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sábado, 1 de novembro de 2008

EMBAIXADA DE PORTUGAL EM BANGUECOQUE - HISTÓRIAS POR CONTAR

Parte 17.ª
Consulado de António Feliciano Marques Pereira

A 16 de Setembro de 1875, o consulado geral de Portugal em Singapura e Malaca e suas dependências foi anexado ao consulado de Portugal no Sião, sendo elevado a cônsul-geral daquele distrito o cônsul de Portugal no Sião, António Feliciano Marques Pereira, que estava à frente desse consulado desse Janeiro desse ano:
Este nasceu em Lisboa, a 1 de Junho de 1839, sendo filho de António Marques Pereira e de Maria Catarina Damário Ferreira. António Feliciano Marques Pereira casou em Macau com Belermina Inocência de Miranda, baptizada na Sé, a 5 de Junho de 1839, filha de António José de Miranda e de Ana Joaquina de Miranda; neta de paterna de Agostinho José Miranda e de Mariana Marques de MIranda e materna de Januário Agostinho da Silva e de Maria Ana Francisca Pereira da Silva. Agostinho de Miranda era filho de José Miranda e Sousa e de Maria Rosa Correia de Liger; sua mulher, Mariana Marques, era filha de Gabriel Marques e de Clara Maria Rosa Vieira, neta paterna de Domingos Marques e de Maria Francisca dos Anjos Ribeiro Guimarães e materna de Raimundo Vieira e de Maria Francisca de Miranda.
António Feliciano Marques Pereira e seu filho João Feliciano foram dos maiores historiadores de Macau, publicando várias obras e inúmeros artigos sobre esta terra. O pai pai foi cônsul de Portugal em Banguecoque durante 6 anos, desde Janeiro de 1875 a 1 de Abril de 1881.Falando de seu pai, escreve João Feliciano Marques Pereira:
«No meio dele (povo siamês), passou meu chorado Pai alguns dos melhores anos da sua vida (de 1875 a 1881), conseguindo a muito custo restabelecer o antigo prestígio tão abalado por muitos desleixos e vergonhas que constituem o costumado fim de muitas glórias portuguesas...
Mas nesse patriótico empenho arruinou a sua saúde num clima inhóspito para europeus.
Tendo saído de Bangkok, em Abril de 1881, veio morrer em Setembro desse ano em Bombaim, como cônsul-geral na Índia inglesa, cargo para que tinha sido promovido como prémio dos seus longos serviços na Ásia, conforme diz o respectivo decreto.
Foi durante a sua permanência em Bangkok que se levantou o novo edifício consular à custa dos rendimentos do próprio consulado e se acabou com a residência do representante de Portugal na imunda pocilga ou barraca feita em 1820 pelo cônsul Carlos Manuel da Silveira. em 1858 Carlos José Caldeira no 1-º volume do Archivo Pittoresco clamava contra a vergonha de tal habitação que já então «estava sustida com cordas e pontaletes para não cair, e que só por irrisão se denominava casa do consulado e feitoria portuguesa».
Meu Pai contribuiu muito para que se resolvesse a questão entre o 2.º e o actual 1.º rei, suscitada depois da implantação da nova constituição política de 1874.
Para isso também trabalhou bastante o falecido Conde de S.Januário, quando Governador de Macau e ministro plenipotenciário em Siam.
Por esses e outros valiosos serviços... a comunidade portuguesa de Bangkok ofereceu a meu Pai uma taça de prata, com dedicatória grande, acompanhada da seguinta mensagem, da qual, já agora, não resisto à tentação de transcrever os seguintes trechos:
«Aprouve ao Governo de Sua Majestade Fidelíssima elevar a V. Ex.ª a um cargo superior ao que por sete anos V.Ex.ª há exercido no reino do Siam táo distinta quão briosamente.
Receba assim V.Ex.ª um prémio condigno do seu subido mérito, geralmente reconhecido talento e acrisolado patriotismo.
Nós, porém, os abaixos assinados, súbditos portugueses aqui residentes, vamos ficar privados dum Representante sem igual na história das relações entre as nações portuguesas e siamesa; daquele a quem coube o destino de restabelecer o prestígio do nome português que muito declinara neste país; que completou e embeleceu o nobre edifício da residência consular, reformou o serviço e coordenou os arquivos do consulado e melhorou os seus redimentos; administrou justiça recta; dispensou-nos conselhos prudentes; pugnou pelos nossos interesses e pelos da nação: que soube enfim, pela perspicácia e firmeza nos negócios diplomáticos, afabilidade, bizarria e hospitalidade nas relações sociais captar respeito, a estima e consideração da nobreza de Siam, dos seus colegas do corpo consular e outros residentes estrangeiros, e de nós os portugueses.
Penhorados. pois, por tanta benevolência, pátrio zelo e amabilidade, vimos aqui desempenhar-nos dum dever de gratidão rogando a V.Ex.ª se sirva aceitar esta taça com a inscrição nela gravada, expressiva dos nossos sinceros agradecimentos pelo bem que V.Ex.ª nos há feito. Digne-se mais aceitar a manifestação do nosso sentimento pela sua próxima partida para longe de nós.
A ausência e o tempo não poderão extinguir-se em nós a grata recordação dos feitos dum benemérito da Pátria, como é V.Ex.ª nem do seu nome justamente respeitado».
São já passados 20 anos (1881-1901). Muitos se não a maior parte, dos signatários dessa mensagem estão mortos.
Mas um núcleo de briosos rapazes, com a fundação da «União Portuguesa», tentou patrioticamente respabelecer as antigas relações comerciais entre os portugueses e siameses e honrar pelo trabalho o nome de Portugal. Que o Governo olhe, como deve, pela comunidade e pelo consulado português em Siam (1).
Compreendem-se estas palavras na boca do filho, que pinta o pai como um sol sem mancha, mas veremos as sombras no relatório do cônsul Loureito.
Por ofício de 3-8-1876, Marques Pereira envia ao Governo de Macau cópia do inventário do Consulado de Singapura, pedindo que pela Junta de Fazenda de Macau lhe fosse abonada a quantia necessária para aquisição da bandeira e material para o Consulado (2). A 18 de Julho de 1877,
Marques Pereira oficia a Chow Phia Kham Wongse, Ministro dos Negócios Estrangeiros, sobre o assassinato cometido pelo monopolista de espíritos, Kimian (monopolista de Supan) na pessoa de Chin Jesun, criado de Chin Ip Chion Si.
Diz ele que outrora não havia crimes; mas, desde que os monopolistas viram que a repartição das finanças desculpava todos os abusos, estes repetem-se todos os dias. Ele cônsul, reteve 320 ticais (quatro cates de prata) que o assassínio lhe dera; a este, mandou aplicar 4 chibatadas.
(1) Ta-Ssi-Yang-Kua, Vol. 11, p.761 - (2) Processo n.º 98, de 3-8--1876.
O Ministro mandou o Sr. Jesus (1) ao consulado pedir os 4 cates, mas não lhe foram entregues. Perante a queixa do Ministro o Cônsul replicou: «Os quatro cates cá estão». Não tenha V.Ex.ª cuidado, que eles daqui não desaparecem.
São meus, foram-me dados pelo monopolista de Supan, mas como eu não costumo receber dinheiro por este modo, ofereci-os a V.Ex.ª e torno hoje a oferecê-los, pedindo-lhe que os aplique aos pobres ou que lhes dê o destino que V.Ex.ª entender mais justo.
Mas preferia esperar pela decisão do tribunal sobre o caso do assassinato.
O Ministro disse que era impossível corresponder-se com o cônsul, enquanto este não lhe desse os quatro cates. O Cônsul respondeu estranhando esta deselegândia e dizendo que o monopolista Kimian tinha a responder por dois crimes: 1.º) o de assassinato; 2.º) de ter tentado subornar o intérprete do consulado e depois o próprio cônsul, entregando-lhe quatro cates de prata e prometendo-lhe muito mais dinheiro.
Mas se o Ministro julga que esse dinheiro estará mais seguro no Ministério do que no Consulado, ele lho enviará. Ele enviou-o ao Ministro. Este queixou-se disto a Eugénio Correia da Silva, Governador de Macau.
A 30-3-1878, Pereira escreveu a Correia da Silva, em resposta a um ofício de 28 do mês anterior, disendo:«nas fraquissímas condições em que está o consulado, melhor é não o sobrecarregar com a protecção dos chinas...
Os chinas podem apostar, viver e comerciar em Bangkok sem necessidade de passaportes ou de protecção de consulado algum.
Termina dando explicações sobre a questão dos quatros cates de prata (2). A 23 de Outubro de 1880, Marques Pereira remeteu ao Governador de Macau o projecto do tratado entre o Sião e a Inglaterra, combinado em Londres pelo embaixador siamês Chow Phia Khan Wongse; regressado recentemente a Bangkok
«O Conde Granville aceita esse projecto, mas unicamente no caso das outras nações o aceitarem» (3). A 28 de Janeiro de 1881, Pereira informou Joaquim José da Graça, o Governador de Macau e ministro plenipotenciário (1879-1883) que o rei do Sião ia nesse ano mandar uma embaixada à Europa, de que seria encarregado o próprio Kalahone, ou primeiro-ministro (4).
(1) Trata-se de Adeodato Francisco de Jesus, que nasceu em Macau, a 19 de Maio de 1841, sendo filho de Adeodato de Jesus e de Rita Josefa dos Remédios, neto paterno de Miguel de Jesus e de Isabel Lopes e materno de José Félix dos Remédios e de Ana Maria Correia. Ainda hoje há na Tailândia muitos descendentes desta família, alguns dos quais ocupando altos cargos do Governo e da Igreja. Nas nossas visitas no Sião conhecemos muitos deles: um é religioso redentista, sendo hoje bispo duma diocese na Tailândia, outra é Provincial das Irmás de Holy Infant Jesus nesse país; outro é alto funcionário do Governo, etc. (2) Processo n.º 164, série P. de 30-3-1878, Arquico Histórico de Macau, (3) Processo n.º 276, série T, de 23-10-1880. (4) Processo n-º 165, série N, de 20-1-1881 (De Monsenhor Manuel Teixeira, cremos do ano 1984). Com a data de 1 de Março de 1881, António Feliciano Marques Pereira redigiu um Relatório do Consulado em que nos dá interessantes informações em cima das inscrições no consulado:
1815................................................................................................................15
1860................................................................................................................. 6
1861..................................................................................................................3
1862..................................................................................................................2
1863..................................................................................................................1
1864..................................................................................................................5
1865................................................................................................................. 4
1866..................................................................................................................2
1867..................................................................................................................2
1868................................................................................................................24
1869................................................................................................................11
1870..................................................................................................................1
1872..................................................................................................................2
1873..................................................................................................................2
____
80 (total da soma acima)
O Consulado protegeu vários súbditos não cristãos, sobretudo chinas, idos de Macau.
Em 1871 - aparecem registados 1 muçulmano e 4 chineses; em 1872, um chinês; em 1873, até 19 de Maio, um chinês. Nesse ano de 1872 foram inscritos 368 protegidos chineses mas essas inscrições foram anuladas. Nos anos seguintes, M.Pereira registou 106 indivíduos:
1875.................................................................................................................42
1876.................................................................................................................13
1877.................................................................................................................12
1878...................................................................................................................7
1879.................................................................................................................12
1880.................................................................................................................20
___
106 (total da soma acima)
Os protegidos que não católicos:
1875..................................................................................................................12
1876..................................................................................................................11
1877..................................................................................................................11
1878...................................................................................................................7
1879...................................................................................................................8
1880..................................................................................................................16
____
65 (total da soma acima)
As naturalidades dos súbditos portugueses são as seguintes:
Lisboa.................................................................................................................5
Goa..................................................................................................................... 3
Macau...............................................................................................................20
Bombaim.............................................................................................................1
Singapura............................................................................................................1
Banguecoque.....................................................................................................11
___
41 (total da soma acima)
Profissões:
Vivendo em parte incerta...................................................................................9
Comerciantes.....................................................................................................10
Marítimos............................................................................................................ 7
Empregados do Governo siamês........................................................................6
Empregados do consulado................................................................................. 4
____
36 (total da soma acima)

