chega em 1662. Vae alojar-se no campo dos portuguezes, onde em nome do arcebispo de Goa lhe pedem os papais do papa.
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Isto deu origem a certas desintelligencias, em virtude das quaes a missão franceza refugia-se no campo dos hollandeses, que a este tempo possuiam o melhor commercio de Siam. Os francezes começaram a prégar em portuguez, o que foi causa de maiores aggravos. De Goa vae um encarregado missionário a Siam pedir a expulsão das missões francezas e depois vae outro de Macau com o mesmo fim.
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Os francezes expedem um dos seus para ir a Roma, passando por Inglaterra e França. Este missionário obtem de Luiz XIV, que em 1669 expede uma bulla permitindo as funcções episcopaes a M. de Heliopolis, que então estava em Siam, podendo exercer as ditas funcções em todas os paizes que não fossem do dominio dos portuguezes ou hespanhoes.Falta entrarmos com um elemento importante para a história d´esta epocha.
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Constantino Facão, um grego protestante, tinha conseguido ser o primeiro ministro do rei de Siam depois de se fazer catholico, o que jurou na igreja dos jesuitas portuguezes, convertido por António Thomás, que, passando por Ayuthaya, ía para as missões portuguezas do Japão.Primeiro ministro e manejando todos os negocios de Siam, casou em 1682 com uma portugueza vinda do Japão, por nome Guiomar de Pina. 
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Se Portugal não tivesse acabado de recuperar a sua independencia ou se tivesse podido tambem recuperar o seu prestigio no oriente, Falcão, que precisava de um apoio estrangeiro, não procuraria outro senão o dos portuguezes.
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Este lhe conviria mais porque, alem de ter as sympathias do paiz, tinha uma cidade sua a 2 leguas da côrte, com três igrejas, um seminário e uma população de mais de dois mil habitantes, e gosava de um grande prestigio para a guerra.
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Porém Falcão sabia que não podia contar com recursos de Lisboa e precisava de evitar a conquista de Siam pelos hollandezes, que se tinham assenhoreado de Malaca. 
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A guerra entre a França e a Hollanda tinha feito de Luiz XIV o grande rei da Europa, e Falcão decide-se a pedir a amisade da França, para onde partiu uma embaixada siameza que naufragou no Cabo. 
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Sabendo d´isto Luiz XIV, manda a embaixada a Siam. O chevalier de Chaumont é recebido com a maior deferencia, e partindo para França leva de presente a Luiz XIV a cidade de Zingora, em posição propria para defender Siam das forças hollandezas.  
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Falcão pede ainda a Kuiz XIV algumas tropas e em 1687 chegam doze companhias com oitocentos homens, que vão alojara-se nas fortalezas de Bangkok; o rei de Siam e o seu ministro grego estavam bem seguros dos hollandezes e julgaram-se ao abrigo tambem do que podessem fazer os descontentes do paiz.
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Porém o numero d´estes ultimos augmentava, na côrte por verem que um estrangeiro os domina, nos pagodes por verem que a religião christã é protegida e progride em detrimento da sua.  
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Os hollandezes, que começam a ver concorrencia ao seu commercio, fazem parte commum com os nobres e os padres do país, intrigando os francezes. D´ahi a revolução de 1688.
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Pitraxa, chefe da conspiração, apodera-se do palacio e do rei em Louvô, e manda matar Falcão. Os francezes começam a soffrer uma guerra cruel, á qual têem de ceder, indo muitos refugiar-se nas christandades portuguezas, que conservam o seu prestigio por meio da sua inactividade natural por falta de padres instruidos, no meio de gente habil na intriga e na politica do paiz.
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Este periodo vantajoso aos interesses da França terminou com o poder do novo monarcha, que, tendo vivido nos pagodes e affecto á sua religião, expulsou todos os francezes, respeitando todavia os christãos portuguezes, que davam asylo aos outros estrangeiros, a quem curavam e soccorriam, levando-lhes o alimento ás prisões. 
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Esta caridade não foi bem vista pelos siamezes, que condennaram alguns a servirem os elephantes, o que assim não era muito degradante.
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Durante dezenas de annos Siam viveu na anarchia interior, sem que outras potencias estrangeiras viessem entremetter-se, o que é de certo devido ao abatimento da Hollanda, ao começo do desenvolvimento da Inglaterra e emfim ás evoluções polticas por que passou toda a Europa no seculo XIII.
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Em 1758 recomeçou a guerra dos birmanes por causa dos elephantes brancos. O rei de Ava vae cercar Ayuthia, e depois de dois annos de resistência apodera-se d´esta capital, reduziando-a a cinzas.  
