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domingo, 5 de julho de 2009

O MEU RIO VISTO DO ALTO

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Não via o meu rio, junto aonde vi por muito anos, há 19 meses nem do alto nem de baixo.
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Afastei-me do rio e da minha rua a Captain Bus Lane há 18 meses. Foi no princípio da noite de 16 de Janeiro do ano passado e desde então nunca mais lá passei, apenas uma vez, mas na Chalerm Krung de onde a Captain Bush parte e a uns pouco mais de 100 metros, quando os olhos, de quem por ali passa, ao seu lado esquerdo, vê a Embaixada de Portugal.
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Não me zanguei com a minha rua, muito menos com o meu rio Chao Prya, mas incomodaram-se comigo uns inquilinos que temporariamente, junto à margem, vivem.
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Vou deixar, para outra altura, com mais pormenor, a história.
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Hoje vou apenas referir-me de onde vi o meu rio o Chao Prya e, precisamente, de um 30º andar da margem esquerda e a um quilómetro de distância e do mesmo lado onde se instala, num terreno doado a Portugal, para construir Feitoria, pela real graça de Sua Majestade o Rei Rama II, em 1820.
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Asilei-me em minha casa há 19 meses, desde que fui expulso, por indecente e má figura, ao fim de permanência de 24 anos, por sua Excelência o Embaixador de Portugal António de Faria e Maya que viria a escrever uma página na história de minha vida.
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Sua Excelência não gostou, nada mesmo, de umas verdades puras saídas de minha boca, que não me arrependeria se estas, as merecesse, dirigi-las a Sua Excelência o Presidente da República e quem o credenciou para representar Portugal na Tailândia.
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Raramente, depois de ter sido quebrada a minha rotina diária em 16 de Janeiro de 2008, não saio de minha casa, para o centro de Banguecoque e fi-lo pouco mais de uma meia dúzia de vezes.
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Claro que não sou um prisioneiro, voluntário, de quatro paredes, ou que esteja por aqui de olhos de "carneiro morto", um desgraçadinho, obcecado, pelo passado, de 24 anos, de ter servido Portugal (nunca servi homens) no meu melhor, oferecendo mais do aquilo que haja recebido.
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O dia para mim começa muito cedo e outra vida nasce desde que acorde vivo.
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Vamos lá contar a história. Certo, se dissesse o contrário fugia â verdade, tenho muitas saudades do meu rio e de todo aquele movimento matinal que lhe conheci.
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Por muitos anos, pela fresca manhã, ainda o sol não se tinha descoberto e beijar com os seus raios o ondulado da água superfície do rio, já eu sentado, num banco de cimento, no embarcadouro da Captain Bush Lane, observava todo o movimento, humano, no seu vai-e-vem da margem de cá de Banguecoque para o lado de Thomburi.
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A capital tailandesa é rasgada em duas partes pelo meu rio e a ele se deve a bênção de ter sido o elo de ligação entre o Reino do Sião e os países da Europa desde 1509 e de quando o português Duarte Fernandes (a), navegou por ele acima, para a Ayuthaya e com a mensagem do Grande Afonso de Albuquerque para Rei Tibodi II: “dizei ao Rei so Sião que os portugueses vão conquistar Malaca”.
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Sei la quantos vezes, sentado no banco do cimento do embarcadouro, além de toda aquele gente que via, vesti a pele dos portugueses de outras eras e por vários séculos subiram e desceram o rio.
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Continuo dentro das pieguices, que me têm caracterizado, um patriota de “meia tigela” e continuar a ser independente a contar a história de Portugal na Tailândia, sem nunca me ter arrastado aos pés, ou beijado o “traseiro” do Poder e solicitar-lhe dez reis de mel coado para as minhas investigações histórias desde há 24 anos.
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Preferi viver livre e quando o Poder não me merece a mínima consideração mandei-o colher malvas.
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Não sou nenhum anárquico, mas por algumas vezes insurgi-me, quando o Poder se deteriorou, porque poder, sem poder que valha é devassado.