Desses 41 faleceram 4 e 2 ausentaram-se, ficando 35, devendo acrescentar-se 62 protegidos; os serventes destas duas classes são 274.
Marques Pereira descreve as orígens dos portugueses no Sião: «Por duas veses demos socorro a Siam em guerra contra os birmaneses, sendo a última em tempo da senhora D. Maria I. Ainda há poucas semanas o Kalahone (primeiro-ministro e ministro de guerra) em visita, sem que eu a este assunto houvesse aludido, fazia menção altamente honrosa do valor de tais auxílios, e me referia que duas das principais fortalezas que defenderam o Menam foram construídas por militares portugueses. Em 1852, sendo cônsul o macaista Marcelino de Araújo Rosa, ainda o corpo de artilheiros do palácio real de Bangkok se denominava artilharia portugesa.
Estas expedições auxiliares fixaram em Siam muitos portugueses, que se casaram com siamesas e tiveram descendência»
Falando da decadência do nosso comércio, escreve Marques Pereira: «Desde há anos que não existe comércio algum entre Siam e Portugal nem entre Siam e as possessões portuguesas. Veio apenas de Lisboa, em 1871 1 872, a galera portuguesa Viajante. Trouxe vinhos, aguardente, azeite, conservas e calçado e levou para Lisboa arroz, açúcar, teca, pimenta, peles, etc.
Um súbdito português residente em Siam, o sr. José Maria Fidélis da Costa, comprou em 1876 a barca Cap-sing-mun, que mais tarde chamou Ana Rosa. Empregou-a em fretes, com vantagem, para Singapura e Hong Kong, mas teve de a vender, em fins de 1877, por ser velha. Já antes utilizara de modo igual a escuna Lusitânia, que ele mesmo fizera construir nesta cidade e vendera em 1870».
Sobre os macaenses no Sião, Marques Pereira descreve-os:«Sóbrios e pacíficos, mas incompletamente educados e assim pouco enérgicos




e perseverantes, não sobem geralmente das tentativas de um comércio modestíssimo, ou da posição de empregados secundários das casas comerciais estrangeiras, e ainda aí, não só as alemãs em começo de carreira, mas a raça activa e esperta dos chamados babás ou chinas dos Estreitos, lhe fazem de dia para dia competência mais grave. A navegação mercante de vela com bandeira siamesa, que facilitava aos portugueses a profissão de capitães e pilotos, decresceu com o aumento de vapores à quinta parte do que era em número de vaos não há muitos anos, baixado também os salários e o ensejo de obtê-los, por crescer a oferta de marítimos suecos, dinamarqueses, alemães e outros.
É certo, porém, que a vida em Siam é fácil, ou pelo menos barata. Os portugueses que para aqui emigram, não só de Macau, mas de outras procedências, fixam-se em geral no país, e não raro criam plantações e outras propriedades. Ligam-se frequentemente com a população indígena por casamentos, etc., mas conservam, sem modificações importantes, os usos, a língua e a religião pátria. Vivem, quási todos em Bangkok, e são unidos no amor da sua nacionalidade.
A opinião geral acerca desta pequena colónia é não ser rica, nem muito instruída e empreendora, mas ser honesta» (1)
Jacinto de Moura desfaz-se em elogios a Marques Pereira:«Desde essa data (2-10-1873) retomou o cargo, como encarregado, o secretário Joaquim Vicente de Almeida, até que, em 15 de Janeiro de 1875, tomou posse, como cônsul, António Feliciano Marques Pereira, pessoa de alto valor moral e mental e trabalhador infatigável, cujo nome está ligado estreitamente a Macau, pelo seus relevantes serviços ali prestados, entre os quais avultam, os seus importantes trabalhos de investigação histórica.
A ele se ficou devendo a conclusão do consulado por meio de um empréstimo que realizou»
Adiante se irá analisar o que o Cônsul Loureiro diz sobre Marques Pereira que o teria conhecido bem.
(1) Boletim Oficial de Macau, Vol.XXVII, n.º31,30-VII-1881 (2) Jacinto de Moura, I.c.,93.
José Martins
Fim da parte 17.ª
CONTINUA
P.S. Aparte das opiniões do autor, este, vai consultando, cópias, dos seus arquivos pessoais e como guião ( sem este não seria possível levar em frente este trabalho) a obra do Monsenhor Manuel Teixeira: "Portugal na Tailândia - Imprensa Nacional de Macau - Maio 1983.

