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segunda-feira, 13 de outubro de 2008

EMBAIXADA DE PORTUGAL NA TAILÂNDIA - HISTÓRIAS POR CONTAR

Parte 8
Consulado de Marcelino Rosa
Como se afirmou na parte anterior a gerência do consulado por Marcelino Rosa não foi brilhante, acomodou-se com a comunidade, residente, inglesa e a americana e foi vivendo ao sabor, do passar, do tempo.
Os navios portugueses que tenham navegado para o Sião, apenas se conhece, ter sido o brigue "Feliz Viana", saído de Goa com destino a Macau e Sião.
Uma recomendação do Governo de Goa para o Leal Senado, era o de haver toda a conveniência de se incentivar os comerciantes de Macau de que enviasse um barco, por ano, ao Sião. Tal não viria acontecer e se houve alguma navegação e
permuta de mercadorias teria sido através dos juncos chineses.
De facto o cônsul Marcelino Rosa não poderia fazer mais do que ajustar-se às manobras de Robert Hunter, que nos anos 1833 era o único mercador, europeu, estabelecido, em Banguecoque, sob as graças e protecção do Rei Rama III.
O Hunter era útil à corte pelo facto de ser o elo de ligação, na parte linguística, entre os americanos e ingleses que se expressam na mesma língua.
Bem se pode considerar um novo Constantino Falcão, quando a nova capital do Sião despertava e tinha servido na corte do Rei Narai, como primeiro ministro, em Lopburi, promoveu e foi concretizado o relacionamento com a França, que viria a redondar num fracasso.
O Rei da Tailândia não desconhecia o poder de compra e economia dos países do Ocidente, mas tinha fortes razões para desconfiar da seriedade deles, dado que os franceses, no consulado do Rei Narai, tentaram arrebatar a soberania do Sião e colonizá-lo, na década oitenta do sec. XVII.
Portugal teria sido a aposta certa do Rei Rama II para encetar o relacionamento com as nações estrangeiras e o internediário para lhes vender o que no Sião, de abundância, havia. A tradição de boa vivência que os portugueses tinham construído, por mais de dois séculos e meio, em Ayuthaya; com ausência de problemas políticos e sociais era o suficiente para que o monarca siamês tivesse plena confiança em Portugal. Além do mais a língua portuguesa foi a franca e o meio de comunicação com estrangeiros. Todos os que do Ocidente aportavam os seus navios no rio Chao Prya, tinham por obrigatoriedade de trazer com eles alguém que falasse a língua portuguesa. Marcelino Rosa, que muito bem conheceu Carlos Manuel da Silveira e as dificuldades que se lhe depararam, durante os seus 12 ou 13 anos que assumiu a gerência do consulado, não pretende envolver-se nelas e vai procurar viver da melhor forma que puder e aproveitar-se da oportunidade, do desleixo e o desprezo da hierarquia de Goa, do Leal Senado de Macau pelo Sião.
O Rosa não recebia os montantes que lhe eram necessários de Goa e Macau para o funcionamento do consulado; do serviço de chancelaria, embora houvessem umas poucas "moedas", entradas, de algum assento ou passaporte emitido a portugueses, residentes, em Banguecoque não era o bastante para manter as depesas do consulado. Aquela larga parcela de terreno doada para o fim de ser instalado um estaleiro de construção de navios, instalar uma Feitoria, estava para ali devoluto com uma casa, construída em cima de estacas, ao fundo ao lado direito e a um canto. Os portugueses que ostentavam o poder hieráquico continuavam a viver sob a "calaceirice", na Índia portuguesa e em Macau. Os hábitos e os vícios de um passado, mais ou menos de abastança, mantinha-se absolutamente vivo. A fidalgaria, a chaga de Portugal, que se implantou na Índia seguia num viver de ociosidade à sombra dos galões e dos favores da corte.
Os termos de governação dividiam-se em curtos prazos para dar lugar a outros, para com isto não fossem criados atritos, entre a classe e teria que haver a uma perfeira harmonia onde, entre eles, não havia escrúpulos de roubar o mais que possível da fazenda de el-rei.
Mais em Goa do que em Macau a vaidade era de tal ordem que caminhavam pelas ruas os escravos carregando as senhoras, aos ombros, esposas dos nobres, em liteiras para visitas ou ao Domingo assistirem a cerimónias religiosas na catedral. Atrás mais uma legião de escravas, carregando a "escadinha", a almofada para a dama descer da liteira e um tapete onde a nobre caminharia até à entrada da nave do templo religioso.