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Uns três dias antes de sábado passado, um português (daqueles emigrantes a sério que de muito novo, como eu, agarrou os cornos do mundo e correu as sete partidas), enviou-me um e-mail a convidar-me para uma merenda, no seu apartamento, situado num trigésimo andar, que habita junto à margem esquerda do meu rio.
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Quando um português, daqueles emigrantes a reais, convida outro patrício, desde logo, à cabeça, se sabe que vai haver mesa farta, petiscada variada, onde não pode faltar o “bacalhau”. Vinho português, nesta merenda, não houve um gole que fosse e bebeu-se do Chile.
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Não vou acusar aqueles que tinham, por dever e obrigação que em Banguecoque, agressivamente, o vinho português fosse levado à rua e não em provas para meia dúzia de bebedores, distribuindo, uns aos outros sorrisos e palavras a transbordar hipocrisia, que além de dizerem, para agradar ao anfitrião: “ the wine´s excelente”!, nas suas mesas não entra "pinga" que seja do néctar das vinhas, solarengas, de Portugal.
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Uma tarde bem passada com comes e bebes naquela torre de cimento e aço e juntei o útil ao agradável! Petiscada lusa, boa hospitalidade e então a vista, de uma beleza rara, o ter admirado o meu rio bem alto e um olhar que nunca haja tido o privilégio.
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De facto o meu rio, não tinha aquele movimento de turistas, visto dois anos atrás, onde nos convés dos barcos, a céu aberto tomavam as suas ceias, enquanto outros dançavam ao som de uma banda de música. Observei um apenas. Os turistas vão voltar e não tardam. A magia daquele rio não se apaga na memória dos que nele navegaram e voltam sempre.
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As margens do rio cresceram muito em 32 anos quando pela primeira vez o naveguei e o canais de Thomburi, num barco, indolente e conhecido por “tuk-tuk”.
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Aquele casario construído de madeira e suspenso em estacas de árvores de teca, deram lugar a enormes torres de trinta e mais andares. É o progresso a que o o meu rio não escapou. Uns velhos armazéns e ainda umas casas de madeira, seculares, a querer vencer a lei do tempo e do progresso nas margens teimam em identificar a cidade de Banguecoque de outras eras.
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Regressei a casa no principio da noite feliz porque vivi, nostálgico, o meu rio e o da minha poesia das alturas.
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José Martins
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(a) Alguns historiadores têm referido à data de 1511, da chegada dos portugueses ao Reino do Sião, quando esta data é de 1509. O proeminete historiador John Villiers escreveu, numa monografia “Portugal e a Tailândia” (Fundação Calouste Gulbenkian) em 1988: “...Para este efeito enviou Duarte Fernandes (que viera para Malaca em 1509 como oficial da frota portuguesa comandada por Diogo Lopes de Sequeira e que falava um pouco tailandês) a Ayuthaya, onde lhe foi concedida uma audiência com o Rei Rama Thibodi II, na qual este foi presenteado com uma espada cuja bainha era de ouro incrustada com diamantes...” Está completamente errada a data de 1511 da chegada dos portugueses, ao Sião quando esta foi em 1509.