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

EMBAIXADA DE PORTUGAL EM BANGUECOQUE - HISTÓRIAS POR CONTAR

Parte 16.ª
Consulado de Eduardo Pereira LeiteConsuladoPereira Leite
Ofício de 19.11.1872 - António Sérgio de Souza, envia para o Ministério dos Negócios Estrangeiros, um requerimento de Eduardo Pereira Leite, onde este pede para ser nomeado cônsul de Portugal no reino de Sião, e a informar sobre este assunto.
Eduardo Pereira Leite era filho do General de Brigada, Jerónimo Pereira Leite e de Firmino Seva Leite. Jerónimo Pereira Leite, quando tenente, era Ajudante de Ordem do Governador João Maria Ferreira do Amaral e estava com ele no trágico dia 22 de Agosto de 1849, quando este foi assassinado.
Às 6 horas da tarde, desse dia, a meio do caminho do Istmo da Porta do Cerco, Ferreira do Amaral foi acometido por 7 chineses disfarçados de mendigos, os quais derrubando-o do cavalo, lhe deceparam a cabeça e a sua única mão, que levaram, deixando o seu corpo coberto de um sem número de feridas e o seu Ajudante de Ordens ferido.
Jerónimo Pereira Leite faleceu em Lisboa em 27 de Janeiro de 1882 e teve de sua mulher Firmina 3 filhos:
1. Júlia Pereira Leite; faleceu a 2 de Agosto de 1870 a bordo do vapor Saída, do comando do 2.º tenente, da Armada, João Maria Freitas Branco.
2. Eduardo Pereira Leite; casou com Sara Luisa Rangel e foi cônsul de Portugal no Siã0.
3. Luís Pereira Leite; casou com Teresa Maria Piter, filha do Dr. Vicente Paulo Piter e de Hermelinda Joaquina Leiria Salatwchi.
Eduardo Pereira Leite pouco se quedou no consulado de Banguecoque.
Nomeado cônsul de 2.ª classe de Portugal no Sião a 21 de Outubro de 1872, exerceu o cargo desde 11 de Maio de 1872 até 2 de Outubro do mesmo ano, em que foi demitido.
Foi um dos mais absurdo cônsul que ocupou esse lugar entre tantos outros que não primaram pela boa conduta.
O Rei do Sião estava absolutamente enojado dele, ao ponto de o recusar receber.
Durante o seu consulado, foram matriculados 400 chineses, uns com passaporte, outros sem ele.´Ora a matrícula rendia; e, portanto, quanto mais chineses fossem registados como protegidos, mais dinheiro enchia os bolsos do cônsul.
O Governo Siamês queixou-se ao Governador de Macau, Januário Correia da Silva, Visconde de S.Januário (1872-1874), que era o Ministro Plenipotenciário às Cortes da China, Japão e Sião; este ordenou-lhe que cancelasse as matrículas dos chineses sem passaporte. Tendo largado as suas funções, foi Joaquim Vicente de Almeida, secretário e encarregado do consulado, que executou essa ordem.
Não deixa de ser curiosa a exclação e a pergunta de Monsenhor Manuel Teixeira, na sua obra "Portugal na Tailândia": Imagine-se que, de 400, ficaram apenas 7 chineses entre os protegidos!
E o dinheiro que os outros haviam pago, quem o levou?
Em 13 de Maio de 1873, um ofício da Secretaria da Junta de Fazenda de Macau para o cônsul de Portugal em Singapura, acerca do pagamento das despesas de passagem e hotel do cõnsul de Portugal no reino do Sião, Eduardo Pereira Leite.
Em 15 de Julho de 1873, um outro ofício da Secretaria da Junta de Fazenda de Macau, dirigido ao cônsul do Sião, Eduardo Pereira Leite, a solicitar o envio dos documentos comprovativos de despesas feitas com passagem e hotel do dito cônsul.
Um mês depois um outro ofício, da Secretaria da Junta de Fazenda de Macau, a comunicar ao Pereira Leite uma determinação da referida Junta para que este envie documentos relativos a despesas feitas e para as quais recebeu da tesouraria da mesma Junta quinhentas patacas e cinquenta avos.
Em 13.08.1873 - Acta da sessão da Junta de Fazenda de 12 de Agosto de 1873 em que, entre outros assuntos, se inteirou de um ofício do secretário-geral do Governo de Macau pelo qual este envia uma cópia de um ofício do cônsul de Portugal no reino do Sião, Eduardo Pereira Leite, e uma conta de despesas deste no valor de quinhentas patacas e cinquenta avos efectuadas.
Em 12 de Julho de de 1873. A Junta decidiu enviar um ofício ao cõnsul a pedir os documentos relativos à dita conta. Segue-se outros ofícios do Sião e de Macau em cima do assunto dos recibos do cônsul Pereira, demitido em Outubro de 1872 e em Junho de 1874, o assunto ainda não está resolvido, em cima das 500 patacas e cinquenta anos que o Pereira Leite deve enviar os comprovativos.
Porém antes em 18 de Dezembro de 1873 o Governador de Macau, Visconde de S.Januário, envia um ofício para o Ministro dos Negócios Estrangeiros, a comunicar as ilegalidades cometidas pelo cônsul de Portugal no reino do Sião, Eduardo Pereira Leite, ao passar títulos de nacionalidade a Chineses residentes neste reino não oriundos de Macau.
Em 31 de Dezembro de 1873, uma Acta da Junta de Fazenda em que, entre outros assuntos, se apreciou um requerimento de Eduardo Pereira Leite, que se encontra suspenso do cargo de cônsul de Portugal no reino do Sião, em que este pede o pagamento dos seus vencimentos. A referida Junta decidiu não atender ao pedido até que seja concluída a sindicância a ser efectuada aos actos do requerente no exercício das suas funções.
Em 11.03.1874 - Um ofício da Secretaria de Estado dos Negócios da Marinha e Ultramar para o Governador de Macau, a partcipar que, por decreto de 25 de Fevereiro de 1874, foi Eduardo Pereira Leite demitido do cargo de c^nsul de 2.ª classe de Portugal no reino do Sião.
Em 10 Novembro de 1874, na sessão da Junta de Fazenda, entre os vários assuntos tratados, há um requerimento do Pereira Leite, ex-cônsul, em que solicita o pagamento dos seus vencimentos em divida.
A Junta indeferiu o pedido, até estar concluída a sindicância em curso aos actos do requerente aquando do exercício do seu cargo.
O assunto do cônsul Pereira Leite é espécie de uma "sopa da pedra"...