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Rei do Siam escapa-se para os bosques e more de miséria. Os francezes que, em decadência, conservam as suas missões, foram novamente expulsos e captivos para o Pegú, juntamente com os padres portuguezes.
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O bispo de Trabaca é conduzido com os christãos portuguezes para o mesmo destino; mas no caminho, os portuguezes, armados de coragem, derrotam os seus condutores birmanes e fogem para o Camboge. Só o bispo seguiu o seu destino.

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Ruínas de Ayuthaya a antiga capital do Reino do Sião. Foto: José Martins
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Em 1767, emquanto Ayuthia se via a braços com estes males e na dependencia de um conquistador cruel, um governador de uma provinvia do norte, por nome Phya-Thak, homem corajoso, prevendo a ruina da capital, reune uns mil homens decididos e retira-se para as montanhas de Nakhon-Najok, onde se defendeu sempre dos inimigos. Phya-Thak parte para Bang-plasoi, onde foi acclamado rei, e d´ahi para Rayong, reunindo sempre homens de boa vontade.
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Depois de atacar a Cochinchina e o Camboge, que submette á sua auctoridade, volta ás ruinas fumegantes de Ayuthia e extremina os inimigos sem piedade. D´ahi parte para Bangkok, que toma para sua residencia em 1769. Os christãos, dispersos por uma tal catastrophe, começam a reunir-se em Bangkok e os portuguezes conseguem erigir a igreja de Santa Cruz.
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Phya Thak, o libertador da patria, mostra-se cruel e os seus mandarins eram batidos de rotang. D´ahi uma conspiração que obrigou o rei a fazer-se talapão. O primeiro ministro apodera-se do throno e, transportando o palacio para a margem oriental do Mé-nam, fundou o Bangkok moderno em 1782. Este usurpador, que é o primeiro rei da dynastia actual, tomou o nome de Phra-Phute-Cháo-Luang e reinou até 1811.

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Igreja de Santa Cruz em 2007 .Foto: José Martins
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Depois das novas residências dos christãos em Bangkok, eram estes outras tantas ovelhas sem pastores. A França manda padres e o seu bispo. Os portuguezes, depois de muitos pedidos para Goa, obtêem que de lá lhes mandem alguns padres, que se retiram cobertos de miséria. Emfim, em 16 de Abril de 1782, frei Francisco Chagas, da ordem dos prégadores, é nomeado em Goa para ir a Siam e vae.
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Ciosos de prestigio que tinham ainda os portuguezes, os padres francezes, mais instruidos e fortes, começaram a intrigal-os com o fim de se verem livres do padre Chagas, concebendo para isso um plano muito original. 
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Fizeram crer aos siamezes que a cidade de Goa regorgitava de pedras preciosas e que o padre Chagas, que dispunha de muita influência, poderia lá obter milhões d´ellas para ornamento dos seus pagodes e do palacio real.
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Emfim, em 12 de dezembro de 1784, conseguem que o rei de Siam ordene ao padre frei Francisco das Chagas que vá a Goa comprar : seis cattes de esmalte fino de differentes qualidades; rubis finos de primeira sorte, um milhão; ditos de segunda sorte, dois milhões; esmeraldas finas de côr verde, um milhão d´estas duas grandezas: o, O - (Esta lista foi encontrada nos doc. ant. do consulado.) 
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Mas dinheiro nem um real! Era manifesta cilada.
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O padre Chagas partiu e com elle o ultimo facho da luz do christianismo de Portugal, luz que não devia voltar senão com o brilho de tantos milhões de pedras preciosas, impossiveis de obter! E com elle se foi tambem para sempre o restigio de Portugal, o que aliás é devido às evoluções do seculo.
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Os desgraçados portuguezes que ficavam em Bangkok não cessavam de escrever a representar para Goa, pedindo padres até 1790, anno em que receberam, com data de 4 de maio, uma carta do arcebispo, primaz do Oriente, dizendo-lhes que o secretario da propaganda lhe tinha feito constar, por dois breves que a missão de Siam não pertencia aos portuguezes, mas sim ais vigarios apostolicos; que bem sabia que os portuguezes tinham uma colonia com seu capitão, mas em Roma havia informações em contrário, e era necessario tratar das questão por Lisboa na curia romana; e que no entretanto deviam os christãos aproveitar-se dos padres francezes, pois que alem d´isso os padres dominicanos não tinham com que sustentar-se.
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Os portuguezes insistiam em pedir padres, até que em 1806 o arcebispo de Goa, frei Manuel, lhes dá um desengano formal, ordenando-lhes "que entreguem aos missionários apostolicos da propaganda as suas igrejas, capellas e tudo o mais que tivessem em seu poder e que se fizessem humildes ovelhas da propaganda, pois teriam o inferno por certo se continuassem a ser rebeldes". 
