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sábado, 11 de outubro de 2008

EMBAIXADA DE PORTUGAL E BANGUECOQUE - HISTÓRIAS POR CONTAR

Parte 7ª
Tratados entre o Sião e países estrangeiros


A 31 de Junho de 1826, foi assinado um tratado de amizade ente o Sião e a Inglaterra; porém esse tratado foi redigido e quatro línguas: siamês, inglês, malaio e português.
A 20 de Março de 1830, foi concluído o primeiro tratado entre os Estados Unidos e o Sião. O representante do Presidente Andrew Jackson e chefe da embaixada americana foi Edmundo Roberts que chegava ao Sião poucos dias antes no navio Peacock, que ia acompando da corveta Enterprise.
Um dos originais desse tratado foi escrito e siamês, e o outro em inglês. Ora, no tratado com a Inglaterra isso não chegava; e agora sucedeu o mesmo, pois os siameses ignoravam o inglês, e os americanos, o siamês, foram-lhe, pois, anexadas uma tradução portuguesa e outra malaia para servir de testemunho ao conteúdo. Edmundo Roberts recebeu dos siameses a alcunha de Emin Rabad (Nobre da América).
Em carta de 17 de Abril de 1833, o cônsul Silveira informava Macau de que ele dera e 15 desse mês um jantar ao Agente Diplomático Americano e ao pessoal da corveta e escuna. Lamentava ver os estranhos utilizarem-se do comércio siamês e nós não. Acrescentava que, se os portugueses quisessem pagar os direitos de 1700 ticais por cada vara siamesa pela largura de qualquer embarcação que levasse carga (e da que não levasse, 1500) medindo-se no meio do seu cumprimento, a toda a hora poderia sonseguir assinar um tratado de comércio.
Edmundo Roberts havia passado por Macau na sua ida para o Sião. Concluído o tratado, regressou aqui no mesmo Peacock e em Macau faleceu e sepultado no Cemitério Protestante.
Segundo o Monsenhor Manuel Teixeira foi colocado um epitáfio escrito em inglês que traduziu para o português: "Restos mortais do cavalheiro Edmundo Roberts, especial diplomata e agente dos Estados Unidos junto de algumas Cortes Asiáticas, o qual faleceu em Macau a 12 de Junho de 1836, na idade de 50 anos.Planeou e executou até ao fim sob instruções do seu governo, tratados de amizade e comércio entre os Estados Unidos e as Cortes de Muscate e do Sião.Erecta à memória do cavalheiro Edmundo Roberts, de Portsmouth New Hampshire, pelos cidadãos dos Estados Unidos residentes em Cantão, 1836".
Roberts faleceu quando se dirigia ao Japão com o fim de assinar um tratado entres os E.U. e essa nação. Como se pode verificar os Estados Unidos um país com pouco mais de meio século, independente, estende os tentáculos à Ásia e Extremo-Oriente em procura da concretização de tratados. Seus enviados, diplomatas, eram transportados em navio e com escolta de vaso de guerra.
Ora o cônsul Carlos Manuel da Silveira, econtrava-se em Banguecoque numa total desamparação que não duvidamos a sofrer a humilhação perante a chegada dos ingleses e dos americanos a Banguecoque com todo aquele aparato naval e com outras condições para firmar tratados que Portugal não tinha.
Dois enviados ingleses ao Sião, Dr. John Crawford (1822) e o Capitão Henry Burney, lidando de perto com Carlos Manuel da Silveira elogiaram-no como cavalheiro de fino trato e os ajudou no encetamento das relações com a Corte do Sião.
O Capitão Burney em carta que endereçou ao seu governo informava que o cônsul Carlos Manuel da Silveira e o Dr. John Crawford o tinham auxiliado em Banguecoque. Depois o Dr. Crawford no diário de sua jornada escreveu o seu diário o reconhecimento ao Sr. Silveira.
Conde do Rio Pardo diz que nomeara, cônsul, Carlos Manuel da Silveira por lhe parecer "inteligente e prudente". O historiador Syamananda, faz-lhe boas referências e uma figura popular no Sião. Mas Silveira teve pela frente as invejas, internas, da ainda pouca comunidade estrangeira, residente, em Banguecoque e ainda as que se movimentavam, contra sua figura e a de Miguel Arriaga, em Goa e Macau que os ia minando.
Foram as características, próprias, dos portugueses, vindas de séculos, onde os mediocres, procuram destruir, dentro da imbecibilidade, os homens com algum valor. A parcela de terreno doada aos portugueses pelo Rei Rama IV produzia muita inveja aos ingleses, e desta, partia o motivo, para que se acendesse a intriga e maledicência em desfavor do cônsul Silveira na corte siamesa. Mas dentro de toda a fama de mal visto o cônsul Silveira, as vozes discordantes, públicas, e cima de sua conduta partiam de umas poucas pessoas:" do Praklang e do historiador Ljungstedt" que bem eram suficientes para que a sua figura fosse mal vista perante os siameses, comunidade portuguesa, chinesa e malaia. Anders Ljungstedt, de nacionalidade sueca, por anos residente e Macau, mercador e historiador foi contemporârio de Silveira, censura-o asperamente sem razão alguma.Afirma que cônsul, português, em 12 anos de permanência no Sião não fez obra alguma a não ser a construção de uma casa para sua própria conveniência. A casa de conveniência não era mais que uma barraca erguida em cima de toros de árvores, com divisões de canas de bambu, barradas com com lama seca e uma varanda, virada para o poente, para que ao fim da tarde, antes que o espaço não fosse invadido de "mosquitada" tomar algum ar fresco vindo da corrente da águas do rio Chao Prya. Bem prova temos do que escrevemos, isto porque, num desenho elaborado, pelo jornalista inglês Fred A.Neale,em 1848 (gerência de Marcelino Rosa), a casa ainda se encontra como Carlos Manuel da Silveira a tinha mandado construir para nela viver e, certamente, com anexos para o pessoal que o servia.
O sucessor Marcelino Rosa, não fez obra nenhuma, durante os 23 anos de cônsul; mas acomodou-se de forma diferente, com a comunidade estrangeira; fazendo amizade com o inglês Robert Hunter e com outros residentes cujo o orgulho de português e homem de acção não lhe permitiu.
Monsenhor Manuel Teixeira interroga: "Construiu algum navio? Concluiu algum tratado?Aumentou a Feitoria? Ou, pelo menos, restaurou a mesma?" E aponta-lhe o dedo incluindo António Frederico Mor, como representantes de Portugal que nada tenham feito a não ser o de cônsul.
Consulado de Marcelino Rosa

A 31.12.1831, o Senado infomou o vice-rei da Índia que é notória a boa inteligência e proibidade, com que se portou o dito Marcelino todo o tempo, em que teve a seu cargo a feitoria portuguesa de Banguecoque. Depois da gerência interina, regressou a Macau, em 1831. Em 16.5.1832 o vice rei de Goa oficiava o Leal Senado de Macau:
"Atendendo as repetidas instancias dirigidas pelo Rey de Siam a este Governo, e ao Leal Senado de Macao, para ser removido do lugar de Consul, e Feitor da Feitoria Portuguesa sita em Bangkok naquelle Reino Carlos Manuel da Silveira, que tem exercido, Hey por bem dar a este por findo, e acabado o dito Lugar; e tendo respeito ás boas informações prestadas pelo dito Leal Senado a favor de Marcelino d´Araujo Roza, que já fora por algum tepo, encarregado dos negocios da dita Feitoria e dera boa conta delles, servindo sem nota, e conciliando a estima, e consideração do dtiro Rey, e seus Ministros", nomeio-o Cônsul e Feitor.