Os filhos montando cavalos, galopavam em largas correrias, pelas praças de Goa e às janelas as damas, casadoiras, aos "guinchinhos" a admirarem aquela jovem "pacotilhagem". Mas se aparecesse um português que não era dado a fidalgarias e a "calaceirices" onde dentro de seu ser vivia o sentido "pátrio", a honestidade se levantasse a sua voz seria, de imediato, homem a abater. Assim aconteceu ao Ouvidor Miguel de Arriaga e ao Carlos Manuel da Silveira, que seriam totalmente desprezados e morreram na miséria. Quatro anos depois (1824) de Carlos Manuel da Silveira se instalar em Banguecoqueo o aventureiro inglês Robert Hunter (Roberto Caçador), ganha pé e, em verdade, nada se conhece sobre os seus princípios, de vida mas mais um aventureiro, em procura de riqueza no Oriente. A Inglaterra depois de dominar a Índia expande-se para o Sudeste Asiático, em 1803 já dominava o comércio da Birmânia; senhora do porto de Mergui, do controlo do Estreito de Malaca e do continente malaio; retira Batávia (Indonésia) aos holandeses; o Capitão Cook , e 1770 explora as costas da Austrália e apodera-se dela. Fixam-se em Hong Kong, antes um abrigo de piratas do Mar do Sul da China, sem autorização e assenhoram-se do território, em 1842, pelo tratado de Nankin. A inglaterra é o maior império colonial do Mundo que tinha pertencido aos portugueses. Antes de 1820, em Banguecoque, além dos juncos chineses, as navegações de países, raramente apareciam no Chao Prya. Os siameses, depois de meio século da queda de Ayuthaya, retomaram, na nova capital, o seu tradiconal estilo de vida. Rei Rama III é um monarca de paz e protege os seus súbditos, não permite que estrangeiros, praticamente só chineses que possam adquirir terrenos ou construirem casas em solo firme, mas poderiam faze-lo sobre estacas nas duas margens do rio.
Por isso, vamos encontrar em documentos antigos a autorização, de chineses portugueses/protegidos, estabelecerem-se com jangadas na margem do Chao Prya, com o aval do consulado, para venderem vinho de arroz. Os ingleses depois de toarem conta dos portos comerciais da Índia e do Sudeste Asiático na sua agenda está açambarcarem, igualmente o Sião. Porém não lhes era fácil porque sabiam que a entrada única, viável, na altura para a conquista do território seria, pela saída do golfo do Sião e entrada pela embocadura do rio Chao Prya, vencerem os 20 quilómetros e fácil para os siameses, das margens do rio lhes fazer gorar os intentos. Em 1821 os siameses atacam de surpreza Kedah (Malásia) e derrotam as tropas, sob o comando do filho do Sultão; depois de vencido, foge para Penang, província de Wellesley, dominada pelos ingleses e fica sob a protecção deles. Os siameses a todo o custo desejam capturar o fugitivo, dado que Kedah e Penang, eram territórios que pertenciam ao Sião e os sultões tinham, por obrigatoriedade, de prestar vassalagem ao monarca siamês.
Nova armada siamesa larga do rio Chao Prya e segue para Penang, no propósito de prender o rebelde fugitivo. No porto de Penang está ancorada a fragata de guerra, inglesa, "Nautilus" e o comandante do navio dá ordens aos artilheiros para disparar sobre as embarcações siamesas. Entretanto os siameses em desvantagem com a artilharia naval inglesa retiram-se, navegam mais para o sul e entram no porto de Perak, que lhes pertencia a soberania e dali preparem um ataque a Selangor.
Porém aqui são recebidos com uma calorosa recepção e aconselhados de não seguirem para Ligore. Esta incursão, naval, siamesa viria produzir um certo desconforto perante os ingleses que bem lhes poderia vir prejudicar as transações comerciais da região, nas mãos deles e o controlo absoluto do Estreito de Malaca. Vêm nisto que há necessidade imperativa de encetar relações, diplomáticas com o Sião. Os ingleses levam a cabo o primeiro atento para abertura de negociações, com uma abordagem do coronel, Symes mas, na primeira tentativa, foi mal recebido pelas autoridades siamesas. Os ingleses não pretendem usar a força para penetrar no Sião e em vez desta a diplomacia. O relacionamento, preliminar, foi efectuado por John Crawford, um diplomata colaborador de Stamford Raffles, em Singapura, académico, exprimindo-se na língua malaia e um experimentado conhecedor da Ásia. Em 26 de Março de 1822 está em Paknam, na foz do rio Chao Prya com o naturalista, inglês Finlayson, a bordo do navio "John Adam" , aguardando autorização para navegar até Banguecoque. John Crawford, mais seus acompanhantes, ficam hospedados numa residência, junto à margem do Chao Prya e, estão constantemente, sob vigilância de gente, de confiança, ligada à corte.