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Calaram-se os portuguezes com medo do tremendo papão, e assim passaram aos vigarios apostolicos as missões portuguezas de Siam que de direito nos pertenciam.
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Desde que não houve padres portuguezes e que o novo rei concedeu a liberdade de consciência, as missões francezas progrediram e começaram a construir igrejas nos logares que tinham sido concedidos para as igrejas dos padres portuguezes.
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Em 28 de Dezembro de 1786 ainda o rei de Siam escreve para Portugal, concedendo o estabelecimento de uma feitoria em Bangkok, a qual ainda hoje possuimos e é onde se acha o edificio do consulados, em roda do qual se tem formado modernamente uma grande cidade estrangeira que liga com o palácio fundado em 1782 em uma extensão de 7 kilometros, e contando uma população superior a um milhão de habitantes.
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O seculo XIX apresentas-e com um caracter differente. A propagação da fé e o espirito guerreiro dos seculos anteriores cede o campo ao commercio internacional e á influencia ingleza. Senhora da India, de todo o golfo de Bangala e de todas as posições importantes da costa occidental malaia até Singapura, era natural que a Inglaterra começasse a olhar para Siam com certa cobiça.
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Em 1816 o embaixador Canning estabeleceu as bases de um commercio regular, sem comtudo obter dos siamezes outras vantagens. Adam, Crawford, Dangerfield, em 1821, fallam do commercio e dos interesses que podiam vir ao Siam, mas estes paiz olha desconfiado para a Inglaterra, porque esta tem contribuido para a desannexação dos potentados do sul da peninsula malaia.
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Parker e depois Neale, em 1852, querem mais commercio e mais garantias para elle, mas Siam recusa formalmente o estabelecimento de um consulado inglez.
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Em 1833 Siam concluia com a America um tratado, no qual foi concordado que, se para o futuro Siam permitisse o estabelecimento de consulado de qualquer nação com excepção do de Portugal, a America podel-o-ia estabelecer tambem.
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O que este tratado tem de mais curioso é que foi exigido pelos siamezes que d´elle se fizesse uma traducção em portuguez.
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Porém não devemos admirar-nos d´isto, porque o portuguez foi a lingua diplomatica de Siam até áquella data. Constantino Falcão, o ministro grego de Phranarai, fallava o portuguez, e todos os documentos officiais nas relacções de Siam com a França eram traduzidos em portuguez. 
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O padre Tachard escrevia em portuguez, e n´esta lingua prégaram os missionários francezes. O tratado com a America é o ultimo documento d´esta ordem traduzido em portuguez, e prova que até áquella epocha o inglez não era conhecido no Siam.
E´sta mesma data os siamezes dirigem uma expedição á Conchinchina, de one trazem milhraes de captivos, entre os quais mil e quinhentos christãos, sendo muitos portuguezes que foram servir nas fortalezas.  
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Em 1851 o principe Cháo-fá foi enthronizado com o nome Somdet-Phra-Paramander-Maha-Monkut, etc., que deu o primeiro passo, concluindo tratados de amisade e commercio com as nações estrangeiras. É o pae doa actual rei.
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Em 1855 Bowring enceta as negociações e em 1856 foram assignados tratados com outras potencias, que d´essa data começaram a estabelecer os seus consulados.
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Só Portugal tinha a regalia de um consulado desde 1820, preferindo assim todas as outras nações pelo espaço de trinta e seis annos.Mas infelizmente, durante todo este periodo, Portugal soffria todos os malles da guerra civil, tendo como resultado natural o esquecimento das colonias e de todos os negocios do estrangeiro.
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A nossa rehabilitação de 1820, nos negócios de Siam, foi pois uma chimera, e as vantagens incontestaveis da nossa situação poderiam dar-nos uma preponderância, se tivessem sido aproveitadas. Mas não o foram, e a Inglaterra, sempre vigilante e com a sua politica absorvente, herdou-nos este direito, que tem sabido cultivar, obtendo resulatdos fabulosos.
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Darei aqui uma lista dos representantes de Portugal em Siam desde 1820.
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Primeiro consul
Carlos Manuel da Silveira, consul desde fins de 1820 até 5 de maio de 1853. Veio acompanhado de um secretário e de um destacamento de um cabo e quatro soldados. Segundo as instruções que trouxe, conseguiu que fosse aprovado um tratado, que foi o preliminar dos tratados de 1856.