Em 31 de Março de 1875 a Junta de Fazenda de Macau apreciou um requerimento do Pereira Leite onde pede o saldo da sua liquidação na importândia de $421.40. Ficou deliberado fazer nova liquidação devida às contas recentemente remetidas pelo pelo cônsul de Portugal no reino do Sião (Nota nossa: O cônsul é António Feliciano Marques Pereira) .
Ainda há mais uma acta (4.05.1875) da Junta de Fazenda de Macau, agora com um novo cônsul A.F. Marques Pereira:.... "e a apreciar também um requerimento de Eduardo Pereira Leite, ex-cônsul de Portugal no reino de Sião,a pedir uma cópia do que constar na Repartição de Fazenda acerca da sua liquidação".
O Pereira Leite desaparece da cena depois de quase 3 anos de ter sido suspenso do cargo, por ilegalidades.
Até agora não se sabe se teria sido chamado à responsabilidade, depois de regressar a Macau.
Durante o espaço de tempo do "problema" de corrupção do Pereira Leite, não se encontrou qualquer actividade relativa a comércio entre o Sião e Portugal.
Tudo seguia como antes e nos 55 anos já havidos decorridos tudo estava na estaca zero.
De facto a actividade do cônsul Eduardo Pereira Leite foi muita curta a sua gerência do consulado e pouco honrorosa!
Mas não foi ele o primeiro que praticou desonestidades, estas já vinham de trás e, evidentemente, famosas, em que certos cônsules quando eram nomeados para o Sião um dos seus ojectivos era a prática de crimes de "peculato", conseguir obter o mais possível, quer, fosse em dinheiro e bens materiais.
Missão diplomática de Visconde de S. Januário ao Sião
Em 17.2.1873 o Governador de Macau, Visconde de S. Januário, envia um ofício ao Ministro dos Negócios Estrangeiros, de Portugal, a comunicar que tenciona partir, em missão diplomática, para o Reino do Sião no dia 27 de Fevereiro a bordo da corveta "Duque de Palmela". O pedido de Visconde de S. Januário de ajudas de custo foi aprovado e registado na acta da na sessão da Junta de Fazenda de 17 de Novembro de 1874, assim como o mesmo seria aplicado a Pedro Mesnier e Alberto Morais de Carvalho. Monsenhor Manuel Teixeira escreve sobre a missão:
«O Governador de Macau Januário Correia de Almeida (1872-1874), Visconde e depois Conde de S.Januário, visitou Bangkok em 1874 na sua qualidade de Ministro Plenipotenciário às Cortes da China, Japão e Sião.
Já em Novembro do ano anterior fizera uma visita ao Japão.
A sua ida a Bangkok foi providencial, pois conseguiu acalmar a tempestada que rebentara na corte entre o primeiro e segundo rei, suscitada após a implantação da constituição política desse mesmo ano.
O rei Mongkut faleceu em 1 de Outubro de 1868, sucedendo-lhe Phra Chulalongkorn Klan Chayuha ou rei Chulalongkorn I (Rama V, 1868-1910). Como era de menor idade, foi nomeado Regente Chao Phya Suriyawonse. Quando, 5 anos depois, ele tomou as rédeas do poder (1873), propôs-se modernizar o país.
A administração estabelecida pelo rei Boromtrailokanat (1448-1488), tornara-se confusa com o andar do tempo.
O Samuhakalahom governava o sul do país, o Samubanayok, o norte; o Praklang administrava o tesouro, as finanças, os negócios e o comércio estrangeiros, e governava as cidades nas costas do mar. Para reformar a administração, o rei nomeou, em 8 de Março de 1874, o Conselho de Estado, composto de 12 membros, que eram os conselheiros do rei; em 15 de Agosto do mesmo ano, nomeou o Conselho Privado (Privy Coucil), composto de 49 membros, incluindo 13 príncipes e 36 oficiais superiores.
Mas nem o Conselho de Estado nem o Conselho Privado deram boa conta de si . Isto levou fricções entre o rei e o ex-regenre que o Visconde de S.Januário tentou solucionar com a sua londa experiência política no governo da Índia e de Macau»
O Hino do Visconde de S.Januário
O Dr. José Gomes da Silva , que foi a Bangkok em 1888 como secretário da missão diplomática de Firmino José da Costa, conta:
«À entrada do ministro portuguez com a comitiva no jardim que precede o palácio real, e a cujo portão nos havíamos apeado apezar da chuva que nos alagava as malfadadas fardas, a guarda de honra apresentou armas, enquanto a banda executava o hynno.... do visconde de S.Januário.
Precisa explicação este facto, apparentemente extraordinário. Os governadores de Macau, como todos os governadores das nossas províncias são recebidos, na occasião do seu desembarque e posse, com uma guarda de honra, cuja banda executa uma marcha ou coisa que o valha, composição mais ou menos original do mestre da música e dedicada ao recém-chegado, sob o título de hynno de s. ex-ª o governador; e força é confessar que, se os governadores quasi sempre differem, os hynnos muitas vezes se parecem.
O visconde de S. Januário, como os seus predecessores e sucessores no governo de Macau, teve também um hynno seu.
Quando s. ex.ª foi na sua qualidade de ministro, visitar a capital de Siam e a apresentar as suas credenciais a S. M. Magnifica, teve a agradável surpreza de ouvir a banda da guarda real tocar o hynno do governador de Macau. Os governadores e ministros mudaram depois; o hynno ficou sempre o mesmo. Devo confessar que, pouco forte em hynnologia, suppuz a principio que este fosse o hynno siamês, que eu não ouvira ainda.
Tirou-me, porém, as dúvidas o nobre inspector das alfândegas do arroz, que entrara connosco e que me segredou ao ouvido, como explicação, realmente indispensável. - Este é o hynno portuguez.
É difícil imaginar a minha surpreza, o meu espanto. A tanto não chega a minha ignorância; os hynnos portugueses, ao menos, conheço-os bem. Livrou-me do protesto o intérprete que nos acompanhava e que a seu turno explicou: - Desde que aqui esteve o visconde de S.Januário, este hynno ficou considerado como o hynno nacional portuguez. Compreendi então.
O que me parecera um mysterio, era um simples qui-pro-quo.
É inutil acrescentar que hoje o mestre da banda de marinheiros tem já em poder uma cópia do hynno da Carta.
Veremos se para o futuro continua continua a confusão, injustificável agora» (Gomes da Silva, Viagem a Siam, Macau, 1889), pg.32-33.
José Martins
Fim da Parte 16.
CONTINUA

