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sexta-feira, 3 de outubro de 2008

EMBAIXADA DE PORTUGAL EM BANGUECOQUE - HISTÓRIAS POR CONTAR

Parte 3ª
O cônsul Carlos Manuel da Silveira, vai experimentando todas as misérias do Feitoria. Os navios portugueses que aportavam no porto de Banguecoque deveriam suportar as despesas da representação da Feitoria ordenados do cônsul, funcionários, carpinteiros e soldados, abandonados capital do Sião.
Holandeses, americanos e ingleses principiam a fazer a abordagem ao reino e embora ainda não estivessem, seus países, representados, diplomaticamente no Sião e acordos, assinados aportavam seus navios no rio Chao Prya.
Os estrangeiros não viam com bons olhos que Portugal fosse favorecido com uma larga parcela de terreno junto ao porto de Banguecoque; área onde se concentravam todos os negócios, do Sião, com o exterior.
Em Janeiro de 1822, dois anos depois do terreno ter sido doado, o cônsul Carlos Manuel da Silveira envia um ofício, para Goa, pelo Capitão-Tenente Freitas, que na feitoria apareceu depois de ter perdido o seu navio no caminho de Batávia (Jacarta).
O cônsul Silveira anexa ao ofício as depesas da Feitoria e solicita que a liquidação lhe seja satisfeita porque as não pode pagar do seu bolso, pois excedem quatro vezes mais o seu ordenado e a Feitoria não tem receitas nenhumas de emolumentos.
Por aqui poderemos analisar que o consulado/feitoria não obtinha rendimentos alguns e os poucos que houvesse seriam de algum assento consular de português, luso descendente, residente, num dos três bairros portugueses de Banguecoque. Temos certas dúvidas, se haveria qualquer rendimento, destes, isto porque a igreja, actuava como consulado e registo civil onde nos livros da paróquia se registavam: nascimentos, baptizados, casamento e óbitos.
Mais tarde iremos falar nisso.
O Sião é muito rico e dada a facilidade de navegabilidade e Banguecoque na proximidade do Golfo da Tailândia, os navios do ocidente e seus mercadores estão, constantemente, a chegar ao rio Chao Prya com mercadoria para trocar por outra com o Sião.
Como, referido, a mercadoria principal que o Rei necessitava eram as armas.
A chegada dos barcos estrangeiros o comércio no Sião ganha importância; o reino produz muito acúcar, há madeira raras que o caudal do rio dos pontos mais remotos traz até Banguecoque.
Os barcos americanos, estão a lançar as âncoras no rio Chao Prya com os porões, carregados com armas, vidros outras bujigangas, para permutar por açúcar e outros produtos do Sião.
Em 1824 aparece, em Banguecoque, o mercador, aventureiro, escocês Robert Hunter, que vem transformar, de certo modo, o comércio do Sião com o exterior. No mesmo ano, numa viagem de barco que efectuou a Samut Songkran (a 100 quilómetros de Banguecoque) deu com os famosos gémeos siameses a nadar,perfeitamente, no rio Mae Klong, que os tomaria por um monstro marinho, aquelas duas criaturas, com duas cabeças, quatro braços e iguais pernas.Convenceu os pais dos gémeos,pobres camponeses de vida árdua para que lhe vendesse as duas crianças, prometendo-lhes 3 mil dólares que nunca receberiam mais de 500. Consegue depois persuadir as autoridades siameses para que fosse autorizado a saida do Sião para o estrangeiro. Associou-se a um capitão de um barco que os levou,primeiro para a Europa e depois para os Estados Unidos onde viveram durante 45 anos a ser exibidos em circos. (vidé www.thailandlife.com/siameses_twins.html )
Estabelece-se em Banguecoque e o Rei Rama III, mais tarde, contrata-o para servir a corte. Constroi uma espaçosa casa nas proximidades da Feitoria de Portugal. Roberto Hunter é absolutamente o homem que, por muito tempo, controla todas os mercadores ingleses e americanos. Anna Leonowens, num capítulo, que inseriu na sua obra "The Romance of the Haren", escreveu um dos trechos mais bonitos que conhecemos, embora romanceado, a descrição do Campo Português da Imaculada Conceição, em Samseng (localizado nas proximidades do "Thailand National Archives") e o seu encontro com Rosa Hunter, dizendo que era nativa do Sião mas filha de pais portugueses.
