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quarta-feira, 18 de maio de 2011

HOJE UM POUCO DE HISTÓRIA DE PORTUGAL NA TAILÂNDIA

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Um artigo que o embaixador Hélder de Mendonça e Cunha e publicado no livro, editado pela Siam Society, em 1976 sob o título “In Memory of H.R.H. Prince Wan Waithayakorn, Kromamun Naradiph Bongsprabandh – Presidente of The Siam Society.
Embaixador Hélder de Mendonça e Cunha se hoje fosse vivo teria 90 anos.
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É o primeiro embaixador de Portugal em Banguecoque e acreditado em 1966 a 1970. Pouco se sabe de Mendonça e Cunha em Banguecoque e mais um representante de Portugal esquecido que foram fazendo alguma obra.
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Nos meandros da diplomacia existem ingratidões vastas ao ponto de alguns valores sejam arrumados ao canto. Cada embaixador que vem, narcisamente, é sempre o melhor e os predecessores não contam. Porém fui avaliando um por um e aos de valor coloco-os no pedestal merecido..
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A CONCESSÃO TERRITORIAL FEITA A PORTUGAL EM 1820 - Por Heldet de Mendonça e Cunha
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Foi em Ayuthaya, em 1511, que Portugal teve seu primeiro contacto oficial com o reino do Sião, logo após a conquista de Malaca, Afonso de Albuquerque enviou Duarte Fernandes junto do Rei Rama Thibodi II, com presentes e uma mensagem de amizade, numa altura em que existiam más relações entre o rei e o sultão de Malaca pois este último, faltando a um compromisso assumido, não lhe pagara o tributo anual de flores de ouro.
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O rei do Sião acolheu cordialmente o enviado português e expressou o seu contentamento pelo facto de os Portugueses terem subjugado o sultão rebelde. Alguns anos mais tarde em 1518, os reis do Sião e de Portugal concluíram o seu primeiro tratado de amizade e comércio no qual, em troca da promessa da ajuda militar dos Portugueses, os siameses lhes concederam privilégios de ordem comercial e religiosa. Este tratado, concluído pelo enviado Duarte Coelho, foi o primeiro firmado pelo reino de Sião com um país europeu..
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Deste modo, muitos portugueses foram para o Sião e ai ensinaram a arte da guerra, a construção de fortiificações e a fabricação de armas. Também tomaram parte nas guerras contra os reinos vizinhos em que o país se envolvia constantemente, em especial contra a Birmânia. O Rei P´ra Chai, que subiu no trono em 1536, tinha 120 Portugueses na sua guarda pessoal, o que é indício destes se situarem numa posição privilegiada na corte do Sião..
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Em reconhecimento da ajuda dos Portugueses, foi-lhes feita a concessão da terra na qual fundaram a sua primeira comunidade (contanto mais de duas mil pessoas) e construíram, entre outras, as igrejas de S.Paulo, S. Francisco e S.Domingos. Esta área ainda hoje é referida como o “Ban portuguet” (Bairro Português). O terreno, situado ao longo do rio Chao Phraya, tinha mais de 2 kms de extensão e era cercado por um canal, razão pela qual alguns escritores lhe chamaram a “Ilha dos Portugueses”.
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A comunidade portuguesa existente em Ayuthaya despareceu quando a cidade foi destruída pelos birmaneses em 1767. O futuro rei (General Phya Taksin), que veio a restaurar a independência do reino no ano seguinte, concedeu terras aos Portugueses que haviam combatido ao seu lado, na zona da nova capital estabelecida em Thomburi, na margem ocidental do rio Chão Praya ..Esta aglomeração chamou-se “Colónia de Santa Cruz”.
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Entre os seus habitantes existem ainda algumas famílias com nomes Portugueses – o de Jesus, por exemplo. Dois membros dessa família fazem e vendem pequenos bolos que a tradição diz serem uma antiga receita portuguesa.
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Em 1786, quando da transferência da capital de Thomburi para a margem oriental do rio Chão Praya, o Rei Rama I concedeu ao rei de Portugal outro importante e valioso terreno, situado sobre o rio, perto da actual embaixada portuguesa. A esta zona chamou-se “O Rosário”, tendo sido oferecida “em consideração da ajuda dada pelos portugueses nas guerras contra o rei Birmanês. Foi aí construída uma igreja por Frei Francisco Chagas, que viera de Goa para cuidar da comunidade portuguesa.
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Os membros desta noca comunidade construíram as suas casas e dedicaram-se ao comércio, construindo também barcos, muitos dos quais como o “Concórdia”, estavam registrados no consulado português em Banguecoque.
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A carta de concessão do rei Rama I afirmava: o rei (do Sião) exprime a sua gratidão à rainha D.Maria I, pela sua amável generosidade, símbolo de boa- vontade que não poderá ser esquecido até ao fim do mundo...
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De futuro, o rei não mais causará a Vossa Majestade o incómodo do envio de tropas e munições, mais solicita que sejam dadas ao governo de Goa no sentido de lhes serem enviados três mil mosquetes durante o ano de 1787.
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Caso os súbditos de Vossa Majestade desejem estabelecer uma feitoria, o rei está disposto a conceder-lhe um terreno para esse fim, no qual poderá ser construída uma igreja...Esta disponibilidade do rei em oferecer terra para o estabelecimento, de uma, feitoria, em Banguecoque (ou seja de uma comunidade comercial), viria depois a ser posta em prática.
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Em 1820, durante o reino de Sua Majestade o Rei Rama II, foi oferecido a Portugal um terreno em que se estabeleceram uma “Feitoria Portuguesa” e a residência do primeiro cônsul, Carlos Manuel da Silveira. O texto da carta de concessão:

" Eu Chao Phya Surivon Montri Ministro de S.Majestade o Rey do Siam faço saber a V.Exa. o Illmo. Sr. Diogo de Souza, Vice Rei e Capitão General de Mar e Terra dos Estados da Índia, que recebemos as cartas e offertas enviadas por V.Exa. pelo Consul Geral e eu fiz introduzir à Audiencia de S.Majestade o Soberano, o mais amado de seus povos, e juntamente o Comandante do Brigue com os seus officiais e havendo S.Majestade tomado conhecimento do conteúdo das cartas de V.Exa. de ordem do seu 2º Rey para que tomado em consideração as proposições de V. Exa. e as do Ministro de Macau para renovar a antiga amisade deste Reyno com o de Portugal e estabelecer huma Feitoria com residência de hum Consul neste Reyno para o que se darão as promptas providencias para se por em execução e se entregou ao consul Geral Carlos Manuel Silveira, hun chão que lhe pareceu proprio e conveniente com 72 braças de siam ao longo do Rio, 50 de fundo com dois gude para fazer navios com privilegio que todos os Portugueses poderão vir aqui negociar como antigamente por quanto S.Majestade é Inclinado à Nação Portuguesa que a nenhuma outra. O Consul Geral, o comandante do brigue e seus officiais receberão quatro meses de comodorias e 160 ticaes por mês e o mesmo Consul Geral S.Majestade foi servido honrar-lhe com o Título de Luong Aphai Phanit e o singio com as insignias daquella graduação. As offertas de V.Exa. para Sua Majestade forão todas e entregues aos seus officiaes respectivos. Sua Majestade ordenou ao Seu Ministro para enviar a S.Exa. pelo commandante do Brigue S. João Baptista cem picos de assucar, 3 ditos de Marfim, 15 ditos de calem; 20 ditos de pimenta, 3 ditos de uma tinta amarella e espera que V.Exa. aceita em consideração à sua particular estima. As ideias de V.Exa. unidas às do Ministro de Macau o Illmo. Miguel de Arriaga Brun da Silveira afim de instaurar a antiga amisade deste Reyno com o de Portugal o faz dignamente merecedor de ser o 1.º representante de S. Majestade o Rey de Portugal na Índia. E se esta amisade for com efeito estabelecida firmemente como deseja S.Majestade e os Portugueses aqui venham comerciar francamente será hum motivo de eternizar para sempre o nome de V.Exa. entre todas as Nações do mundo inteiro até que exista o Ceo e a Terra. S. Majestade recomenda-me avisar V.Exa para que se sirva informar a todos os mercadores que aqui venhão que tragão espingardas bastantes e boas porque S.Majestade muito necessita dellas. Deos Guarde a V.Exa. por muitos annos. Bangkok aos 5 da Lua do 12 mes do anno Marong de 1182 que corresponde à Era Christã 9 de Novembro de 1820."
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E neste terreno que se situa a actual embaixada de Portugal, sendo a mais antiga residência diplomática em Banguecoque.Helder de Mendonça e Cunha.
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José Martins - Um velho residente, com mais de três décadas de vivência neste Reino que tem servido dois países amigos Portugal e a Tailândia.