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

EMBAIXADA DE PORTUGAL EM BANGUECOQUE - HISTÓRIAS POR CONTAR

Parte 15.ª
Consulado do Encarregado Joaquim Vicente de Almeida

Nasceu em Macau, filho do Dr. José de Almeida Carvalho e Silva, natural de S.Pedro do Sul, Portugal, a 17 de Novembro de de 1784 e de Rosália Vieira de Sousa, neto materno de Joaquim Vieira e de Ana Cândida de Sousa.
Joaquim de Almeida casou, a 5 de Fevereiro de 1836, em Calcutá, com Rosa Barrington, de quem teve Maria Eugénea, naceu a 16.1.1839 que morreria passado um ano e 7 dias.
Viuvou e viria a casar, depois, com Isidora Cotter, natural de lIsboa, filha de Guilherme Cotter, do Rio de Janeiro, e de Isidora de Arniz e Cotter, de Espanha, que lhe viria a dar 5 filhos, Joaquim Isidoro, Francisco José, Isidora Francisca, Guilhermina Romana Josefa e Jorge; este último viria a ser um arquitecto de sucesso.Joaquim Vicente de Almeida viria a ser encarregado do consulado de Portugal em Banguecoque de 25 de Setembro de 1869 a 11 de Maio de 1873 e novamente de 2 de Outubro de 1873 a 15 de Janeiro de 1875. Dedicou-se ao comércio, vindo a falecer em Banguecoque a 8 de Novembro de 1886. Emprestou 1.000 patacas ao cônsul Prostes. Como nunca mais lhe devolvia o montante, em 4 de Abril de 1883, queixou-se por escrito ao Secretário-Geral do Governo de Macau, solicitando-lhe que retivesse o ordenado ao Prostes e lhe passasse a ele as 1.000 patacas que lhe devia.
O certo viria a acontecer e o Joaquim de Almeida nunca mais receberia o seu dinheiro. Mais tarde os herdeiros «requereram a entrega do espólio do falecido, que constava de uma casa comprada havia pouco tempo para se anexar ao consulado de Portugal, e da quantia de 1.000 patacas, de Licínio Xavier que teria ficado fiador do cônsul Prostes». O "Correio Macaense" de 7.12.1886 publicava uma carta de 8.11.86 de Banguecoque que, ao noticiar a morte de Joaquim Vicente de Almeidam censurava o cônsul Frederico Pereira: «Joaquim Vicente d´Almeida fora convidado pelo senhor Prostes de saudosa memória, a viver num gudão do consulado, a fim de se lhe conseguir o empréstimo de mil patacas; o pobre velho, embora lastimasse a perda dessa quantia e os juros de cinco anos, vivia lá satisfeito, porque tinha a comida a horas certas. O Senhor Frederico Pereira, logo à sua chegada, entendeu que um pobre velho, que serviu a nação por mais de dez anos, honrado e honesto, num tempo em que o consulado daqui era uma verdadeira mina (1) não tinha jus, quiçá por essa honradez - a um cantinho dum gudão e ao sobejo de mesa; convidou, pois, o senhor Almeida a ir viver no hospital; e o pobre velho, como estava de saúde, não aceitou a oferta, e foi por isso, dias depois removido para uma casita húmida, sem ventilação suficiente, e aí entregue ao cuidado duma criança china.
E a consequência foi encontrarmos o homem, na manhã de 3 de Novembro, moribundo e, assim mesmo, devido a esforços, de vários cavalheiros presentes, ficou removido para o hospital no dia 4, e na manhã de 5 estava cadáver.É a sina do sr. Pereira, pois, dias antes, escolhendo a véspera de finados para dar um baile - devia ter visto espectros em sonho, mas a realidade é que ele não esperava tão cedo.Querino Eduardo de Sousa, à beira da sepultura, pronunciou o elogio fúnebre atacando o cônsul: «Ainda há poucos dias dava-se um sumptuoso baile no consulado português, enquanto jazia na agonia da morte um súbdito português, que já tinha feito as vezes de cônsul português em Bangkok... Estava a morrer... e não tinha um caldo quente que lhe conchegasse o estômago enfraquecido pela velhice, doença e miséria. Quando deixará o governo português de nomear seus representantes homens inaptos e sem préstimo, que só têm em mira enriquecer à força de vergonhas transações que deslustram o nosso honrado nome?» O mesmo "Correio Macaense de 11.2.1882, publicou nova diatribe contra o cônsul por proteger um china que, na província de Chalabury teve uma rixa com outros indivíduos, matando um deles. Frederico Pereira respondeu a estas diatribes no mesmo jornal de 8.2.1887, em carta de 17.1.1887: «Almeida deixou um espólio de 1.852 patacas. O Cônsul nada tem com os vivos agonizantes, a sua missão começa no momento da morte. Até ali, era aos amigos que competia levar-lhe um caldo quente. Tantos amigos.... e nenhum lho levou! É que só foram amigos depois de morrer... Ele declarou que deixava tudo a quem o tivesse em casa à hora da morte. Honorato de Sá acode, mas já não chega a tempo. Que faz então? «Descarregar a sua cólera sobre o cônsul que, se o não ~tivesse deixado morrer morrer de fome, teria dado tempo a fazer o testamento. Depois responde à acusação de proteger os chinas: «Ele trata de fazer cumprir bo tratado e é censurado». Os que dizem que pesa sobre o nome português um odioso, pesa sobre eles apenas, «porque só eles defraudam ilegalmente o fisco siamês por meio de contrabando. São estes que não querem aqui um cônsul que cumpra com o seu dever, porque só lhes pode servir um cônsul que os coadjuvasse nos seus destinos e que tivesse com eles uma profunda amizade e segredo. Porém, são demasiadamente ordinários para que alguém possa aceitar a sua convivência» «Além desta carta, Pereira fez uma queixa, a 22 de de Dezembro de 1886, ao Governo de Macau, Firmino José da Costa (1886-1889), contra a publicação do discurso de Quirino Eduardo de Sousa no jornal».
Nota do autor: " Nos nossos arquivos vamos encontrar o assento de óbito n-º 5 que reza: «Falecimento de Joaquim Vicente d´Almeida, no dia 6 de Novembro de 1886. O cônsul F.A Pereira foi informado pela Direcção dos Hospitais que o Vicente d´Almeida tinha falecido no hospital. No dia 3 o cônsul Pereira visitou em sua casa o falecido encontrando-so muito enfermo, fez selar um armário e uma caixa, que depois ao outro dia mandou vir para o consulado, porque o falecido foi internado. Assinou o cônsul Pereira». (1) O consulado era de facto uma mina e estava-se na avalanche de chineses que chegavam a Banguecoque e agora já não era necessário o título emitido em Macau, mas o consulado inscrevia os chineses a troco dinheiro. Não havia moral alguma e a vergonha morava distante... Era assim o consulado de Portugal na capital do Reino do Sião.
José Martins
Fim da parte 15.ª
CONTINUA