A 15.10.1832, o Senado comunicou a Marcelino esta nomeação de 16.5.1832.

Ao Rei de Sião escreveu o mesmo Vice Rei da Índia, uma carta datada em 30 de Março de 1832; a 12 do mesmo mês recebera pelo brigue Elisa a carta de 5.7.1831, que em nome do Rei lhe escrevera o Ministro dos Negócios Estrangeiros Praklang Chau Phaia Pra, "participando-lhe a conducta que Carlos Manoel da Silveira nomeado pela segunda vez por este Governo da Índia Portugueza nos Domínios de V.Magestade, tinha tido durante o tempo, que ahi exerceu este cargo da primeira vez atrahindo por ella, o que eu ignorava, o reparo, e dezaprovação de V. Magestade, dos seus Ministros, e perdendo a confiança dos Mercadores Siamezes, Portuguezes, Chinezes, e Mouros des Cidade Ayuthia (sic) V.Magestade por essa occazião na intelligencia, que sua demora nesse Reino certamente diminuira a amizade, que felizmente subsiste entre ambas as Nações, e significando-me os seus Reaes Dezejos que para a conservação da mesma amizade convinha mandar o mais breve possível outra pessoa capaz, que fosse encarregado do dito Lugar de Consul Geral, e Feitor e Lugar do dito Carlos Manoel da Silveira, para assim augmentar a dita amizade, e florescer para sempre. Por cuja razão condescendendo inteiramente com a Real Vontade de V.Magestade mando render ao dito Carlos Manoel da Silveira e en seu lugar tenho nomeado Marcelino de Araujo Roza, que por ahi está encarregado da dita Feitoria, e mereceo a Real Estima de V. Magestade e dos seus Ministros; rogo a V.Magestade se sirva por effeito da sua Regia Magnanimidade conceder-lhe a sua protecção, e favor, para que elle possa administrar os negocios da dita Feitoria em utilidade reciproca de ambas as Nações Portugueza e Siameza".
Acrescentada o V.Rei da Índia que o Rei do Sião continuasse a considerar Portugal como a nação mais favorecida.
A 6 de Maio de 1833, D.Manuel de Portugal e Castro, Governador da Índia acusava a recepção do ofício n.º 11, de Dezembro de 1832, em que o Senado lhe participava que Marcelino de Araújo Rosa, nomeado em 16.5.1832 cônsul da Feitoria Portuguesa do Sião, ficava de partir para o seu destino no brigue S.Francisco Xavier, e que com ele iria a guarda militar para render a outra, que ali estava, bem como os presentes para os magnates; este brigue só partiu a 15.2.1833, aportando em Bangkok a 4 de Maio. (Demorou a viagem de Macau a Banguecoque 71 dias).
Marcelino Rosa escreveu três cartas ao Senado a dar conta do que se passou após a sua chegada: uma de 15 de Maio e duas de 1 de Junho de 1833; remeteu outra do 1.º ministro do Rei do Sião com a lista dos presentes; e ainda a conta da venda dos presentes do Rei e do Praklang; e, finalmente 2 caixotes com cartas do Rei do Sião para o Vice Rei da Índia; tudo isto chegou a Macau no brigue S.Francisco Xavier que o levara a Bangkok. O Senado todas as cartas ao Vice Rei da Índia pelo navio Feliz Viana. A 18.4.1834, o Governador da Índia escrevia ao Leal Senado:
"Vi o que esse Leal Senado e escreveo em o seu officio documentado N.º 9 relativamente aos negocios de Siam, e correspondencia do novo Consul Geral Marcelino de Araujo Rosa, na qual se por huma parte observo os vivos desejos que o Rei, e Ministro daquelle reino mostrão de renovar as antigas relações commerciais com os portuguezes no mesmo pé das mais favorecidas Nações, por outra parte noto também o justo reparo do mesmo Soberano sobre a total falta de Navios da nossa Nação nos seus Portos, para gozarem das vantagens já concedidas, e de outras prometidas. Confio que esse Leal Senado prestará toda a atenção que pede a importancia deste assumpto, e as vivas recomendações da nossa Corte para se restabelecerem as ditas relações,persuadindo os Negociantes proprietários dos Navios dessa Praça a que dirijão as suas especulações para os mencionados Portos a fim de que não venham a perder o estabelecimento de huma Feitoria, que com tanto custo, o incommodo se tem conseguido, havendo por muito recommendado a esse Leal Senado que faça todo o esforço para que alguma embarcação dessa Praça vá commerciar a Bangkok coo muito deseja o referido Rei e seu inistro, tomando-se na devida consideração tudo quanto a este respeito te escrpto a este superior Governo, e a esse Leal Senado a actual consul Marcellino de Araujo Rosa"
A 24 de Abril de 1834, o Vice Rei da Índia deu autorização ao Senado para, juntamente com o Governador e o Ouvidor poder declarar livres de direitos no porto de Macau os navios portugueses vindos da Conchinchina,Cambodja e Sião. No mesmo ano e a 23 de Dezembro, o Senado solicitava ao Vice Rei da Índia permissão para que fosse adiada a execução da isenção de direitos. Não se tem conhecimento de resposta do Vice Rei.
Porém a 5 de Fevereiro de 1836, o Senado escrevia um ofício ao Governo de Goa sobre a inutilidade da feitoria de Banguecoque, as despesas que tinha de fazer com ela e ainda os subsídios anuais de Timor e Solor, declarando que ia prevenir esses dois estabelecimentos que de futuro não os ajudaria mais.
Em 9 de Maio de 1836, o Governador da Índia respondeu que não poderia fazer alteração algumas sem o consentimento régio. Entretanto o jornal de Macau "O Macaísta Imparcial" publicava: "Por cartas particulares do Consul Portuguez em Siam, datadas de 28 de Fevereiro e 16 de Março deste ano (1836) sabemos que a Feitoria Portugueza continuava frequentada de Estrangeiros; rende alguma couza, e a casa de rezidencia do Consul nunca esteve em melhor estado. Hum junco por nome "Emprehendedor" partio de Bangkok para Singapura com uma nova especulação, levando a bandeira Portugueza; o Consul accrescenta que esta embarcação he a primeira que sahio de lá com a bandeira Consituicional da Rainha".
Pela morte de Marcelino de Araújo Rosa, ficou encarregado do consulado, o secretário do mesmo, Joaquim Maximiano da Silva, que o geriu de 22 de Julho de 1852 a 22 de Março a 1855. Pouco antes da saída de Marcelino Rosa, vítima de um acidente em que morre afogado no rio Chao Prya, não muito distante da embaixada, faleceu o Rei Rama III do Sião e o princípio de uma nova era para o Reino com entronização do Rei Mongkut, Rama IV .
Nossas considerações relacionadas com a gerência do Consulado por Marcelino de Araújo Rosa: Foi absolutamente desastrosa para o relacionamento de Portugal e o Sião.
Consultamos a obra "Relações entre Macau e Sião" e apenas fomos encontrar um expediente de 18 ofícios recebidos e expedidos, em 22 anos, da gerência do Marcelino Rosa e poucas comunicações falam de incrementar o comércio entre Macau e o Sião, mas assuntos, relativos ao funcionamento e, falta de verba para o pagamento de ordenados.
Uma Portaria de 7 de Abril de 1845, do Ministério da Marinha e do Ultramar, dirigida ao Governador de Macau, a pedir-lhe informações acerca da Feitoria de Portugal no Sião, devido a uma Nota recebida do Leal Senado, em que era considerada desnecessária a conservação, da mesma, devido à supressão absoluta das relações comerciais com o dito reino.
Os esforços de Miguel de Arriaga e Carlos Manuel da Silveira, para enaltecer Portugal no Sião, mesmo lutando contra a intriga e a inveja dos estrangeiros que começavam a descobrir o Sião como uma "mina de ouro". Enquanto o cônsul Silveira nunca grangeou ou se acomodou com as simpatias de Roberts Hunter (o homem que dominava todo o comércio internacional) e com outros, muitos dos quais aventureiros em procurado "el dourado" na Ásia, o Rosa criou amigos, de outras nações e deixou-se corromper por eles.
Porém quem vem colocar tudo a limpo e a descobrir os actos ilícitos e corruptivos do Rosa, foi o jornalista/escritor inglês Fred A. Neale, que produziu um desenho do terreno do consulado de Portugal em Banguecoque, com uma enorme construção que é mais nem menos que a Missão Americana dos Baptistas.
A casa do cônsul, do pessoal que o servia é precisamente uma pequena, no lado direito da imagem e nas proximidades de uma árvore tamarindeira, que hoje, se encontra no mesmo local.
Com tudo isto nos leva a uma conclusão que parte parcela do terreno foi oferecida, pelo Rosa, à sua "bonita" namorada siamesa, onde lhe foi construída casa e, com isto, a rapariga se quedasse mais à mão do seu amor "platónico".
Não há documentos em arquivos, conhecidos, se refiram a essa construção ou autorização, de Goa ou de Macau, para o arrendamento do terreno onde lhe foi levantada.
Fred Neale salvou a história com o desenho!
Não conhecemos nenhum historiador, português, se tenha referido ao livro de Fred Neale "Residence in Siam at the Capital of the Kingdom of the Siam", editado em 1850, que adquirimos, há 30 anos, na livraria "Ásia Books", na "Sukhumvit Road", quando ainda para além das bermas, da larga e mais comprida avenida da Tailândia (ligando à estância balnear de Pathaya, cerca de 16o quilómetros) havia quintais com verdura e coqueiros.
O livro de Fred Neale, foi o primeiro que comprei, relativo à história da era de Banguecoque e que entre os milhares de livros que a minha biblioteca particular, comporta, tem aposto o número um.
Foi esta Obra a nossa inspiração e o prazer que nos dá em escrever sobre a história do relacionamento de Portugal com a Tailândia.
José Martins
Fim da parte 7.ª
CONTINUA

