Translator

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

BAIRRO PORTUGUÊS DE SANTA CRUZ EM BANGUECOQUE - TRABALHO, HONESTO, JORNALÍSTICO

LUSO-DESCENDENTES DO BAIRRO DE SANTA CRUZ, EM BANGUECOQUE, SÃO CATÓLICOS DEVOTOS HÁ VÁRIAS GERAÇÕES
.
Tailandeses de passaporte, portugueses de coração
São cidadãos tailandeses que nunca estiveram na pátria de Luís Vaz de Camões. Mas é com orgulho que dizem ser portugueses de alma e coração. Quinhentos anos após o estabelecimento das relações diplomáticas entre Portugal e a Tailândia, O CLARIM esteve no Bairro de Santa Cruz, em Banguecoque, tendo verificado que há tradições que não se apagam com o tempo: uma delas é a profunda devoção que sentem pela religião católica; a outra é a confecção de queques de origem portuguesa.
.
NA tarde de um destes Domingos fui visitar um carismático bairro de luso-descendentes, na Tailândia. Ali por perto, sentada num banco de cimento, estava uma senhora idosa que, juntamente com a sua filha, contemplava a fachada principal da igreja de Santa Cruz, no distrito de Thonburi, em Banguecoque.
.
A poucos metros atrás delas corre o rio Chao Phraya. Do outro lado da margem, está o «Flower Market» (Mercado de Flores). Na quina deste pequeno largo, do meu lado direito, há um bonito jardim com a imagem de Nossa Senhora. Detenho agora o olhar uns metros mais à direita para observar a Escola de Santa Cruz.
.
Oiço ainda palavras, em tailandês, que se espalham pela vizinhança, provenientes das colunas de som que estão afixadas no interior e no exterior da igreja. Não sei o que querem dizer, contudo, estou consciente quanto ao seu significado.
.
Dou meia volta e sigo para o interior desta casa do Senhor. Acto contínuo, respiro o ar de paz e tranquilidade, ao mesmo tempo que olho com atenção para o tecto, para o altar e para as imagens religiosas da igreja. Vêem-se sentados nos bancos alguns fiéis.
.
Sai, entretanto, do confessionário o padre Chalongrat Sangkaratt. Decido ir em sua direcção, apresentando-me como jornalista português de Macau, que muito gostaria de falar com alguns luso-descendentes do bairro. «Espere um pouco, vou chamar alguém», responde-me, em língua inglesa.
.
Minutos depois tenho à minha frente o senhor Santi Suwannasri, de 50 anos. «Olá», acena-me. «Olá, também fala “portuket”? Sou o Daniel. E você, como se chama?», pergunto-lhe efusivamente.
.
Fico logo a perceber que Santi apenas sabe algumas palavras em Português. Nada, contudo, que atrapalhe a nossa conversa, que prossegue em inglês. «Você é mesmo descendente de portugueses?», questiono-lhe. «Olhe para os meus olhos e para o nariz. Pensa que não sou português?», responde-me convictamente. «Tem parecenças, sim senhor», digo-lhe.
.
Santi pede-me que o siga, em direcção a uma arrecadação, nas traseiras da igreja de Santa Cruz. O portão aberto é convidativo à entrada. Sento-me numa cadeira, próxima de uma pequena mesa. «Deve ser no piso superior deste edifício que está o escritório da igreja», interiorizo. À medida que Santi desdobra uns papéis e um mapa, vou ouvindo as suas explicações sobre as origens e a história do Bairro de Santa Cruz.
.
Pergunto-lhe pelo líder religioso da comunidade católica, à medida que vou observando as traseiras da igreja, que está a poucos metros de mim, ali do outro lado da pequena rua. «O abade Wittaya Kooviratana deve estar nos seus aposentos a descansar. Daqui a pouco vai celebrar a missa», explica. Fico ainda a saber que há no bairro cerca de mil crentes católicos, a que se juntam mais 350 pessoas que professam o budismo.
.
Queques famosos
.
Santi fala-me agora sobre a famosa «ka nom farang Ku Dee Jeen» (sobremesa estrangeira do Bairro de Santa Cruz). Trata-se de um queque de origem portuguesa, que se confecciona há várias gerações numa «fábrica» – assim lhe chama – que se ergue no local oposto à arrecadação onde me encontro.
.
O seu exterior aparenta ser uma simples moradia de cor verde, com piso térreo e primeiro andar. Contudo, é de lá de dentro que saem os «cupcakes» (queques) que foram aqui introduzidos há mais de duzentos anos, por uma portuguesa, conforme me disse Santi, de apelido «Benedic».
.
A confecção sofreu algumas alterações com o passar dos tempos, pois os queques levam agora passas, para ir ao encontro do paladar dos tailandeses. A «fábrica» – prossegue – dividiu-se em duas a partir da quarta geração, passando desde então a ser gerida por distintos proprietários, também eles tailandeses.
.
«Na mais antiga fazem-se os queques com passas; na mais recente, a este doce junta-se a elaboração de um outro queque com cobertura e com uma pequena amêndoa no meio. A confecção não é feita da mesma maneira pelas duas empresas», sublinha Santi.
.
«No bairro fazia-se também um doce com fios de ovos, tipicamente português. Acabou há cerca de duas décadas», explica-me, alguns dias depois, o ex-funcionário da embaixada de Portugal em Banguecoque, José Martins.
.
A missa das 19 horas está, entretanto, prestes a começar. No céu já se avistam os últimos raios de sol. Num impulso, presto-me a ler o horário que está num folheto da igreja. Fico a saber que a missa é aqui celebrada, de segunda-feira a sábado, às 6 e às 19 horas. Na primeira sexta-feira de cada mês celebra-se às 8 e às 19 horas. Nos Domingos, às 6, 8 e 30 e 19 horas.
.
Passam, entretanto, alguns moradores pela pequena rua que dá acesso ao pátio. Vão assistir à missa da noite. É então que surge um senhor com feições de «macaense chapado». Não fala a língua de Camões, mas tratam-no por Anthony ou por António. Diz-me que o seu filho sabe de cor a letra de duas canções portuguesas. António não fica muito tempo à conversa, pois quer ver o seu filho a tocar órgão na missa.
.
Fico à conversa com Santi. Olho atentamente para o mapa que me põe à frente. Anoto as suas explicações, ao mesmo tempo que vou contemplando as suas expressões faciais.
.
Dias depois de ter regressado a Macau, decidi falar com José Martins sobre as comunidades luso-descendentes dos bairros da Senhora do Rosário, de Santa Cruz e da Imaculada Conceição, em Banguecoque. «São bairros onde já não existe comunidade portuguesa. Se há sangue luso, está muito diluído. Ninguém fala a língua de Camões, a não ser umas palavras que ficaram e são pronunciadas correctamente. No entanto, são tailandeses que se identificam com a Igreja Católica», explica-me o também ex-correspondente da LUSA na capital tailandesa.
.
Aniversário na imprensa
O jornal de tiragem nacional Khao Sod deu grande destaque ao 500º aniversário das relações diplomáticas entre Portugal e a Tailândia, na edição do passado dia 24 de Julho.
.
Na secção «Hansa Column» (sai aos Domingos), entre doze fotos que ilustravam o artigo, de salientar uma com oito crianças trajadas à antiga portuguesa; a que se juntam outras das ruínas da igreja portuguesa dominicana de Ayutthaya, da Igreja e da Escola de Santa Cruz e, ainda, do embaixador português acreditado em Banguecoque, Jorge Torres Pereira.