A Rosa Hunter vivia amargurada, dado que o marido Roberto Hunter, de religião protestante, tinha-lhe tirado os dois filhos e enviado, secretamente, para a Éscócia para ali receberem a educação sob o desígnios da religião do protestantismo.
A Rosa com o Hunter tivera durante a sua vida conjugal várias discussões que acabou por se separar dele. A Anna Leonowens, refere-se ainda que o Hunter era o secretário privado do Rei.
O Hunter visitava frequentemente a Feitoria de Portugal; mais tarde já de idade, o seu estado normal seria o de embriagado e numa noite, "embuzinado" de uisque, caminhava pelo escuro durante a noite no estaleiro do Porto de Banguecoque, acabando por estatelar-se no porão de um barco em reparação e finou-se.
Embora a actividade de Roberto Hunter tenha sido muito intensa em Banguecoque, a história pouco fala dele, a não ser a reprovação e condenação (nos dias actuais) de ter usado duas pessoas humanas, para o fim de serem exibidos, como animais e figuras de circo.
Sobre a Rosa Hunter, já vasculhamos, há mais de 20 anos as sepulturas do cemitério (que ainda hoje se encontra no mesmo local) do Campo de Samsen e não encontramos, sepultura, com o seu nome.
Resta-nos agora, cuidadosamente, procurarmos no livro assentos da paróquia, que possuímos, (cópia) e verificar, cuidadosamente, se o seu nome de Rosa se encontra designado e na língua, latina, a religiosa, usada por muitos anos no Sião pela igreja do Vaticano.
Carlos Manuel Silveira encontra-se junto à margem do rio Chao Prya a ver passar os veleiros americanos e ingleses com alguma ostentação e com o seu pessoal a passar as maiores agruras de vida. A Igreja da Senhora do Rosário, mesmo ali à sua beira necessita de padres, porque a comunidade luso descendente, pretende ser assistida, espiritualmente, como tinha acontecido séculos atrás a seus antepassados, no "Ban Portuguete" em Ayuthaya. Goa continua a não ouvir os apelos do cônsul Carlos Manuel da Silveira.
Em 9 de Fevereiro de 1822 solicita que seja integrado na Feitoria o interprete, Sebastião Machado, para traduzir, notas e cartas escritas em língua siamesa e traduzidas para a portuguesa. O Carlos Manuel da Silveira está sob a intriga e actos conspiratórios. Além das misérias do dia a dia, as cartas que lhe tinham sido enviadas de Goa, via Macau, foram parar aos serviços da corte, abertas e traduzidas do português para o siamês.
Carlos Silveira conta que muito sofreu por parte do rei e dos príncipes...A intriga estava instalada, na corte, contra o pobre cônsul e esta só poderia ter vindo por estrangeiros que pretendiam para os seus países os favores e os negócios do Sião. Dizia: "Estar por ali abandonado e pobre, pontos muito delicados nos países asiáticos".
A corte do Sião em Banguecoque tinha ao seu serviço, vários interpretes luso descendentes, macaenses e de crer que as cartas dirigidas ao cônsul Silveira, vindas de Goa, transportadas em navios de carreira da época, possivelmente americanos, ingleses e holandeses, eram recolhidas abertas e traduzidas para a corte saber, em termos de espionagem, quais as instruções dirigidas a cônsul.
Vira-se obrigado a pedir ao Leal Senado de Macau, 15692 xerafins e 4 tangas; para que se visse livre daquele inferno. Mas enquanto o pobre do Carlos Manuel Silveira se debatia com os problemas de miséria e vergonha que não poderia encobrir perante a (mesmo que fosse), comunidade estrangeira, em Goa e Macau as coisas entre os portuguese não corriam pelo melhor.
O pobre do Silveira não sabia que em Macau e Goa os liberais e os conservadores seguiam em lutas intestinas. Os liberais eram contra a instalação da Feitoria no Sião e acabaram, por vencer as lutas internas. Em Goa rebentou em 1821 uma revolução, os liberais prenderam o vice-rei da Índia o Conde do Rio Pardo, colocaram-no a ferros no Forte do Cabo.