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

EMBAIXADA DE PORTUGAL EM BANGUECOQUE - HISTÓRIAS POR CONTAR

Parte 14.ª
Consulado do Encarregado José Maria Fidélis da Costa

Pela trágica morte do cônsul Guilherme Ferreira Viana, assumiu as funções de encarregado interino, por favor, o ilustre "macaense" José Maria Fidélis da Costa. Nasceu em Macau e partiu para Banguecoque, como outros naturais deste território sob aadministração portuguesa, em procura de vida melhor. Por norma, todos os "macaenses", quando chegavam ao Reino do Sião, exprimiam-se na língua inglesa e de extrema utilidade para o governo siamês e empresas estrangeiras que se estabeleciam, em força, na capital do Sião. Fidélis da Costa chegou a Banguecoque em 1857 e entrou para o serviço da Governo Siamês em 1868, ano da ascenção ao trono do Rei Chulalongkorn, Rama V. O consulado português esteve sob a sua gerência uns escasso seis mêses.
Nasceu (como acima se referiu) em Macau no ano de 1837 e faleceu em Banguecoque a 20 de Fevereiro de 1895, realizando-se o funeral no dia seguinte com a presença dos príncipes Bhanuram, Biddyalabh, Naradhip. Os príncipes Damrong, Naret e Davawongse fizeram-se representar; o Rei Chulalongkorn mandou os seus presentes - pano branco e moedas.
O jornal "Siam Observer" de 22.02.1895, escrevia acerca de Fidélis da Costa:
«Ele entrou ao serviço do governo primeiro como funcionário da repartição da alfândega que trata do arroz e introduziu imediatamente novos regulamentos com respeito ao modo de pagar os direitos sobre este género, de sorte que fez subir consideravelmente o rendimento adunaneiro. Tão habilmente dirigiu o sr. Costa o serviço da repartição de arroz que bem depressa foi transferido para a repartição da alfândega geral como inspector-chefe e nessa posição permaneceu até à triste morte de seu filho (Khum Sewok Warayuth), que ocorreu há 13 meses, o que foi o motivo principal que o levou a empreender uma viagem para mudança de ares da cena.
O sr. Costa recebeu do rei de Portugal a condecoração de N.Sr.ª da Conceição e era cavaleiro dessa Ordem. Há 3 anos foi agraciado com a comenda de Cristo. Há nove anos foi agraciado com a comenda da Coroa do Siam, e ao mesmo tempo, foi nomeado Luang (Barão) Rajayasathok».
Transcrevemos e porque também faz parte da história deste ilustre "macaense", ao serviço da corte do grande Rei Chulalongkorn o que relatou o Monsenhor Manuel Teixeira,sobre a vida de Fidélis da Costa.
"José Maria Fidélis da Costa era casado com Ana Rosa Maria Braga, de quem, teve um filho, (1) cuja morte apressou apressou a morte do pai, duas filhas, Belarmina Fidélis da Costa e Maria Pia Fidélis da Costa; esta última casou com Maclean, filho de John Maclean. Não encontramos o registo de baptismo de José Fidélis da Costa em nenhuma igreja paroquial de Macau, supomos que foi baptizado em St.º António, cujo arquivo ardeu no tufão de 1874. Achamos a seguinte participação da sua morte:
«Ana Rosa Braga Fidélis da Costa, Maria Pia Fidélis da Costa Maclean, Belarmina Fidélis da Costa, John Maclean, participam que seu esposo, pai e sogro José Maria Fidélis da Costa faleceu (2) a 20 de Fevereiro de 1895». Mas pelas proeminentes figuras da Corte presentes no seu funeral, o José Fidélis tinha sido mais um português de prestígio ao serviço da Coroa Siamesa. Tudo indica que o defunto Fidélis da Costa teve um funeral dentro dos ritos, tradicionais, da religião num templo budista, algures, em Banguecoque.
Ana Rosa Maria Braga Fidélis da Costa, vúva do barão e director da Alfândega, José Maria Fidélis da Costa, faleceu em Bangkok com 87 anos de idade a de Julho de 1927, deixando uma filha, Maria Pia da Costa Maclean.
Supomos que José Maria Fidélis da Costa era sobrinho de António Fidélis da Costa, de quem encontramos os seguintes dados nos Arquivos Paroquiais de Macau.
António Fidélis da Costa, filho de Manuel António da Costa e de Bibiana Antónia da Costa, casou com Eufêmia Cândida Baduel, nasceu a 24.08.1811, filha de João Baduel e de Quitéria Angela Vidal, neta paterna de João Baduel e de Margarida Araújo e materna de Pedro Vidal e de Quitéria da Luz.
Antes de casar com Fidélis da Costa, Eufêmia Baduel teve de John Hart uma filha natural, Matilde Cândida Baduel, que casou em S. Lourenço, a 9.9.1843, com João Miguel Milner,, nasceu a 29.8.1814, filho de Joaquim Miguel Milner e de Ana Maria Isabel Milner, neto paterno de Joaquim António Milner e de Margarida Rita de Carvalho e materno de Elbert Lucas Stein e de Ana Maria Isabel de Carvalho.
João Miguel Milner teve de Matilde Cândida Baduel os seguintes filhos:
1. João Leonardo, nasceu a 2.11.1847;
2. Francisco de Sales, nasceu a 29.1.1852 e faleceu a 19.3.1853;
O Major João Miguel Milner destinguiu-se no ataque ao forte deo Passeleão, em 25 de Agosto de 1849.
António Fidélis da Costa teve de Eufêmia Baduel os seguintes filhos:
1. Clotilde Eufêmia, nasceu a 5.5.1846:
2. Hermenegildo António, nasceu a 12.8.1848;
3. Idalina Micaela Ana, naceu a 29.9.1853, faleceu a 20.2.1928.
Idalina Micaela Ana Fidélis da Costa casou com João Baptista Gonçalves, nasceu a 17.12.1854, faleceu a 10.10.1906, então alferes da FGuarda Policial de Macau (mais tarde, general), filho de Joaquim Manuel Gonçalves e de Maria Xavier Gonçalves, de quem teve os seguintes filhos:
1. Vicente Agostinho, nasceu a 11.9.1879;
2. Veríssimo, nasceu a 1.10.1881;
3. Marin Orin, nasceu a 24.5.1883;
4. Júlio Augusto, nasceu a 25.11.1887
(1) Nos nossos arquivos vamos encontrar o assento de baptizado, do consulado, com o número 24 que descreve: «Baptismo de António Maria Fidélis da Costa, filho legítimo de Jose Maria Fidélis e de Ana Rosa Brada da Costa. Baptizado na Igreja do Rosário em 18 de Maio de 1875. Assento de Baptismo do missionário E. Saladin e certificado pelo cônsul António Feliciano Marques Pereira na mesma data.
Não foi encontrado o assento de óbito do António que conforme o "Siam Observer" relata morreu com o nome: "Khum Sewok Warayuth" o que nos leva a supor ter mudado seu nome português para o siamês.
(2) Não encontramos o assento de óbito de José Maria Fidélis da Costa. Aliás com não foi encontrado mais nenhum nome "Fidélis" num livro de assentos do consulado que foi iniciado em 18 de Setembro de 1868 e encerrado em 20 de Julho de 1929, pelo cônsul José de Sousa Santos.
Possivelmente, esta família teria renunciado à nacionalidade portuguesa e optado pela siamesa e deixou de utilizar os serviços do consulado.
Pouco mais informações, encontramos, do que as que descrevemos acima.
José Maria Fidélis da Costa, pertence ao número de bons portugueses que emigraram para o Sião, serviram a corte siamesa e Portugal ao mesmo tempo.
Depois da morte de Guilherme Ferreira Viana, tomou a seu cargo a responsabilidade (talvez a pedido de Joaquim Vicente de Almeida outro português ilustre no Reino do Sião) para que a representação de Portugal não caísse em ruins mãos.
Os juncos chegavam ao rio Chao Prya "abarrotados" de chineses e suas famílias, já fixadas no Sampeng (bairro dos chineses), compravam, os títulos de nacionalidade, conforme o preço pedido no consulado português.
Corria já, em Banguecoque, entre a comunidade dos portugueses e estrangeira a vergonha que se estava a passar na concessão de títulos ao ponto, desta atitude, chegar aos ouvidos do Rei do Sião.
História a ser narrada, nas próximas partes.
Mas no correr do tempo a corrupção; a ilegalidade foram factos correntes no consulado de Portugal, em Banguecoque e seguiu-se de quando a representação de Portugal no Reino da Tailândia, obteve o estatuto de embaixada.
Será duro, mesmo para nós, narrarmos, o incrível, que se haja passado.
Já que nos enfronhamos na história, teremos que narrar as verdades, sem pouparmos os nomes dos Herodes e dos Pilatos.
As intrigas, as vaidades balofas, o exibicionismo, o interesseirismo, as manobras, a mentira, as acusações infames e as humilhações que entre aqueles que foram vítimas eu sou um dos incluídos.
Portugal é o que é de momento, na Ásia, porque o país foi vítima dos "cordelinhos" tecidos em Lisboa, para onde (a Ásia) foi nomeada "ruim" gente para gerirem os negócios de Portugal.
Eram e são os (alguns) "mamões", sem escrúpulos, que já no reinado de Dom Manuel I, mamavam a fazenda de el-Rei!
Somos aquilo que fomos e aquilo que vamos continuar a ser até que Portugal seja riscado na história da Ásia.
José Martins
Fim da Parte 14.ª
CONTINUA

terça-feira, 28 de outubro de 2008

EMBAIXADA DE PORTUGAL EM BANGUECOQUE - HISTÓRIAS POR CONTAR

Parte 13.ª
Consulado do Encarregado José Maria Fidélis da Costa

Antes que nos embrenharmos na gerência do encarregado do consulado José Maria Fidélis da Costa, vamos referir alguns ofícios que de Macau foram expedidas para Banguecoque:

Em 25.02.1867 - (ainda não tinha assumido funções o cônsul Guilherme Ferreira Viana), um ofício dirigido a António Frederico Moor onde refere acerca dos ordenados do escrivão e do carcereiro da feitoria;

14.11.1867 - Um ofício da Secretaria de Estado dos Negócios Estrangeiros para o ministro plenipotenciário de Portugal na China, Japão e Sião, José Maria da Ponte Horta, a informar acerca da demissão de António Frederico Moor do cargo de cônsul e feitor de Portugal no reino do Sião, por decreto de 24 de Outubro de 1867, a autorizar a nomeação de um cônsul interino e a pedir informações acerca da administração da feitoria portuguesa em Banguecoque;

23.02.1869 - Portaria do Ministério da Marinha e Ultramar a determinar que o governador de Macau envie informações, relativas ao estado da casa da feitoria de Portugal em Banguecoque e à falta de um intérprete de língua siamesa na referida feitoria, para ser possível tomar uma resolução acerca desses assuntos;

26.02.1869 - Portaria do Ministério da Marinha e Ultramar a indeferir a pretensão do cônsul de Portugal no reino do Sião, Gulherme Ferreira Viana, no sentido de ser paga (1) a despesa da sua viagem de Lisboa para Banguecoque;

26.07.1869 - Portaria da Secretaria de Estado dos Negócios da Marinha e Ultramar a autorizar a Junta de Fazenda de Macau a dispender a quantia de cinco mil patacas com a conclusão do edifício do consulado de Portugal em Banguecoque e a fazer as despesas necessárias com o mobiliário (2) do mesmo, a autorizar o governador de Macau a exonerar o secretário nomeado para servir em Banguecoque se este não fôr prontamente para essa cidade, e a nomear outro que tenha conhecimento da língua siamesa e, ainda, a recomendar que o cônsul de Portugal no reino de Sião (3) arrende armazens e terrenos pertencentes ao consulado português;

30.01.1870 - Ofício do governador de Macau António Sérgio de Souza, para o Ministério dos Negócios Estrangeiros, a enviar documentos referentes a dúvidas sobre a propriedade de (4) um terreno que em 1768 foi cedido pelo Governo siamês aos súbditos portugueses residentes no Sião.