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Em 30 de Setembro de 2002 escrevi a peça, transcrita, a seguir e publicada no website www.aquimaria.com/html/aboutth.html
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"A poesia do rio e da minha rua. Em Banguecoque tenho muitas ruas. Rios só um: o Chao Praiá. Aquela onde vivo, outras que me são familiares há muitos anos, principalmente as que me servem de manhã para chegar à Embaixada de Portugal e de volta a casa ao fim da tarde. Itinerários que não mudo para me facilitar a fuga ao tráfego nas horas do começo da movimentação da grande cidade. Pontualmente, programado, às seis da manhã, eu e a Maria saímos de casa. Oitocentos metros é a distância que separa a Varanda do Oriente, de minha casa, até à auto-estrada. Depois de atingir a enorme via, o eixo rodoviário da Tailândia, do Norte ao Sul até à fronteira da Malásia, são uns escassos 15 minutos que o meu utilitário necessita para deixar minha filha na escola internacional que frequenta há uma dúzia anos. As escolas em Banguecoque, tailandesas ou internacionais iniciam as aulas (a grande maioria), às sete, dado ao rigor do clima tropical; encerram às duas e meia da tarde e, com isto os alunos ter tempo para executar as lições para o dia seguinte. Antes de iniciar as minhas funções que começam às nove tenho duas horas para consumir, e não as aproveito, sentando-me a polir o fundo de uma cadeira, num café da Rua da Silom. Vou assim para os meus espaços matinais que são a minha rua e a margem do rio Chao Praiá. Depois de estacionar o carro para lá dos portões que dão acesso ao parque da Antiga Feitoria de Portugal (hoje a Chancelaria da Embaixada), saio, para a rua, com a máquina, de fixar imagens digitais, que não precisa de filme, revelação e, até podem, ser arquivadas na memória do computador, gravadas em CD Rom ou em disquetes, por anos. Percorro a minha rua, a Captain Bush Lane que é, defacto, um mundo poético, e prazer envolver-me na movimentação, humana e observar tudo que por ali passa no começo de mais um dia para milhares de banguecoquianos. A cidade de Banguecoque é dividida em duas partes. O marco é o Rio dos Reis (Chao Praiá, Menam ou Mãe das Águas) onde correm as àguas das terras do Norte e Nordeste da Tailândia e vão desaguar no Golfo da Tailândia. Sobre as águas do Chao Praiá, durante as 24 horas, dos ponteiros do relógio, flutuam canoas, barcos, comboios de barcaças, mergulhadas até ao convés, de grande porte, puxadas por reboques vindos de grandes distâncias, a montante, do rio, em direcção aos armazéns do porto de Banguecoque, onde alijam a carga, composta de produtos da terra ou materiais de construção. A Casa Nobre, um palacete, a residência dos Embaixadores portugueses acreditados na Tailândia e uma peça, finíssima da arquitectura, colonial portuguesa e conhecida na Tailândia por Sino/Portuguesa, está a pouco -mais de 100 metros da margem esquerda do rio. A frontaria da Nobre Casa, ainda com o distintivo da monarquia lusa, as cinco quinas, os sete castelos e a coroa dos Reis de Portugal decorada com ramos verdes e cravos vermelhos. Quando foi construída, depois de meados do século XIX, a circulação e movimentação das gentes; das mercadorias era efectuada pelo Chao Praiá; pelos canais de uma cidade, acabada de surgir entre a densa vegetação, aquática, abertos a braços do homem e dado, assim, nome à nova capital, pelos cronistas, da época, europeus a “Veneza do Oriente”. A capital da Tailândia é, ainda hoje, conhecida por esse nome. A bandeira das quinas, de três panos, já desfraldada ao sabor do vento que lhe é favorável da monção, na ponta do pau, flutua a uns 35 metros da base de cimento. O símbolo da nação, portuguesa, está ali desde 1820 quando Sua Majestade o Rei Rama II, ofereceu a Portugal a larga parcela de terreno para construir Feitoria e estaleiro para reparar ou construir barcos. Bandeira e pau que a suporta, serviu por muitos anos ponto de referência para as pequenas embarcações navegando nos canais, dos pontos mais distantes de Banguecoque para se orientarem em direcção ao rio Chao Praiá. O farol luso da margem do Chao Praiá tem a concorrência das alturas, a poucos