As conversações com a corte do Sião são efectuadas em inglês, traduzidas para o português e depois para a língua siamesa por luso descendentes. O cônsul português Carlos Manuel da Silveira, embora não tenha acompanhado John Crawford à corte, ofereceu-lhe seus préstimos com tradudores, convidou-o para visitar o consulado foi dado como uma pessoa diligente, acolhedora e que se expressava na língua inglesa e razoávelmente na francesa. A missão de John Crawford não teve o sucesso esperado, pelo facto de ainda haver o ressentimente das incursões dos siameses a Kedah e a Penang de não estarem esquecidas pelo Rei do Sião. Passado quatro anos a 20 de Junho de 1826 o Capitão Burney, com algum sucesso, consegue o primeiro tratado de comércio e que os cidadãos ingleses poderiam viver no Sião, mas com algumas restrições e teriam de se sujeitar à imposição da lei e costumes do Sião. As sólidas relações diplomáticas entre o Sião e a Inglaterra só viria a ser concretizadas em 1855 com a vinda do Governador de Hong Kong John Bowring, com o Rei Mongkut, Rama IV. Principia uma nova era de progresso para o Sião; a cunhagem de moeda a invasão de súbditos ingleses; Rei Mongkut contrata, estrangeiros de várias nacionalidades e especialistas nas diversas áreas de administração e o Sião avança, sem estagnar para a modernidade. Com os ingleses, como já se disse, chegaram os missionários baptistas americanos que antes de construir as suas próprias instalações, ocupam o terreno do consulado/feitoria de Portugal, cedido pelo cônsul Marcelino Rosa, cujos documentos de autorização da ocupação não existem. Com isto tudo leva a crer que o Rosa ofereceu à sua "bonita" siamesa um pedaço de terreno, junto à margem do rio Chao Prya para construir uma casa. Não conseguiu pagar uma dívida contraída, aos missionários, de 90 dólares que perdeu no jogo e a congregação religiosa não esteve com outras medidas a de lhe tomar o terreno, mesmo sem qualquer documento, porque de facto não existia da parte do Rosa. Os ingleses com o acordo assinado com o Sião necessitavam de construir um consulado e aquele lugar seria o ideal para a chancelaria, junto ao rio Chao Prya e ao porto marítimo da capital. O cônsul Rosa já tinha morrido, embora sepultado a um canto do terreno da Feitoria (mais tarde exumadas as ossadas) já estava silenciada a sua voz e também para dar contas a quem de direito pela sua má gestão do consulado. Nem todas as culpas lhe podem ser atribuídas, mas, o maior quinhão, aos que governavam em Goa e em Macau que não tinham algum interesse em manter o consulado em Banguecoque ou incentivar o comércio entre o Sião e Portugal. Foi o real drama que se instalou entre certa sociedade portuguesa e como o ditado:"Nem lá vou nem faço nada". O drama, depois do cônsul Marcelino Rosa continua.... É que já lá vão 188 anos (1820-2008) e, sem pontinha de dúvida que seja o podemos afirmar, com conhecimento de causa que os progressos da representação diplomática na Tailândia se foram quedando no correr de quase 200 anos sem significado diplomático, cultural ou comercial. Se despertou por poucas vezes outros que se seguiram desprezaram o que foi feito. Uma missão diplomática não pode ser espaço para "calaceirice", vaidades balofas, floreira de rosas mal-cheirosas, mas sim para promover o comércio do pouco ou muito que haja para vender no país da pessoa que o representa. Foi pena que assim tenha sido depois de Portugal ter sido o primeiro país, do Ocidente, a conhecer o Reino do Sião e com o relacionamento, frutuoso, durante 256 anos na velha capital Ayuthaya.
José Martins
Fim da parte 8ª
CONTINUA