18.03.1870 - Ofício do governador de Macau, António Sérgio de Souza, para o Ministro dos Negócios Estrangeiros, a enviar cópia de um ofício do cônsul de Portugal no reino do Sião, Guilherme Ferreira Viana, onde este propunha a transferência para Singapura do consulado geral sediado em Banguecoque ficando dele dependente o consulado de Sião e a informar sobre o assutnto:

23.05.1870 - Ofício de Macau, António Sérgio de Souza, para o Ministério dos Negócios Estrangeiros, a enviar cópia de uma participação do intérprete do consulado de Portugal no reino do Sião onde informa ter falecido em Banguecoque o cônsul de Portugal nessa cidade, Guilherme Ferreira Viana:

02.07.1870 - Ofício do governador de Macau, António Sérgio de Souza, para o Ministro dos Negócios Estrangeiros, a enviar cópia de um ofício do Ministro dos Negócios Estrangeiros do reino do Sião acerca da propriedade de um terreno onde está edificada a igreja do Rozário em Banguecoque;

02.07.1870 - Ofício do governador de Macau, António Sérgio de Souza, para o Ministro dos Negócios Estrangeiros, a informar não propôr ninguém para o cargo de cônsul de Portugal no reino de Sião por não encontrar quem reúna as condições necessárias para o exercer;

30.10.1871 - Ofício da Junta da Fazenda Pública de Macau para o Ministro dos Negócios da Marinha e Ultramar, a enviar a conta corrente dos espólio do cônsul geral de Portugal em Sião falecido nesse reino, Guilherme Ferreira Viana:

13-11.1871 - Ofício do governador de Macau, António Sérgio de Souza, para o Ministro dos Negócios Estrangeiros, a enviar um requerimento de Eduardo Pereira Leite, onde este pede para ser nomeado cônsul de Portugal no reino do Sião, e a informar sobre este assunto;

19.11.1972 - Ofício da Secretaria de Fazenda Pública de Macau para o encarregado do consulado de Portugal no reino de Sião, a participar que para além do ordenado do cônsul de 690 mil reis pode ainda receber 150 mil reis para despesas da feitoria, a encarregá-lo de arrendar as casas e terrenos da feitoria portuguesa em Banguecoique a informar que esse (5) consulado não poderá continuar com renumeração da Fazenda Pública.

(1) Se analisa o cônsul Guilherme Ferreira, o seu transporte de Lisboa para Banguecoque, foi pago de sua algibeira e chegado a Banguecoque solicita que seja reembolsado. Porém o seu pedido é indeferido.

(2) O palacete embora terminado, ainda não se encontrava totalmente mobilado. Teria sido nesta altura que foram enviados, de Macau os plintos, decorativos, que ainda hoje se encontram na arcada da Residência.

(3) Oficialmente chega a ordem de Macau: "para que se arrende armazens e terrenos do consulado. Só passados 49 anos é que essa autorização, chega oficialmente, enquanto a ocupação (com receitas de rendas camufladas), já vem do final da década vinte do sec. XIX". -

(4) Teria sido as intenções do cônsul Guilherme Ferreira Viana, tentar recuperar este terreno, onde tinha sido construída uma igreja, nova, de estilo gótico e nas imediações residia a comunidade portuguesas, cuja maioria eram macaenses. Talvez tenha sido esta acção o preço, do custo, de sua vida...

(5) A Fazenda Pública de Macau recusa-se a financiar o consulado, o que se entende que no futuro terá que viver com as linhas que se cose, ou melhor: "com o montante obtido pelas rendas dos armazens e outras terras em redor da Residência".

Macau continua renitente em não mandar fundos para Banguecoque e sustentar as depesas do funcionamento do consulado. Teriam, com isto, os cônsules se governarem dos rendimentos dos talhões arrendados a firmas estrangeiras e locais.

E, também, com os emolumentos (já mais ou menos o montante significativo) dos chineses, com o estatuto de protegidos do consulado, que tinham obtido um documento de viagem na administração do Governo de Macau, em modos "corruptivos", que chegados a Banguecoque ficavam sob a protecção do consulado.

Ainda não se conhece bem o motivo dessa protecção se pelo facto das leis severas, aplicadas no Sião ou para uma continuada exploração dessa gente pelos consulados, onde teriam de pagar emolumentos, coimas e quando não conseguissem a importância para as pagar, estavam sujeitos, a permanecerem uns dias na "cadeia" do consulado.

Só temos conhecimento dos consulados de Portugal e da Inglaterra possuirem, inscritos, chineses "protegidos", de Hong Kong e Macau. Como já o mencionamos atrás Portugal praticava o "infame" tráfico de seres humanos dentro de uma escravatura sofisticada.

Ora essa gente que tinham chegado ao reino do Sião, nos juncos, com a esteira e o travesseiro, para dormirem se aconchegavam, humildemente, às condições, severas, de vida de Banguecoque. Quando a contas com a Justiça siamesa, eram trazidos aos consulados pela polícia, com um apanhado onde designada a prevaricação e entregues .

Metidos na cadeia, julgados no tribunal consular, onde o juiz era o cônsul, ladeado pelo escrivão (funcionário da embaixada); o oficial de diligências (funcionário da embaixada) e o intérprete (funcionário da embaixada). Seria aquele julgamento, que bem se pode designar de "cócoras", onde por norma a justiça real não era aplicada, mas a do fito da importância aplicada, porque essa fazia parte do sustento do consulado!


Ao fim do julgamento se o réu tivesse a importância sairia em liberdade. Se a não tivesse entrava na cadeia consular. Mas como os chineses, mantêm uma união secular, entre uns e outros lá conseguiam o montante da coima e entregá-la ao consulado.

O consulado não estava preparado para manter presos, por largo tempo na cadeia, pois se não tinha verba para os sustentar quanto mais para manter prisioneiros e dar-lhe comida!

Voltaremos mais adiante a este assunto.
Fim da 13. parteJosé Martins
CONTINUA
Informação: Nosso arquivo particulare