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Segundo consul
Marcellino de Araujo Rosa. Tomou posse em 5 de maio de 1833 e exerceu o cargo até 22 de julho de 1852. Trouxe presentes do estylo, sem esquecer os presentes ao capitão do porto, que era o portuguez José da Piedade.
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Primeiro encarregado
Joaquim Maximiano da Silva, secretario. Ficou encarregado, desde a saída do consul Rosa até março de 1855.
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Terceiro consul
Frederico Moor.Tomou posse em 22 de março de 1855 e exerceu o cargo até 28 de abril de 1868.
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Segundo encarregado
José Maria Fidelis da Costa. Esteve encarregado desde 28 de abril de 1868 até 16 de setembro do mesmo ano. É hoje director da alfandega de Bangkok.
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Quarto consul
Guilherme Ferreira Vianna, o primeiro consul vindo de Lisboa, tomou posse em 16 de setembro de 1868 e exerceu o cargo até 25 de setembro de 1869. Morreu afogado, mas há dados incontestáveis de que suicidou.  
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(Nota minha: O cônsul Pereira equivocou-se ou alguém o teria informado mal... Guilherme Ferreira Vianna, não tinha motivo algum para se suicidar. Foi o primeiro cônsul vindo de Portugal com todo o seu fulgor de jovem de 28 anos. 
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Gozou de grande simpatia na comunidade, estrangeira e diplomata em Banguecoque. Foi ele que representou a comunidade diplomata de quando S.M. o Rei Chulalongkorn, Rama V foi entronizado pela morte de seu pai S.M. o Rei Mongkut Rama IV. 
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Tudo indica que o cônsul Ferreira Viana foi vitima de uma cilada "pela Igreja do Vaticano" que depois de um Xavier (tenho nome completo dele e do resto de sua família) português, muito ligado à igreja, o convidou para uma caçada ao Elefante em Ayuthaya. 
Seguiram rio acima Chao Prya de barco. Pelo fim da tarde, jantaram, a 20 quilómetros de atingir Ayuthaya e um relato, do Governo de Macau, diz: que o cônsul Viana depois de comer foi tomar banho e foi vítima de uma congestão de miolos. 
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Outro relato do médico, famoso em Banguecoque, Inglês Campbell (tenho cópia nos meus arquivos) diz que devido às leis do Reino não lhe deixaram autopsiar o corpo de Ferreira Viana. 
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Porém limitava-se a escrever que não tinha encontrado ferimentos externos no corpo e lhe parecia que o Viana morreu afogado. 
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O cônsul Viana tinha feito uma petição a S. Majestade o Rei para que os terrenos que a Igreja do Vaticavo se apossessou a Portugal e à comunidade lusa/siamesa fossem devolvidos. 
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Os interesses da Igreja do Vaticano eram demasiados... Guilherme Ferreira Viana pagou com a vida o ter dito a alguém (Xavier português?) aquilo que iria fazer depois de regressar da caçada ao elefante em Ayuthaya. - José Martins
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Terceiro encarregado
Joaquim Vicente de Almeida, commissionado de Macau, exerceu o cargo desde 11 de maio de 1873 até 2 de outubro do mesmo anno.
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Quinto consul
Eduardo Pereira Leite, commissionado de Macau, exerceu o cargo desde 11 de maio de 1873 até 2 de outubro do mesmo anno.
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Quarto encarregado
Joaquim Vicente de Almeida, encarregado desde 2 de outubro de 1873 at]e 15 de janeiro de 1875
Sexto consul
António Feliciano Marques Pereira. Foi consul desde 15 de janeiro de 1875 até 1 de abril de 1881.
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Quinto encarregado
Francisco Badorel Xavier, secretario, foi encarregado desde 1 de abril de 1881 até 6 de junho do mesmo anno.
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Setimo consul
Henrique Jeronymo Prostes, foi consul desde 6 de junho de 1881 até 22 de Novembro de 1882.
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Sexto encarregado
Francisco Badorel Xavier, foi encarregado desde 22 de novembro de 1882 até 4 de novembro de 1883.
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Oitavo consul
Cancio Jorge, commissionado de Macau, foi consul desde 4 de novembro de 1883 até 16 de maio de 1884.
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Setimo encarregado
Ernest Satoir, ministro de Inglaterra, foi encarregado desde 16 de maio de 1884 até 15 de setembro do mesmo anno.
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Oitavo encarregado
Daniel Goulart, foi encarregado desde 15 de setembro de 1884 até 22 de julho de 1886.
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Nono consul
O actual ( Frederico Antonio Pereira e o autor deste relatório)
Dar-lhe-hei duas tabelas curiosas.
Jose Martins
(Respeitada a ortografia da época)
Fotografias do autor e outras antigas retiradas de publicações.