Na edição de 9 Maio, também a secção «Hansa Column» deu grande destaque à efeméride, com um artigo de uma página, ilustrado com fotos do diplomata Torres Pereira, bem como da embaixada de Portugal e da Igreja de Santa Cruz, entre outras.
.
Nas livrarias estão, entretanto, à venda duas obras, escritas em tailandês, que assinalam a presença portuguesa no Sião. «500 anos de relações entre a Tailândia e Portugal» e «História Dourada de Duas Terras» podem também ser adquiridas através do endereço electrónico http://www.matichonbook.com/  e, ainda, em qualquer posto de correios do País.
Igreja secular
.
A igreja de Santa Cruz, construída durante o reinado de Taksin (1768 -1782), é um legado das relações entre Portugal e a Tailândia, que datam desde o século XVI.
.
Ayutthaya recebeu, em 1511, uma missão diplomática lusitana, enviada por Afonso de Albuquerque, na sequência da conquista portuguesa de Malaca, em virtude da influência que era então atribuída ao Sião sobre a península malaqueira.
.
Cinco anos depois, em 1516, Portugal assinou com o Sião um tratado para o abastecimento de armas de fogo e de munições. Em troca, foi concedido aos portugueses o direito de residência e de comércio, bem como a prática da sua religião. Os primeiros frades lusitanos chegaram em 1567, tendo sido eles que estabeleceram a Igreja Católica na então capital do Reino de Ayutthaya.
.
Após a segunda queda da cidade de Ayutthaya, em 1767, o padre francês Jacques Corré levou os católicos para a nova capital, no Reino de Thonburi, não muito longe do Phra Racha Wang Derm, ou seja, do Palácio do Rei Taksin.
.
O fornecimento de mercenários, de canhões e de mosquetes, por parte dos portugueses, contribuiu de forma significativa para a vitória do exército comandando por Taksin «O Grande» contra os birmaneses. Reconhecido pelos serviços prestados, foi-lhes concedido um lote de terra para a construção de uma igreja, durante uma visita real ao local, a 14 de Setembro de 1769.
.
Este dia tem grande significado para as Igrejas Católica e Ortodoxa, pois foi no ano 336 AD, durante uma peregrinação a Jerusalém que Santa Helena, mãe do imperador romano Constantino, terá descoberto a santa cruz em que Cristo foi crucificado.
.
A nova igreja de Santa Cruz, construída em madeira, numa das margens do rio Chao Phraya, ficou concluída a 25 de Maio de 1770. No entanto, foi caindo em estado de abandono ao longo dos próximos 65 anos.
.
Em 1835, o cardeal Pallegoix construiu uma segunda igreja para substituir a de madeira, aparentando, porém, ter uma aspecto vincadamente chinês, razão pela qual começou a ser conhecida por igreja «Ku Dee Jeen», ou seja, igreja chinesa. A comunidade que foi crescendo ao seu redor passou também a chamar-se «Ku Dee Jeen».
.
Em 1916, durante o reinado do rei Rama VI (1910-1925), foi construída a terceira e a actual versão da igreja de Santa Cruz, sob a supervisão dos renomeados arquitectos italianos, Annibale Rigotti e Mario Tamagno.
.
De referir que Taksin «O Grande» libertou o Sião da ocupação birmanesa, após a segunda queda de Ayutthaya, em 1767. Foi ainda responsável pela posterior unificação do Reino do Sião.

.
PEDRO DANIEL OLIVEIRA, em Banguecoque (Tailândia) - Peça publicada no jornal Clarim de Macau 

--------------------------------------------------------------------------------