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

EMBAIXADA DE PORTUGAL EM BANGUECOQUE - HISTÓRIAS POR CONTAR

Parte 6ª
Silveira novamente nomeado cônsul
Vamos continuar a ter como guião, na narração do texto dos factos, os escritos de Capitão de Artelharia Jacinto do Nascimento Moura. Foi de estranhar que Carlos Manuel da Silveira pretendesse voltar novamente ao Sião. Pensamos e não deveremos estar equivocados que o teria feito para dignificar a sua imagem que tão arruinada ficou em Banguecoque, onde passou muito mal e vergonhas de estar por ali abandonado, juntamente com o pessoal que tinha chegado de Goa. Deveria, depois de saído de Banguecoque, ter colocado as coisas em "pratos limpos" perante o vice-rei da Ìndia. O diploma da sua nomeação reza: " Faço saber a vossa majestade que Carlos Manuel da Silveira, que, no ano de 1820, foi mandado a essa corte, regressou próximamente a esta capital Goa, e, tanto por êle, como pelo Leal Senado da cidade de Nome de Deus de Macau, fui sabedor de que vossa majestade acolhera benignamente ao comissário Miguel de Araújo Rosa que fõra mandado a essa côrte pelo Leal Senado, para congratular a vossa majestade pela sua feliz exaltação ao trono so Sião, para acabar quaisquer contas do conselheiro Miguel de Arriaga Brum Silveira, do dito cônsul e do seu escrivão Cipriano José Baptista, e para continuar a mesma amizade entre as duas nações, portuguesa e siâmica. E como estou informado dos seus reais desejos de que se renovem as antigas relações de amizade e comércio entre ambas as nações e sabendo por outra parte que a pessoa do dito Carlos Manuel da Silveira é grata a vossa majestade, tomo a deliberação de o enviar outra vez aos reais pés de vossa majestade com o mesmo carácter de cônsul e feitor que já teve nessa corte. Permita-me vossa majestade lembrar-lhe que o magnífico rei do Sião seu predecessor foi servido declarar que todos os vassalos portugueses, que fôssem negociar nesse reino seriam melhor tratados, que os das outras nações. Conviria muito quando fosse da soberana vontade de vossa majestade se concluisse o tratado prliminar que aí foi apresentado a vossa majetade em 1820. O mesmo Silveira porá aos pés de vossa majestade um pequeno presente de alguns artigos que tomo a liberdade de lhe oferecer".
A Silveira foram-lhe entregues instruções reservadas que se passam a transcrever resumidas:

"Para se levarem a seu devido efeito e cumprimento as reais ordens de el-rei nosso senhor de 30 de Abril de 1829, foi determinado ao Leal Senado de Macau, e a êste governo que se conservasse, e se não abandonasse a Feitoria do reino do Sião, pelo que nomeei a V.Exa., por portaria de 14 do corrente, geral e feitor da nação portuguesa. Recomenda-se por isso que se não deverá envolver em assuntos políticos naquele reino, devendo considerar a sua comissão restrita unicamente a promover as relações de comércio e navegação que nos forem possíveis na Ásia, pois a que por ora mais nos importa e não perder os pontos que possuímos e que hoje conservados podem segurar para futuro, talvez não muito distante, um amplo à nossa actividade e indústria, e sobretudo aos nossos sucessos livres oscilações que nos têm perturbado, sendo certo que uma das causas da nossa decadência na Ásia vem da incúria e culpável abandono em que temos deixado os nossos gloriosos frutos do esfôrço, e espírito empreendedor dos nossos Maiores. Solicitava toda as vantagens e aproveitará da inclinação que o presente rei mostra aos portugueses, favorável impressão que há-de ter deixado no seu ânimo e pagamento que êste govêrno lhe mandou fazer das cinco mil e tantas patacas que há anos lhe ficara devendo o defunto conselheiro Miguel Arriaga pagamento com que parece ele já não contava. Tornará seguros e estáveis os direitos das pessoas, propriedades e neutralidade dos vassalos portugueses que fôssem comerciar e navegar ao Sião. Aproveitará a indicação que o príncipe Cromachel manda a participar de que os portugueses pagariam somente 6% de direitos de importação ao contrário do que pagavam as mais nações. Que os soldados e inferior que deve ser pagos pela Real Caixa daquela cidade recebendo ali um ano de adiantamento". Ao Leal Senado escreveu o vice-rei da Índia para que adiantasse ao cônsul e ao seu escrivão mil taeis, pagamento dos seus respectivos ordenados e das despesas da Feitoria e sôldo do inferior e soldados que o cônsul devia levar de Macau para o que também na mesma ocasião dava ordem ao governador de Macau e Leal Senado para que cada um pela sua parte lhe proporcionasse, ao cônsul, escrivão e guarda, os meios de se transportarem para Bangkok permitindo ainda que o mesmo Leal Senado lhes pudesse aumentar os ordenados se assim o julgasse conveniente. Carlos Manuel da Silveira foi a Macau. Ali talvez de propósito demoraram-no e contrariaram-no por várias formas especialmente não lhe aumentando os vencimentos, como havido sido indicado anteriormente nas citadas instruções do govêrno de Goa. Por fim o Leal Senado adiantou o pagamento de um ano, tanto para o cônsul como a sua comitiva na importância de 1.400 taeis, e deu-lhe em adiantamento umas instruções referentes aos interesses de Macau. Carlos Manuel da Silveira seguiu, por fim, no brigue Feliz com a sua comitiva e guarda, sendo-lhe entregue a gerência da Feitoria, pelo cônsul interino, Marcelino de Araújo Rosa, em 19 de Abril de 1831.
Carlos Manuel da Silveira é mal recebido no Sião e substituído por Marcelino Rosa
Não existe barco português que lance a âncora no porto de Banguecoque e isto não agrada ao governo Siamês. O Praklang (primeiro-ministro) a pessoa ligada ao Rei considera que é inútel levar-se a efeito o tratado preliminar e "que o rei poderia considerá-lo como brincadeira". Silveira, de certo modo ofendido apresentou, ao Praklang, as razões da falta de navegação e que a ele, de forma alguma, se lhe poderia atribuir a culpabilização. O Praklang respondeu a Silveira e informa-o que o rei já havia escrito uma carta ao vice-rei da Índia, dizendo que não consentia tal cônsul no seu país mais que um ano (1). Houve uma natural indignação do cônsul português Silveira e levou-o a pedir ao Praklang uma justificação pública de tal procedimento indicando-se " o distúrbio ou mal que havia causado áquele reino ou a seguir uma pessoa". Comunicado o facto ao Leal Senado de Macau, pediu a Silveira que quando escrevesse ao rei do Sião se lhe "não solicitasse desculpas para o cônsul ou relevasse alguma falta, mas que o Senado exigisse uma miúda declaração das suas faltas, para que êle respondesse por elas". Isto parece provar que o cônsul não receava que lhe imputassem faltas. Vejamos, porém, quais os motivos que provavelmente originaram tal má-vontade para com Carlos Manuel da Silveira. No modo de ver dêste, pretendia-se que êle fosse substituído por um outro cônsul, "facto de todos os conhecimentos e que não soubesse fazer a sua obrigação, para o Sião judiar dêle", e ainda atribuia tal atitude aos presentes que havia levado, "que não eram próprios do decoro do rei daquele país". Nas costas do cônsul Silveira a intriga e as manobras do inglês Robert Hunter estava a produzir efeito, isto porque tornara-se um comerciante famoso no Sudeste Asiático, onde todos os barcos de países ou ainda colónias de expressão de língua inglesa tinha por obrigatoridade de contactar o Hunter. Homem de poucos escrúpulos e ambicioso em tudo que fossem negócios e daí lhe viesse dinheiro, assim tinha acontecido quando na província de Samut Songkran encontrou, dois irmãos siameses, a nadar num rio e desde logo ali lhe veio à mente uma forma de fazer lucros, negociando-os, para que fossem mostrados ao público da Europa e América. O Hunter estava, demasiadaente introduzido na corte com uma influência mais vantajosa que de qualquer outro representante português no Sião. Ali imperavam os negócios e o Hunter realizava-os e o Sião pretendia exportar o muito que produzia. Com isto o inglês/escocês, com outros seus compatriotas promoveram a desconfiança para com o cônsul Silveira e o amesquinhamento dos portugueses, indo oferecer ao rei e ao ministro, no mesmo dia que Silveira, lindos presentes que valiam 4.000 taeis, "de modo a deixarem quási impercetíveis os nossos". Segundo o Capitão Jacinto Moura: "Esboçava-se então o predomínio inglês no Extermo-Oriente. As tentativas do marquês