Os liberais formam uma Junta Provisional, composta de 4 elementos e viria a ser deposta por outra revolução. Segundo o Monsenhor Manuel Teixeira:
"...os liberais da Primeira Junta se encarniçaram contra a Feitoria pela portaria de 17 de Setembro de 1821: ´não tendo a feitoria Portuguesa instalada em Bancok do Reino de Siam por Ordem de 19 de Fevereiro do anno proximo passado correspondido aos uteis fins para que foi instituída de hoje em diante se há por extinta".
No mesmo dia, nova ordem da mesma Junta Provisória, dizendo a Silveira que poderia ir para Macau, ou para onde lhe conviesse, fazendo regressar a Goa a guarda da Feitoria; deveria transportar livros da receita e despesas da fazenda e todos os utensílios miúdos da mesma Feitoria bem encaixotados, vendendo-se em praça o que se não deverem embarcar.
O vice-rei da Índia, Conde do Rio Pardo escreveu uma carta ao Carlos Manuel da Silveira:
"Saberá que os meus adversários, Chanceler e Ajudante-General, dois membros instalados na primeira Junta Provisória, hoje depostos, pela segunda revolução acontecida em 5 de Dezembro, os quais tramaram com partes falsas do comandante e do piloto da Barra ficar o brigue S.João Baptista até Maio demorado em Goa... cuidaram ser negócio da maior importância deitar, sem a menor delonga de tempo, à gaita a Feitoria do Sião, isto quando os ingleses se lisongeiam nos seus papeis públicos de ter o Governo de Bengala com avultadas despesas conseguindo estabelecer naquele reino uma Feitoria, posto muito menos privilegiado que o nosso.
Por este despotismo, contra o qual é preciso reclamar, e outras semelhanças vinganças que essa Primeira Junta intrusa e ilegalmente instaurada tinha praticado; houve no dia 3 de Dezembro uma terceira ou quarta revolução, de que resultou serem depostos todos os membros do Governo e nomearam-se outros"
Ficou presidente da nova Junta o Sr. D.Manuel da Câmara, que a 26 de Novembro chegou a Goa para suceder-me como capitão General.
Carlos Manuel da Silveira só viria a ter conhecimento em Setembro de 1822 e a 31 de Dezembro de 1823, escreveu uma carta ao rei D.João IV a contar-lhe o que se passava. A 19 de Abril de 1823, D.Manuel da Câmara oficiava ao Senado de Macau dizendo que, não tendo regressado a Goa os 5 soldados do extinto Regimento de Artilharia dele, que haviam ido para a feitoria do Sião, fizesse com que voltassem, bem como o construtor e carpinteiros que para lá tinham ido com os artilheiros.
Os soldados eram joão António Afonso, João Vieira, José António Caldeira, Vitorino José da Silva e José Simões. em 1823, Miguel de Araújo Rosa foi a Banguecoque, segundo relata em 14.10.1829:
"A Feitoria Portuguesa no ditto Porto se acha ainda hoje no mesmo pé em que estava em 1820 posto que sem aquella influencia que deveria ter conservado para descoro da nação e que por falta daquellas relações commerciais entre esta, e a siameza, deixada depois do anno de 1823, quando alli fui buscar o Navio Magnifico feito em hum dos três gudões que tem a Feitoria, quando devia esperar a continuação destas relações logo nos autos que se seguirão athe 1823 não só não tratou dellas nemda d.ª Feitoria nem tão tão pouco tem havido navegação para aquele Reino, tanto dos nossos vazos de Macau, como dos mais Portos d´Ásia Portugueza".
(Nota nossa:"Nunca encontramos nenhum documento que nos informasse que tivessem sido construídos barcos no terreno da Feitoria, mas algo que de facto no Campo do Rosário (a cerca de 300 metros da Feitoria), que ali havia um pequeno estaleiro, propriedade de um luso-descendente, onde se faziam reparações.No entanto Monsenhor Manuel Teixeira na obra "Portugal na Tailândia", pag. 196 refere:" O navio, que se está construindo, está quase pronto e não custará mais de 45 a 50.000 ticais". Nos parece que teria sido ali construído o barco "Magnífico", com os carpinteiros, vindos de Goa e com a ajuda de locais).
José Martins
Fim da 3ª parte
CONTINUA~