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

EMBAIXADA DE PORTUGAL EM BANGUECOQUE - HISTÓRIAS POR CONTAR

Parte 12.ª
Consulado de Guilherme Ferreira Viana

Foi curta a sua gerência, apenas de um ano e nove dias. Já várias vezes escrevemos sobre o cônsul Guilherme Ferreira Viana, que viria a morrer, trágicamente nas proximidades do "Ban Portuguet" afogado no curso do rio Chao Prya. Morte que envolve muito mistério e nunca a verdade foi trazida à luz. Foi o primeiro diplomata, enviado de Lisboa, para gerir o consulado. Um jovem de 27 anos, com o propósito de colocar em ordem a casa. Verdadeiramente nunca se teve o conhecimento de qual a razão do cônsul Viana teria sido destacado para Banguecoque mas aventa-se que teria chegado a notícia, ao Ministério dos Negócios Estrangeiros, que a administração da representação portuguesa no Reino do Sião não corria pelo melhor.
Poderia ter sido algum português, residente em Banguecoque, alertado Lisboa de anomalias no consulado. Tais informações de homens, que não estavam ligados ao Governo da Índia, teriam sido correntes com acusações a reis de Portugal e uma que conhecemos, bem longa, foi dirigida ao Rei Dom Manuel I, a transmitir-lhe acusações, graves, onde numa passagem informava: "andam aqui estes mamões a roubar a fazenda de el-Rei de Portugal".
Como foi dito, anteriormente, no consulado não havia dinheiro para fazer faces às despesas de funcionamento dos ordenados e os cônsules começaram a usar habilidades arrendando pedaços de terreno, já muito disputados na margem do rio onde situava o consulado.
A poucos metros e a jusante do rio Chao Prya está o porto de marítimo de Banguecoque; os serviços alfandegários e a necessidade de os agentes transitários armazenarem mercadorias para exportar e as outras, do exterior, descarregadas.
Ora a comunidade portuguesa, residente, embora não fosse muito significatica, havia homens portugueses ao serviço da Corte e interpretes macaenses que falavam as línguas: portuguesa, siamesa e inglesa.
Estes moravam no "Bairro do Rosário"; junto ao consulado, está a alfândega e nas proximidades, a comunidade estrangeira inglesa e outra.
O cônsul Viana chegado a Banguecoque com a toda a vitalidade de um homem novo de 27 anos; um patriotismo e orgulho enorme de ser português e tem em mente de recuperar as terras que tinham sido oferecidas a Portugal, as quais as "Missões Estrangeiras" de Paris se tinham assenhorado delas.
Nos parece que aqui está em causa a recuperação do bairro do Rosário, a curta distância do consulado e o bairro de Santa Cruz, a uns três quilómetos a montante, da representação portuguesa, na margem direita do rio Chao Prya.
A igreja católica, praticamente, na altura tinha ou pretendia acervar mais poder sobre a comunidade portuguesas do que o consulado.
A Igreja católica, aproveitando-se da liberdade e da tolerância dos reis do Sião em cima da fixação de outras religiões, as "Missões Estrangeiras de Paris", aquela rivalidade, havida em Ayuthaya, entre o "Padroado Português do Oriente" mantinha-se em Banguecoque.
As três igrejas, portuguesas, que existiam na nova capital: Imaculada Conceição, Santa Cruz e do Rosário estavam sob a jurisdição dos padres portugueses.
Os católicos residentes eram portugueses ou de descendência dentro de uma população que não iriam além de uns dois milhares, divididos pelos três bairros, onde a linguagem como meio de comunicação entre as pessoas era a portuguesa.
Nem sempre a expansão de uma religião está ligada à crença que os missionários divulgam mas ligada a fins materiais.
O "Padroado Português do Oriente", com raízes em Lisboa e não no Vaticano, foi fundado logo após os descobrimentos portugueses na Ásia.
A Santa Sé, através de bulas, o Papa recomendava ao Rei de Portugal que os missionários construissem igrejas e fizessem muitos cristão.
Em 1622 a Santa Sé, começou a virar o "bico ao sacho", talvez devido ao sucesso dos missionários portugueses que tinham tido na expansão do catolicismo por todo a Ásia, Índias Orientais e extremo-Oriente.
O Padroado que se regia sob as ordens de reis de Portugal, verificando que o Vaticano lhe estava a retirar poderes, protesta de que nada lhe valeria.
O Papa Gregório XVI, em 1834 e 1836 desfere o golpe de misericórdia ao Padroado e definitivamente arrumado na concordata assinadas em 1857.
Os missionários franceses, em Banguecoque, estão em vantagem, não só pelo facto de o número de seus colegas, residentes, portugueses ser diminuto, mas porque estavam bem providos de capital para construirem, imponentes, igrejas (Assunção e do Rosário), hospitais, dispensários e escolas.
Quando Guilherme Ferreira Viana chegou a Banguecoque, os franceses, encontravam bem estabelecidos.
Poucos anos depois do falecimento do cônsul Viana, os franceses tinham 55 missionários (europeus e nativos do Sião), 58 catequistas; um seminário com 78 estudantes; 49 escolas primárias frequentadas por 3.077 crianças.
Todo aquele entusiasmo do cônsul Viana pretender recuperar os terrenos, ocupados pela igreja, para que voltassem a Portugal; e a petição que teria enviado à Corte do Sião, uns dias antes de falecer, não passava de um sonho do jovem diplomata que jamais poderia trazer à realidade.
A nova capital, do Sião, crescia a olhos vistos; a fixação de estrangeiros (europeus); muito significativa; a emigração de chineses começava atingir o auge (depois do ópio o ingleses inventam a escravatura do tráfico de seres humanos) transportados de Hong Kong para o Sião aos quais, chegados aqui, lhe davam o estatuto de protegidos; os barcos a vapor já efectuavam carreiras, da América e da Europa para a Ásia e Oriente.
Junto â consulado, em casas de madeira ou de tijoleita (alguma carregada em bargues e chegada das ruínas de Ayuthaya) instalavam-se os estrangeiros, americanos e europeus.
Luis Maria Xavier, além de funcionário, superior, da alfândega, da Corte do Sião, ia dando uma vista de olhos aos negócios de seu pai, Joaquim Maria Xavier, nascido em Macau, na altura com 75 anos e que passado 13 anos (1881), viuvo, falecia de senilidade com 88, sendo-lhe dada sepultura no cemitério do "Bairro do Rosário", lavrando o óbito o missionário E.B. Dessales e certifica-o o cônsul Henrique Prostes e fica registado o assento, no consulado, com o número 37.
Os homens de barbas longas e de saias tinham tomado a permanências dos portuguesa, no Sião, de séculos.
Mas o cônsul Viana ainda encerrava no seu todo aquele heroismo dos Gamas e dos Albuquerques de séculos atrás e teria pensado: levar em frente seus propósitos de reaver a propriedades que de facto tinham sido doadas a Portugal.
Sua nau navegava contra a maré... todo aquele crédito que os portugueses tinham grangeado perante o reis do Sião tinha-se esfumado no correr do tempo.
Os cônsules, representantes de Portugal não estavam bem vistos pelos reis Rama III e Rama IV, cuja culpa não lhes pertencia, mas aos governos de Goa e Macau que deixava ao completo abandono em Banguecoque vivendo de expedientes ou empréstimos da Corte.
Ao desfolharmos a obra do historiador W.A.Wood "A History of Siam", na página 276 vamos encontrar um parágrafo que trancrevemos na, integra, na língua inglesa:
" In 1818 a Portuguese envoy, Carlos Manuel Silveira, came from Macau to Bangkok, and commercial Agreement was subsequently conclued between Portugal and Siam. Senhor Silveira later became the first resident Portuguese Consul in Siam. His position seems to have been curious one. He bore the Siamese title of Luang and Captain Burney reported in 1827 that the King of Siam had pronouneed sentence of death upon him: he was, however, subsequently pardoned. In these days it would seem that "what with one consideration and another, a Consul´s lot was not happy one".
Um trecho, que desconhecíamos, em que o Capitão Burney lhe concede as melhores referências de quando veio a Banguecoque, assinar preliminarmente, o primeiro acordo, entre a Inglaterra e o Sião, de amizade e comércio e depois, em outro relatório (falso ou verdadeiro) a que o historiador, cônsul de Inglaterra, em Chiang Mai, senhor Wood escreveu, cem anos depois, na sua obra, publicada em 1924, a dar conta que o cônsul Carlos Manuel da Silveira, teria sido condenado à morte, pelo rei do Sião e que depois a pena lhe tinha sido comutada!
Vamos dar conta do que escreveu o Monsenhor Manuel Teixeira relacionado com o cônsul Viana:
"Sucedeu a António Frederico Moor, sendo nomeado cônsul-geral do Sião, de que tomou posse a 16 de Setembro de 1868.
Marques Pereira no seu «Relatórios de I-III-1881, diz:
«O novo cônsul-geral Guilherme Ferreira Viana estabeleceu neste ano registos regulares e inscreveu portugueses cristãos:
Em 1868....................................................... 23
E em 1869.................................................... 11,
mas logo faleceu, desastrosamente»
Dele se pode dizer que brevi vivens tempore, explevit tempora multa: estando mui pouco tempo à frente do consulado, o exemplo da sua conduta ainda perdura. Foi ele um dos melhores cônsules que Portugal teve no Sião. Infelizmente suicidou, deitando-se ao rio Menam (Chao Prya) em 25 de Setembro de 1869. No seu «Relatório» de 30.12.1882 o cônsul José Loureiro, depois de relatar a má conduta de Henrique Prostes, dizia em 1881 -1882: «Que a conduta do cônsul Prostes fosse excepcional, não quero crer, porque de alguns de seus colegas e antecessores, não se faziam boas ausências exceptuando, porém, o falecido cônsul Guilherme Ferreira Viana, que, segundo a opinião geral, soube fazer-se respeitar pelas autoridades siamesas e por todos quantos o conheceram, o que faz honra à sua memória. (Nota nossa: a data do falecimento está errada, cuja falta não sabemos se do Monsenhor Manuel Teixeira, ou do cônsul Marques Pereira, a morte do cônsul aconteceu em 25 de Abril e não a 25 de Setembro, conforme assim o reza documentos do consulado dos quais temos cópias. É falso que o cônsul Viana se tenha suicidado, mas morreu afogado ou o afogaram. Continua a sua morte um mistério que nunca será desvendado. Publicamos, em Maio de 2008, um artigo profundo, com cópias de documentos e pormenorizado sobre aquilo que nos pareceu, melhor, em cima da vivência do cônsul Viana que poderá ser lido clicando no endereço abixo designado.
José Martins
Fim da parte 12.ª
CONTINUA