de Wellesley e a do almirante Drury de tomar Macau, sob o habilidoso pretexto de defenderem aquela nossa colónia de um ataque dos franceses, haviam falhado. Cantão oferecia um constante perigo, além de ameaçar a saúde dos europeus que ali habitava, forçando-os a deixar as suas famílias em Macau. Originaram-se então, ali, neste primeiro quartel do século passado, atritos e más vontades entre os ingleses e portugueses, os quais nem pelo facto da secular aliança política entre Portugal e a Inglaterra, se conseguiu dissipar. Macau ainda representava um valor económico importante no comércio asiático (2) que só se perdeu alguns anos após a fundação de Hong Kong. A Inglaterra disputava-nos a influência comercial nos portos onde o nosso nome ainda tinha algum prestígio e valia. Numa pertinácia própria dos anglo.saxónicos, numa força de vontade que lhes é própria, aliadas estas qualidades a uma previsão que nós não possuímos, os ingleses foram nos arrebatando, muito ociosamente, por toda a parte, o prestígio e o lucro do negócio. O Sião era um país que, ao passo que possuia riquezas grandes, não oferecia grande segurança ao comércio estrangeiro e defendia-se dos que pudessem absorvê-lo politicamente, conseguindo assim viver até nossos dias sem ser tutelado ou parcelado por potência alguma europeia, bem se podendo disso orgulhar e constituir, com Japão os únicos exemplo de países completamente independentes no Extremo-Oriente. Só Portugal tinha um território seu consulado o que era objecto de invejas e servia de incitamento a pressões sôbre o govêrno siamês, às quais êle ia resistindo, as que mais fácilmente seriam contidas com a supressão da feitoria concedida a Portugal.Dêste modo se advinha, claramente, a vontade do Praklang em promover uma ofensa a Portugal, na pessoa do cônsul, que por infelicidade nossa não tinha uma renumeração condigna nem tão pouco o prestígio para poder influir junto dos portugueses, que nesse tempo dirigiam a actividade política e comercial do abandonado Oriente, mal se podendo manter ali com a dignidade para o seu cargo e lucro para o seu país. Fossem, porém, quais fôssem os motivos o certo é que Silveira, que havia retomado o seu cargo em 19 de Abril de 1831, foi forçado a abandoná-lo em 1 de Abril de 1833, sendo substituido por Marcelino de Araújo Rosa, que se achava como escrivão e que a seu pedido tomou posse do cargo de cônsul em 18 de aio de 1833. Não tinha, porém, decorrido um ano para que êste último sentisse a falta de continuidade de pensamento político dos que investiram em tal cargo, vendo-se forçado a informar o Leal Senado de que se encontrava "exausto do necessário e até de alguns trastes e moedas de ouro que tinha para sua sustentação e a dos soldados, por falta de vencimentos que lhes não haviam sido enviados", e a recordar "que estava servindo em lugar remoto e num país onde não há remessas e a pobreza é odiosa, o que não podia deixar de ser de tristes consequências para o cônsul e ais empregados do estabelecimento"
(1) ÊSte facto tem sido comentado por alguns escritores estrangeiros com desfavor para Portugal, razão essa porque entendeu-se dever apreciá-lo com certo desenvolviento. Em carta para o Leal Senado, descrevia o vergonhoso estado dos objectos enviados, de presente, os quais estiveram para ser devolvidos. (2) Anos depois, e 1866, ainda o pôrto de Macau foi frequentado por 238 navios com uma tonelagem de 58.543, não incluindo os da carreira entre Macau e hong Kong.
Inquéritos em Macau a Arriaga e a Silveira
Como vimos, o Leal Senado de Macau não cumpria com o encargo de sustentar a Feitoria. Goa, que por vezes a amparava atribuia a Macau essa principal função. A Metrópole esquecida ou entretida com os problemas internos e com os caprichos da sua aristocrática côrte, deixava perder-se na memória dos tempos, já longinquos, o renome e poderio que outrora no Sião disfrutaram os portugueses. Albuquerque e Miguel de Arriaga já se haviam sumido no estreito coval onde com êle se afundaram os seus sonhos de patriotas e visionários. De resto a ideia da Feitoria fizera aparecer muitos "Restelos" em Macau os quais não só não lhes compreendiam a existência como atacava o seu criador. Daí resultou o negar-se ao cônsul o pagamento dos seus honorários, e por modos se procurar destrui-la. Por carta de Arriaga para Silveira se pode ser como tinha sido compreendida tal iniciativa. em tal carta censurava Arriaga os "míseres rivais", que todo criticam, dizendo: "Abrir o comércio, estabelecer Feitoria, alcançar terreno próprio para casas, permissão de construir navios e algum favor aos direitos, que mais pode querer-se?" "A seu tempo verão os incrédulos..." E a seguir: " As perturbações pela expedição a Timor e Sião era dirigidas mesmo de Malaca por Fr. Paulo que as iniciara em Macau". E lamentando-se por não poder dar a Silveira a "devida recompensa e apresentar-lhe o seu apreço", terminava exortando a "cuidar sobretudo em anter o decóro nacional, dê por onde der..." e dizendo: "continui com o mesmo zêlo que é a Sua Majestade que servimos". Tendo silveira requerido em Macau o pagamento dos seus vencimentos, não efectuados durante a sua estada da última vez no Sião, foram mandados realizar inquéritos, que terminavam por reconhecer que o "desvio do retorno" enegrecia a memória do conselheiro Arriaga e de algum modo também a do cônsul como instrumento. É longa e emaranhada a questão da responsabilidade de Silveira pela quantia de 3.000 taeis em que o Leal Senado ficou prejudicado. A verdade é que Arriaga morreu pobre, concedendo o govêrno uma pensão à família, e que Silveira chegou à mais desesperada situação e ao último apuro por falta de meios de subsistência, achando-se em Macau a morrer de fome, como declarava, depois de ter envelhecido prestando honrada e zelosamente serviço ao govêrno durante 15 anos, e não só não tendo sido renumerado como abandonado indignamente aos desvarios da sorte.
José Martins
Fim da 6ª parte
CONTINUA