metros, de uma torre de vidro que lhe tirou o visual da orientação. Mas continua no mesmo mastro garbosa, a ondular o pano com as cores que identifica o lugar como espaço de português na Tailândia. A “Captain Bush Lane”, a minha rua ( Rua do Capitão Mata), o nome foi uma homenagem ao Almirante John Bush K.C.W.E., que serviu dois Reis, Majestades Maka Mongkut e Chulalongkorn, (Pai da moderna Tailândia), pelo período de 40 anos, como administrador e organizador do Porto Marítimo de Banguecoque desde a metade do século XIX até ao começo do XX. Rua que ainda hoje mantém pedaços da história de um passado. Uma casa sino/portuguesa, desabitada, está em coma há muitos anos, certamente aguarda os golpes implacáveis do camartelo para o lugar histórico, onde foi construída, se erguer uma torre de cimento e vidro. Um pouco mais à frente está a tabuleta da empresa “Louis Leonowens”, filho da Anna Leonowens, professora de inglês da Corte de S.M. o Rei Mongkut (reinou de 1851 a 1868) que escreveu a controversa obra o “Romance no Harem”, que mais tarde viria a ser aproveitada por Hollywood para rodar a grande metragem “O Rei e Eu” e motivo ofensivo ao povo tailandês dado que a história não narra os factos verdadeiros. A destoar o cenário, da minha rua, é a luxuosa ilha de riqueza o Hotel Royal Orchid, famoso é certo, mas não tanto como o, secular, Oriental a um quilómetro a jusante e preferido pela gente, “bonitinha” da “jet” set internacional e, de alguns políticos, impressionistas, portugueses (não revelo nomes), têm uma paixão predilecta, pelo hotel,mais famoso do mundo. O escritor Somerset Maugham, hospedou-se, na sua primeira visita a Banguecoque, no Hotel Oriental, em 1923. Gostou, repetiu por várias vezes e a sua passagem ficou assinalada com uma suite: “Somerset Maugham” No Royal Orchid, há uns anos, foi preso um tal Faria, brasileiro, membro do executivo do Presidente Color que foragido e acossado pela polícia internacional o Faria, incauto, foi meter-se na “boca do lobo”, com uma comitiva de uns 10 assessores e a esposa a ocuparam suites de luxo, nas alturas, do hotel. As tripulações da companhia aérea nacional brasileira, VARIG, hospedavam-se no Orchid para se recompor depois de ter voado longas horas e segundo por aqui se constou teriam sido as vozes denunciantes, do paradeiro do “bom vivante” Faria. O informador do paraíso do brasileiro, teria dito à polícia tailandesa que era um homem perigoso e armado. Pois na altura da sua detenção o Faria não tinha, sequer, um corta unhas para atacar quem fosse. O acusado do crime de peculato, estava, com o seu grupo a viver à larga e à francesa; a gozar o cenário do Rio Chao Praiá. Na altura da detenção, o Faria, saía, depois de uma lauta ceia, do Restaurante Captain Bush que deu o nome à minha rua. Uma pequena viela leva-me ao cais de desembarque. Da banda de Thomburi chegam batelões com estudantes, operários, jovens e muita outra gente, graúda e a arraia-miúda que vai apanhar o comboio á estação ferroviária, centenária, Hula Lumpoon que liga Banguecoque a todos pontos do Reino. Cruzam-se barcos expressos, de passageiros outros de grande porte aproximam-se dos hotéis, da beira rio, para embarcarem turista, e oferecer-lhes uma viagem de sonho de umas três horas até Ayuthaya, com preço acessível a todas as bolsas. (A Tailândia continua a ser a melhor destinação turística, em toda Àsia, para o visitante estrangeiro). Miro o grande o rio, na manhã nublada, sinto por ele uma grande paixão. O Chao Praiá é um pouco já da minha vida. Conheci as margens com casas de tábuas, em cima de estacas de madeira de teca. Hoje nas suas margens há enormes prédios de residências e hotéis de luxo. Turistas aos milhões visitam a Tailândia e o Chao Praiá é uma via aquáticas, obrigatória e desejada a navegar. Rio que recebe as cheias dos outros afluentes do norte e nordeste e alagas a zona ribeirinha das duas margens de Banguecoque. Pessoas habituadas à bênção da àgua que aceita as inundações com o sorriso característico que identifica, o Reino das gentes tailandesas, o País dos Sorriso. A Rua Captain Bush Lane e o rio Chao Praiá são espaços de poesia e pura harmonia. José Martins30.09.2002"