terça-feira, 7 de outubro de 2008

EMBAIXADA DE PORTUGAL EM BANGUECOQUE - HISTÓRIAS POR CONTAR

Parte 5ª
A FEITORIA

Vamos transcrever a Feitoria de Portugal tal como a descreveu o Capitão de Artelharia Jacinto José do Nascimento Moura nos anos (calculamos) de 1929 numa sua passagem por Banguecoque cujos textos foram publicados no "Boletim da Agência Geral da Colónias", nº 70 de Abril de 1931.
A Feitoria está situada num terreno baixo, a 13º 42´30´de latitude N. e 109º 50´30´ de longitude ao Oriente de Lisboa, na margem esquerda do rio Menam e a 25 milhas da barra de Bangkok. O terreno da Feitoria, na posse do consulado, que anteriormente à cedência a Portugal fôra ocupado por um príncipe anamita, confronta a Oeste com o rio "Menam Chao Phya": a Norte com um caminho público estreito que o separa de outros terrenos e habitações particulares: a leste com o caminho público ou rua "Bush Lane": ao Sul com o riacho "Klong Bang Rak", que separa a Feitoria da Central dos Correios e Telégrafo franceses, onde se encontrava outrora instalada a legação legação de Inglaterra.
A Feitoria tem actualmente de comprimento Norte-Sul à margem do rio Menam 113, 61 metros e lo lado oposto interior, 121,61 metros. De largura de Leste a Oeste, 87,78 metros. Norte do terreno, e 106 metros quadrados. Todo o terreno está dividido em quatro lotes.
A contar do riacho. O consulado encontra-se no segundo lote. Em todos os lotes há casas e armazéns, construídos pelos antigos inquilinos, hoje pertencentes ao consulado. Pelas informações prestadas pelo actual cônsul, tanto o consulado, como os armazéns estão em mau estado. Um ponto tem sido objecto de referências desfavoráveis para o cônsul Marcelno Rosa e desejo pôr em evidência. São as dimensões da Feitoria.Diz-se que este cônsul ofereceu uma parte ( a metade, supõe-se), do terreno a uma linda siamesa, a qual, para pagar uma dívida ao jôgo, hipotecou aquele terreno po 99 dólares mexicanos à missão americana dos Baptistas. Como a missão não fôsse reembolsada da importância emprestada ficou com o terreno. Embora não haja documentos que provem este facto, há tradição entre os siameses, que contam isso, e um velho missionário americano de nome L. Schmidt, que conheceu Marcelino Rosa, e que em Bangkok residiu por muitos anos, narrava várias vezes o facto, dizendo que se tinha passado com ele. Parece-me que tal facto se verifica comparando as dimensões do terreno apontadas na carta dirigida pelo primeiro ministro do Sião ao vice-rei da Índia, com a data de 9 de Novembro de 1820, atrás publicada, e as do que hoje está na posse do consulado. Calculando as 72 e 50 braças siamesas ali indicadas a 6,5 pés cada, e sendo cada pé 0,304, temos respectivamente de dimensões 142,272 num sentido e 98,80 metros noutro, o que é evidentemente diferente das que a actual Feitoria tém. Examinando-se o acto de posse do cônsul Carlos Manuel da Silveira, verifica-se que o terreno era dividido em duas partes quási iguais, separadas por uma pequena angra, sôbre a qual havia uma ponte.Esta angra deve ser sinónimo de riacho. como existe nas delimitações da actual Feitoria um riacho que a Sul a separa da Central dos Correios e Telégrafo, onde se achava a legação de Inglaterra, é naturalissimo que o terreno, que foi ocupado por esta legação, tivesse sido o que pertenceu à Feitoria. Aos investigadores e curiosos fica apontado este assunto (1) que se me afigura de algum interesse histórico e ainda que mais não seja, para perpétua condenação de um funcionário menos digno que o caso ou favor levou a tão melindroso posto no estrangeiro, que não soube honrar.
O Cônsul Silveira é substituído por Miguel Rosa
O cônsul Silveira ia-se malquistando no Sião, não apenas pelas irregularidades que, porventura cometesse, mas por intrigas de estrangeiros e má vontade (2) do Praklang. Em 1829 a situação do cônsul era tal que o Senado de Macau houve por bem mandá-lo retirar, enviando no brigue "Esperança" o morador Miguel Araújo Rosa para o substituir. Silveira dirigiu-se a Goa e Miguel Araujo Rosa pouco tempo se demorou no consulado, fasendo-se substituir por seu filho Marcelino de
Araujo Rosa, que o havia acompanhado. Pelo exame que temos vindo a fazendo acêrca da personalidade do primeiro cônsul do Sião, evitámos em classificá-lo, devido à situação de abandono a que vimos foi relegado o consulado quer por Macau, que por Goa, quer ainda pela Metrópole que nada resolviam quanto à parte importante da sua sustentação, entretidos todos mais nas lutas internas do que no prestígio do nome português no estrangeiro. Seria ele de facto, um dêsses indivíduos imorais a quem por incúria na selecção, ou falta de rigor na punição, esteve confiada a representação de Portugal num país distante, ou seria pelo contrário, por ilógico que isso pareça, um patriota devotado ao seu país acolmado de relaxo?
Não têm sido raros os exemplos que a História nos regista de factos dessa natureza. Os mais dignos filhos de Portugal têm sofrido da injustiça dos seus concidadãos.
Não foi Camões, o cantor imortal das nossas glórias, de Macau a Goa a dar conta dos espólios; e Albuquerque o aguerrido conquistador e o criador do Império Oriental Português, acusado por dever ao tesouro e por fim de morto pela inveja e pela ingratidão de quem o devia admirar e galardoar?
Se o Oriente foi a nossa ruína como o disse Oliveira Martins, aliás exagerado no seu conceito, devemos confessar que ela se deve mais aos nossos dissídios caseiros, do que à insuficiência dos meios para arcarmos com a obra que inicialmente nos propusemos ali realizar.
Haverá, pois, também que filiar a má reputação de Silveira no campo vasto da ingratidão e injustiças humanas. mas quem poderia invejar um cargo de cônsul sem receitas, com fracos honorários e tardiamente ou nunca pagos?
(1) Creio não seria agora difícil averiguar este facto nos arquivos da Missão Americana dos Baptistas ou mesmo na Legação de Inglaterra. Apesar de não nos termos poupado a longos trabalhos para fazer esta resumida notícia, não pudemos ir mais além.
(2) Pelos conselhos prestados por Silveira ao seu sucessor Rosa se vê que alguma coisa deve ter haviso de má vontade do Praklang que tivesse concorrido para o mau conceito em que as autoridades siamesas tinham o cônsul Silveira.
Assim dizia este seu sucessor Rosa.
"Se os negociantes de Macau tomassem peito a convencer este Rei de que a dificuldade de virem navios era tão sómente por não haver um tratado, que estipule com estabilidade a redução de direitos e franqueza de comércio, deveriam associar-se os mais poderosos entre eles e mandarem um navio de 200 a 300 toneladas tão sómente destinado a comerciar em Bangkok, e então veriam o que resolveria o mesmo Rei e o seu Praklang fazendo o cônsul a êsse tempo persuadi-los (ao Rei e Praklang) que com efeito os negociantes de Macau mandaram este navio estando animados a fazer frequentar o pôrto de Bangkok, visto que Sua Majestade prometeu redução de direitos e liberdade de comércio como convém; então não sei que desculpa poderá produzir o Rei e o seu orgáo, o Praklang; ainda que o resultado não fosse o deejado, a perda não seria demasiada aos interêsses do navio porque, carregado com géneros dêste país à custa deles, não deixarão de salvar as despesas". (1) referindo-se a Silveira disse um seu contemporâneo Miguel Rosa, que ele possuia "génio altivo e governativo, e ao mesmo tempo que possuía qualidades de trabalhador e de tal modo que pôde fazer chegar os seus clamores aos pés do trono".
Nota nossa: O cônsul Carlos Manuel da Silveira, pelo que já temos lido e escrito em cima da sua obra e personalidade era a pessoa certa para ocupar, a posição de o primeiro cônsul de Portugal no Reino do Sião. O Conselheiro Miguel de Arriaga, tinha o Carlos Manuel da Silveira como um homem de sua confiança e, até, pertencia a sua família, encarregou-o para representar a coroa portuguesa junto à coroa do Sião.
Miguel de Arriaga nasceu em Macau, filho de José de Arriaga Brum da Silveira, natural do Faial, Horta, Açores que teria vindo para Macau em comissão de serviço do Estado. O nome de Miguel de Arriaga ficou imortalizado em Macau depois de sua morte e a justiça foi-lhe feita! Uma avenida que não há residente de Macau não conheça: "Avenida do Ouvidor Arriaga"...
Pertencia a uma família ilustre açoriana e, mais tarde, Manuel José de Arriaga Brum da Silveira e Peyrelongue viria a ser o primeiro presidente da República Portuguesa.
Porém na Ásia e Oriente português (que assim se pode considerar), a intriga, a inveja, o oportunismo foram factos da vida dos portugueses que nunca se conseguiram livrar.
Merece um estudo profundo dos entendidos nesta matéria porque teria sido que tal coisa sucedia (principalmente na Índia portuguesa) que em vez dos portugueses enaltecerem Portugal (como sempre o fizeram os ingleses nas possessões que colonizaram) ocupavam-se, os mediocres, a fabricarem, habilidosamente, a intriga cuja a finalidade era destruir o português que vivia a seu lado e ocupar o seu lugar.
Nós com 24 anos anos na Embaixada de Portugal, em Banguecoque, tivemos por algumas vezes de nos enfrentarmos com a fabricação da intrigas, com a difamação; com a incompetência; com a indolência e até, infelizmente, com acções (ver e calá-las) pouco honestas praticadas pelo "poder" ou os acólitos, funcionários, que até servem, o poder, como "pontas de lança" e deles se servirem se porventura forem chamados à responsabilidade e faze-los "bodes expiatórios", para sacudirem a água da "casaca" .
Tudo contribuiu para ruir a presença de Portugal na Ásia e Oriente, que voltou num velho trópego a finar-se e não tarda.
José Martins
Fim da quinta parte
CONTINUA

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

EMBAIXADA DE PORTUGAL EM BANGUECOQUE - HISTÓRIAS POR CONTAR

Parte 4ª
Carlos Manuel da Silveira mesmo experimentanto todas as dificuldades e penúrias de vivência não pretende abandonar a Feitoria. Obedecia ao seu Rei D.João VI quem tinha aprovado a Representação de Portugal no Sião e rebelde ao vice-rei da Índia.
A fuga da Família Real Portuguesa para o Brasil, fez criar "reizinhos" em Goa e em Macau.
Brasil estava distante e com vários meses para que a correspondência da Índia ou de Macau chegasse à corte instalada no Rio de Janeiro. Em 8 de Abril de 1824, o vice-rei D. Manuel da Câmara de Goa escrevia ao Senado de Macau e, agora, a favor da Feitoria e dos seus funcionários. Afirmava nessa carta que Carlos Manuel da Silveira teve conhecimento da extensão da Feitoria; lhe tinha dirigido vários ofícios informando-o que ele e o seu Escrivão se encontravam em Banguecoque:

" Que ele e o seu Escrivão se conservarão ali em todo o abandono, e desprezo, e na maior penúria, sem poderem dali sair com decência, e sem comprometer o decoro e a dignidade de Nação, achando-se nas circunstâncias de serem reduzidos a huma dura escravidão, por não terem com que satisfazer as dívidas, que tem contrahido para sua subsistência".
E acrescentava que a Feitoria poderia ter alguma utilidade para Macau, que Miguel de Arriaga delibere com o Senado se convém:

"Que a Feitoria seja abolida, e inteiramente abandonada ou que continue n´outro differente pé"
Outra carta do vice-rei da Índia datada em 18 de Abril de 1824, D.Manuel da Câmara dirigida ao Miguel de Arriaga remetendo-lhe uma cópia de ofício que escrevera ao Senado sobre o Cônsul do Sião, Carlos Manuel da Silveira e a Feitoria portuguesa estabelecida em Banguecoque. Solicitava-lhe que tratasse com o Rei ou o Ministro:
"Para que aquelle Cônsul saia dalli com a decência que convêm ao carácter de que estava revestido........ e se tomarem aquellas medidas que se julgarem ahi mais cabentes para se não abandonarem inteiramente as nossas relações comerciais com aquelle Reino em benefício dessa Cidade".

Porém dois anos antes em 15 de Setembro de 1822, sem ainda o vice-rei da Índia,ter conhecimento, Miguel de Arriaga tinha sido preso em Macau pelo governo liberal; mas conseguiu fugir para Cantão do navio que o levaria como deportado para Lisboa. Em 1823 voltou do exílio na China e desde logo as suas atenções estão voltadas para o Sião.
A 22 de Abril de 1824 o Senado deliberou:

- 1.º - "Que se verificasse o pagamento ao Cônsul das conveniências não recebidas;

- 2-º - Que se conservasse a Feitoria no pé da sua criação, pelas razões então ponderadas e que, sendo a criação do consulado procedente de uma convenção celebrada a recíproco contento de dois governos não se coadunava com o decôro nacional qualquer alteração sem que igualmente procedesse de mútuo consenso.

- 3-º - Que se publicasse a continuação da Feitoria, para ver se algum proprietário destinava para o Sião o seu navio para nele irem os socorros ao Cônsul e, pessoa para o substituir no consulado.

Na sessão seguinte o Leal Senado estipulou 1.000 taéis de paga para o cônsul e 400 taéis de paga para o seu escrivão, e nomeou o morador Miguel Vicente Rosa para cônsul. Nesta mesma sessão o conselheiro Arriaga participou ao Leal Senado que havia escrito ao ministro do Sião para obter do seu rei um adiantamento para as despesas do cônsul, adiantamento este que depois seria pago, conformando-se nisto com as intenções do vice-rei, manifestadas em ofício datado de 8 de Abril de 1821.
Após a morte de Miguel de Arriaga, o Leal Senado, no mesmo ano ano 1824, comunicou ao Governo de Goa que não podia calcular quanto seria preciso remeter para resgatar as dívidas daquela Feitoria, ou de seu cônsul, além de que tinha falecido o conselheiro Arriaga, quem tratava destas dependências, não tendo também tratado do transporte do novo cônsul nomeado, por falta de navios. Requereu ainda ao vice-rei da Índia para enviar um brigue de guerra e uma pessoa capaz de tomar conhecimento das contas entre o rei do Sião e o cônsul, "sem o que nada se poderia obter pois ninguém queria ter comércio com aquele reino, sabendo que o cônsul tinha contraído dívidas com o rei em nome da Nação"
Entendeu por isso o Governo de Goa responder ao Senado, " que era impraticável o envio de um brigue, por não haver vasos disponíveis, tão-pouco pessoa capaz para ir tratar de semelhante negócio, a um país mais vizinho de Macau, não sendo causa principal de assim se não ter executado a falta de numerário, pois que no estabelecimento da Feitoria e nos armamentos do brigue "S.João Baptista" em 182o e 1821, a capital do Estado (Goa) sacrificará o melhor de cem mil xerafins, e agora de bom agrado sacrificaria tudo o que pudesse dispôr para, o nome português não ser marcado com o ferrete de ignominia abandonando-se à sua sorte um seu empregado mandado a tratar de negócios que se apresentaram de muita importância na côrte de um príncipe bárbaro, idolátra e desconfiado"

Concluia por fim, aquele governo que lhe parecia justo, que como Macau e seus habitantes devessem colher quasi todas as vantagens da mesma Feitoria, sobre esses recaíssem as despesas da sua manutenção.

O Capitão Jacinto Moura esscreve: " A morte de Arriaga fôra fatal para a Feitoria. A aura de prestígio e simpatia que êle tivera em Macau tinha-se perdido para não mais voltar. Se bem que seja costume dizer-se que os mortos mandam, no caso presente, porém, sepultado que foi o corpo iname de Arriaga, como já havia dêle favores a esperar, nem penas a temer, não havia ordens a cumprir, nem desejos a satisfazer.
O entusiasmo, quasi ingénuo, pelo progresso de Macau e pelo engrandecimento do nome português, que dêle irradiara, envolvendo a muitos na sua chama de fé viva, sumira-se na húmida terra do seu coval.
Estava-se no ano de 1827 e o Leal Senado ainda não achara oportunidade de remeter ao Sião 1.200 patacas e cumprir as ordens do vice-rei e deliberações tomadas, fazendo assim consistir tais deliberações em palavras e não em factos, com desdoiro da Nação.
D. Manuel de Portugal e Castro, novo vice-rei da Índia, manifestou a sua estranheza ao Leal Senado por não terem sido cumpridas as ordens anteriores e enviou cartas das seguintes entidades acerca da Feitoria: "uma do governo de Bengala; outra do capitão Burney, enviado inglês regressado do Sião, dirigida ao secretário daquele Governo, George Swinton, que dizia se a situação do cônsul português altamente injuriosa ao carácter europeu; outra do cônsul ao mesmo Burney, pedindo interferência do Governo de Calcutá junto do Govêrno da capital de Goa; e outra do mesmo cônsul para o Governo de Gôa, relatando as misérias acompanhando a conta das despesas da Feitoria até 2 de Julho de 1826, na importância de 27.541 xerafins.
Mostrava-se, ainda aquele vice-rei extremamente impressionado, pelo facto de um govêrno estrangeiro ser reconhecido o pouco caso que se fêz de uma matéria tão grave, que decidia do crédito ou do desprêzo da Nação.
Ordenou por isso, que o Leal Senado tomasse medidas prontas e eficazes, a fim de que o cônsul pudesse sair com decência que cumpria ao decôro nacional, e que o Leal Senado se pusesse em estado de pagar as dívidas, que o cônsul tivesse contraído para a sua subsistência, e pagar também a sua passagem e do seu escrivão. Fazia outra vez ao Leal Senado responsável perante sua majestade, a quem passava a dar parte d~este negócio, da inexecução das ordens do govêrno de Goa e de tudo acêrca dêle tinha decorrido"
A infanta regente, tendo conhecimento da vergonhosa situação em que se encontrava a representação portuguesa na Côrte do Sião, ordenou ao Leal Senado que lhe remetesses todos os esclarecimentos, e informações possíveis acêrca do préstimo e carácter do cônsul, Carlos Manuel da Silveira, e seu escrivão, Cipriano José Baptista, assim como do estado e verdadeiras vantagens a esperar da dita Feitoria, comércio e construção de navios em Sião. Entretanto o govêrno de Goa escreveu ao govêrno de Bengala pedindo-lhe que fizesse chegar
Às mãos do cônsul 2.500 rupias, para o mesmo cônsul poder retirar-se com o seu escrivão da côrte do Sião, avisando ao dito govêrno que podia sacar tal quantia sôbre a Caixa Real de Macau.
Infelizmente o estado das cousas, a respeito da Feitoria Portuguesa em Sião, era o mais desanimador possível. A correspondência, por falta de navios para aquele pôrto, achava-se paralisada.
A dívida ao rei do Sião, feita em nome da Nação, era cada vez maior, por ter de se lhe acrescentar a do falecido conselheiro Arriaga.
Por isso, as duas mil e quinhentas rupias pedidas a Bengala não foram bastantes para fazer retirar o cônsul e saldar a conta com o rei. Segundo um documento, "tudo oferecia incentivos ao comércio e ganâncias dos especuladores, se os preliminares de amizade entre os dois reinos fôssem ratificados e se mandasse um homem que soubesse agradar ao novo rei e ao 1.º ministro e de quem os comerciantes pudessem confiar, homem com desejos de a todos ser útil, capaz de proibidade, e que olhasse para o bem do público, como devia".
Parece em tal documento atribuir-se aos cônsul todo o o insucesso da Feitoria, quando é certo que se maior fôra o cuidado de alguns, maior teria sido o proveito de todos"
O cônsul Carlos Manuel da Silveira justifica a falta de comércio entre Portugal e o Sião:" os siameses estavam antes animados a terem muito trato com os portugueses e particularmente com Macau, mas acontecimentos passados fizeram irritar o seu carácter desconfiado e presunção, e hoje parece que perdemos aquela confiança que tinha sôbre êles. Porém, eu julgo que, havendo qualquer tráfico, ao menos só com Macau, e de que êles tirem algum interêsse, e haja boa fé e exacto cumprimento nas promessas será fácil recuperar o nosso crédito, particularmente quando se lhes mostre tôda a independência e não continuemos a vir aqui mendigar carga".
Referindo-se à Feitoria dizia: "se os ingleses tivessem este cómodo lugar já tinham aqui ao menos duas grandes casas que certamente seria capazes de produzir um grôsso rendimento ao Estado já pelo frequente aluguel dos gudes (estaleiros) que seriam feitos de outro modo, já pelo rendimento das habitações e godões e os por cento que se concede ao cônsul. Isto é fácil que nós também o façamos e em Macau há quantas casas ricas e bem acreditadas que fariam melhor abraçar êste plano que arriscarem em ópio posto em Linting. Não é permito a outro estrangeiro ter aqui terreno e as casas que alugam são apenas cubículos só para malabares e de pouca segurança com respeito a fogo. O cônsul nunca deve ser mercador, para ser totalmente independente e melhor atendido nas suas requisições, a bem da sua Nação e comércio, e nas causas judiciais, que fôrem suscitadas entre os nossos com outros em que êle deve sempre ser ouvido. É preciso que na monção seguinte venha ao menos um navio, e será conveniente e digno da protecção de v.s. (o Leal Senado) de favorecer quanto puder para vir algum, e que venha estabelecer aqui uma casa de comércio, como acima fiz presente a v.ex.ª, algum d~esses ricos e poderosos mercadores de Macau, que os há, e com assaz inteligência para a fazer manejar com a energia necessária, e mostremos a êste rei, ao seu Prakalang e até aos estrangeiros que também temos com que dar uso a esta Feitoria e suas importantes circunstâncias. Eu tenho falado com alguns amigos meus, particularmente, com os dois mais respeitados cristãos, que há neste país, e os mais estimados dos dois reis: êles são próprios descendentes de portugueses e chamam-se Bendito Ribeiro de Alvergaria e Pascoal Ribeiro de Alvergaria. Êstes homens e o capitão do pôrto, José da Piedade, são do mesmo acôrdo e me certificam que o rei cederá que paguemos os mais moderados direitos possíveis, e que gozaremos de muita consideração a seu respeito, e isto,junto com os grandes lucros que se podem tirar, não deve ser indeferente a todo o bom português. O segundo rei, que é muito inclinado aos cristãos, tem dito em pública audiência, porque não aparecem as nossas mercadorias, que elas terão sempre mais entrada, e mais franqueza que nenhuma das outras nações. Depois de estabelecida a concorrência de comércio, e juntamente, uma ou duas casas neste lugar, o Estado pouco ou nada terá depois que dispender com a Feitoria, porque ela renderá assaz com que se possa manter sem assistência de outro lugar."
José Martins
Fim da 4ª parte
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